terça-feira, 13 de setembro de 2011

Ampulheta


Perguntaram-me por que “ampulheta”? O que tanto a questão do tempo aparece em meus devaneios como um fato a ser comentado e observado? Sem titubear, pois a resposta não precisava de reflexão, fui taxativo: dois são os motivos que me levam a ter naquele objeto a minha atenção.
Primeiro porque o tempo é inexorável; ninguém pode detê-lo. Isto sempre me assombrou e me atraiu, como dois sentimentos que caminham paralelos em mim. Em outros termos, para melhor me expressar, é dizer que devido as areias que escorrem terminamos por nos defrontamos com a nossa incapacidade de retroagir e diante do implacável (que é o tempo) atentamos para a nossa pequeníssima e frágil dimensão frente à existência.
O segundo motivo (nem por isso secundária razão) é o da possibilidade de fazer girar as âmbulas, passado o último grão de areia. Aferro-me a isto tal qual criança que não pode perder a sobremesa. Dá-nos a vida outras chances, não de refazer o já passado, mas de empreender novas formas de experienciar, tornando instigante e excitante o movimento da inversão do relógio do tempo. Uma vez mais, coloco-o “ɐɔǝqɐɔ ɐʇuod”.

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Tempo, senhor do tempo?


Numa “conversa de bêbados” (absolutamente sóbrios) da qual participava, escutei uma frase nada original, mas magistral: - Maior do que o poder do sol, só o tempo. Lembrei-me de todas as instâncias em que o “magnânimo” senhor me espremeu e me fez atestar realmente o seu controle e a sua predominância sobre a vida. Não só porque a ele atribuem a cura de todos os males, como também, outorgam-lhe a gerência dos esquecimentos. Quem, dentre os mortais, nunca ouviu dizer que “com o tempo tudo passa”. Cabe-nos as inquietações: A quem é confiada a tarefa de fazer passar? Seria o Tempo o articulador dos mecanismos ou repousa sobre nossos ombros a capacidade de nos engendramos em tantos outros acontecimentos que rejeitamos as dores do passado e terminamos por esquecê-lo?
Fez fama o Tempo e ele, poucas vezes, deu crédito aos participantes do processo, ou seja, cada um de nós. Não o culpo, pois diante de nossas faces ele sempre expôs o rosto pronto às críticas. Quem não o esbofeteou, não o fez por não querer (ou por não saber, tanto faz!). Mas aqui sempre esteve e estará.
Não vou adonar-me da responsabilidade de dar a conhecer aos homens o quanto podemos também ser coautores do controle das nossas emoções e de nossos olvidos. Porém, faço questão de ser uma voz que se une aos tantos que resvalam na suspeita de que também podemos estar no leme de nosso viver. Ó objeto translúcido do mais fino cristal, ampulheta que és, dou-te até a prerrogativa, no movimento do teu escoar, de seres invocado como Senhor do Tempo.

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Travessia


Na sala redonda, clara e limpa, nenhum quadro, nenhum móvel. Nada além das portas. Não restava outra coisa a fazer a não ser segurar firmemente a maçaneta de uma delas e seguir. Sem dar crédito à escolha, lançou-se o homem à tarefa e cruzando o portal se foi.
Do outro lado, o pó levantado durou um tempo até que, voltando a cair no chão, descortinou a paisagem. Era pedregosa, árida e quente. As construções de rochas firmes deixavam antever nas frestas as samambaias que nasciam e os musgos do abandono. O caminho pouco regular, coberto de barro era lama de pouca segurança para andar. Viu ao redor os transeuntes apressados que iam todos na mesma direção. Roupas de tecidos crus, soltas e pouco cuidadas. Acompanhou a multidão e cruzando os portões de imensas toras de madeira, deparou-se com uma arena central oval onde os gladiadores lutavam até a morte. Dando-se conta do que lhe sucedera ao atravessar aquela porta da sala vazia, viu-se entre o esfacelamento da linha temporal e o absurdo do momento. Assustado, correu rapidamente para tentar escapar de onde se metera, e percorreu o caminho contrário à gritaria e ao alvoroço dos que nas arquibancadas já pediam a morte dos lutadores. Ofegante e desesperado, não havia solução para a fronteira rompida e, pela viela, viu entreaberta uma rústica porta de casebre. Jogou-se sem pedir licença.
Rosto no chão, susto no coração. Ergueu-se até que a vista se acostumasse novamente. No saguão, pilastras lisas e brilhantes, chão encerado e reluzente, refletia as sombras das cortinas de fino tecido que esvoaçavam em razão do vento. Mas como um casebre era tão luxuoso? O que escondia quem ali habitava? Notou que os homens e as mulheres daquela ocasião eram mais amorenados e de corpos mais talhados. Encostada na parede a estátua negra do grande gato denunciava o culto a Bastet. Mais uma vez, atordoou-se por haver transposto, em segundos, séculos e continentes. O cheiro âmbar no ar, além de mais inebriar, fazia crer que a verdade se distanciara dele. Seguindo pelo amplo corredor, onde as pinturas contavam histórias, avistou outro vão em sua forma arqueada coberto pela transparência de uma espécie de voal branco.
Sem saída outra, já acelerava o coração com tanto medo do que encontraria do outro lado que chegou de olhos fechados. Entretanto, pode perceber que o frio da brisa a tocar-lhe o rosto era quase molhado. Timidamente, entreabrindo a visão, deparou-se com uma imensa floresta dos mais intensos e diferentes tons de verdes, junto a uma queda d'água colossal. Os ruídos eram indecifráveis, eram muitos e em vários tons e decibéis. Estava novamente longe, muito longe do que poderia imaginar ser a sua própria existência. Sentou-se, ainda tonto das travessias, e dormiu.

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Trajetória


Na caminhada lenta e compassada, o homem ia descortinando o caminho. A estrada, talhada, longa e reta, estimulava o andar, e ele, pela sensação de liberdade dada pela brisa que suavizava o esforço, tomava mais e mais impulso.
Devido ao conforto e à segurança do trajeto, aumentava o ritmo. A velocidade foi tanta que fez substituir os seus pés humanos por firmes patas bem plantadas no trotar.
Agora, o galope do corcel ganhava o chão e levantava um rastro de poeira diante dos olhos dos que o quisessem acompanhar. Zás...! Nem tanto ao longe, a visão do animal conseguiu detectar o fim da senda, fazendo com que o coração batesse mais rápido que o próprio galgar desenfreado de quem ganha a vida! Se era abismo, optou por desconhecer o perigo disto e sem retroceder, aumentou a corrida. Lançando-se para o penhasco a fim de que a adrenalina da morte lhe desse as asas, tornou-se ave altaneira.
Plainou no ar até recuperar as forças necessárias para o mergulho no vácuo entre as paredes rochosas e gigantescas do cânion. Tal como flecha que busca seu alvo, seu corpo encontra a barreira do espelho d'água e na profundeza do rio, brotam as escamas e nadadeiras que lhe dão a mobilidade do movimento. Lá se vai, correnteza afora, para encontrar a foz e tornar-se grande oceano de paz.

terça-feira, 16 de agosto de 2011

Interjeição


A jovem já pronta para sair. Nos dizeres antigos, mas muito apropriados, de minha avó, estava ela toda “emperequetada”. Preparou-se do mais delicado jeito e forma. Maquiagem primorosa, vestido bem cortado e acinturado. Sandálias luzindo e bolsa impecável. Todo o preparativo tinha em mente a expectativa de pelas ruas poder ouvir de diversos lugares o mesmo diapasão: esperava ouvir os “óhs” que os observadores lançariam em reconhecimento a todo o esforço da produção. Coração meio acelerado não via a hora de ir. Olhadela final no espelho do hall de entrada (que nesse momento se fazia de saída) e lá se foi!
O dia estava claro diante dos olhos, afinal, o desejo movia os passos... O primeiro minuto se foi... passou o segundo, o terceiro.... os ponteiros do relógio eram inclementes e pareciam acelerar o tempo. Nada a moça ouvia daquilo que tencionava. Nem um longínquo suspiro. Nada! Deu voltas, escolheu outros itinerários, retorceu esquinas, esticou avenidas... em vão.
Teve que voltar e abrindo a porta de casa, largou a bolsa, tirou os sapatos, recusando-se a abrir as cortinas. De que serviria a luz do dia? Foi para o banho, a água morna relaxou a musculatura tensa da caminhada. Permaneceu ali um bom tempo!
Já no quarto, corpo seco, cama pronta, decidiu não se vestir. Desnuda e exausta, deitou-se! Nesse momento, sem ousar nada pensar, começou a sentir um vibratório deslocamento de ar que vinha de fora. Aquietou os sentidos para prestar mais atenção e percebeu o estrondoso som oriundo de muitas direções. A percepção do espanto foi compreendida no eco de um retumbante “Oooooooh”.
Adormeceu com a lição aprendida de que por mais ouro que se possa vestir para os outros, ninguém é mais valioso do que no silêncio e a nudez para si mesmo.

terça-feira, 9 de agosto de 2011

A gota


Muitos foram os que disseram para a pequena gota que, pelas suas dimensões, ela nunca molharia um jardim inteiro. O máximo que cumpriria como função seria um “borrifo” na terra. E mais: rezasse ela para que em tal dia não houvesse um sol escaldante, pois se assim o fosse, nem tocaria o solo, evaporando rapidamente.
Triste e encarando a sua pequenez a gota tentava justificar que não era pelo tamanho mas pelas propriedades o seu valor. Ainda assim, eram inúteis os seus argumentos frente aos destruidores da estima alheia. “De que servem as propriedades se não modificarás as condições da plantação?”
Frases desta estirpe, como um martelo a golpear a noite, impediam o sono da pobre. Descansar nem pensar, muito menos dormir.
Tornando-se um martírio ali viver, outra não foi a opção a não ser partir. Isso mesmo. Ir embora! Fugir? Talvez! Digam o que disserem. O que a menina dos ouvidos exaustos queria era se livrar do tormento dos depreciadores.
Reuniu forças para seguir sem olhar para trás. Percorreu os sulcos que ia encontrando no caminho. Sentia-se novamente fatigada, mas de um cansaço novo, desafiador pelo menos. Horas, dias, tempo...tempo... Tempo suficiente para que ela escorregasse em uma fenda profunda e muito empinada e perdendo o controle dos movimentos foi via abaixo até se estatelar, no fim caminho, em um gigantesco lençol de água que se formava à beira do mar.
Perdeu-se ali a minúscula, dando lugar ao gigantesco oceano, formado, é verdade de uma infinidade de tantas outras gotas. Hoje, ela permanece latente e intacta a manter a essência da vida dos que um dia dela zombaram: Total e completa ela segue!

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Primeiro e Segundo

Iam pela vereda os dois de mãos dadas. O Primeiro, adulto nos anos que possuía, segurava forte a mão do Segundo, criança na idade que levava consigo. O destino, do outro lado da rua, esperava-os. Entretanto, o fluxo dos veículos que circulavam por ali impedia, num primeiro momento, que eles atravessassem.
Primeiro, homem de histórias já vividas e ouvidas, tentava ser prudente, buscava a faixa de pedestres para cruzar o caminho. Segundo, menino menos provido de cancha e movido pelo entusiasmo, queria aproveitar as brechas dos pequenos engarrafamentos que nasciam no asfalto.
A tensão se refletia no esticar de ambos os braços. Um puxando para encontrar a segurança da travessia e o outro se jogando para lá do meio-fio, vendo entre os vãos dos carros que se abriam diante dos seus olhos uma chance de passar.
Via-se que Segundo preocupava-se com Primeiro, ajudando-lhe a não tropeçar nos buracos da calçada. Bonito cuidado da inocência quando se crê poderosa! Da mesma sorte, Primeiro se esmerava em dar sustento a Segundo para que este não corresse riscos. Belo exemplo da experiência quando já vira na pele resultados das ações passadas! E não pensem que na trajetória deixava de haver a clara ajuda mútua. Se o maior queria ensinar a correta forma de cruzar a via, o menor dava mostras da necessária agilidade que os anos fazem esquecer.
Primeiro cauteloso, Segundo ligeiro. Um pelo vivido, o outro pela descoberta.
Desta maneira, caminharam até que a lei da complementaridade os fez chegar à sua meta. O arfar dos “uffs, conseguimos!” no mesmo tom de voz denuncia as suas identidades: No Primeiro me reconheço, neste momento em que vivo, enquanto que no Segundo percebo o que fui há tempos atrás. Seres em um mesmo ser que luta nas correntezas das possibilidades e reluta, tantas outras vezes, na contrapartida das oportunidades. Os dois sou eu!

terça-feira, 26 de julho de 2011

Bicicleta

Sentado no meio-fio, descansando de caminhar, vi passar por mim, numa velocidade considerável, uma bicicleta. O mais curioso é que não consegui me deter nem no condutor e muito menos nos detalhes do veículo, nem cor, nem modelo, nada! A razão não foi a rapidez do deslocamento. O que me desviou a atenção da percepção do todo foram as redondas formas que engendram o movimento. Mais especificamente, uma das varetas de aço escovado que compõe o aro. Não me aventuraria a descobrir o já descoberto – a roda. Entretanto, lancei-me no delírio de enlaçar a vida naquele objeto. E, caso me permita divagar, creio que consigo estabelecer os pontos de interseção entre a existência e a haste.

Se bem observarmos, repetidamente passamos pelos mesmos sinais enquanto vivemos. Como a órbita do planeta que traça o seu percurso e volta ao ponto de partida, experimentamos o gozo e o sofrimento e a cada completamento do trajeto reconhecemos e aprimoramos tais sensações.

Assim, o pneu da bicicleta fecha, de tempos em tempos, um ciclo. Quanto dura a volta total? Tudo varia a partir do ritmo da pedalada e de o quanto estamos ainda com fôlego para empreender mais esforço. Vai dizer que não se parece à vida? Qual a periodicidade de retomarmos os fatos e as experiências? As coisas não estabelecem uma estrita dependência de fatores como disposição enfrentar? Não estamos a todo instante revendo se vale à pena correr mais ou diminuir a velocidade?

O certo, mas o certo mesmo, é que de uma forma ou de outra, mais cedo ou mais tarde, a vareta cromada da nossa vida volta a passar pelo mesmo ponto que tangencia o chão e no impulso de continuar existindo, segue o seu curso para fechar daqui a pouco mais uma volta.

terça-feira, 19 de julho de 2011

Pecados e inocência

Sabe quando você se arrepende de algo que depositou na conta da inocência achando que era, no mínimo, inofensivo, mas que se transforma em rota de colisão e quando se dá por si, já entornou o caldo? Pois então. O que fazer? Justificar os atos que você continua achando que são ínfimos e que não iriam dar movimento algum em nenhuma parte da sua vida? Ou reconhecer que houve, apesar da visão sem maldade, um erro da sua parte?
Na atual conjuntura, em mim não resta a menor dúvida: devo dizer que errei não tomando como referência atos que não cometi, mas errei por me esquecer de que vivendo e convivendo somos parte de um conjunto.
Razão pela qual abri mão de lhes escrever hoje outro texto, motivado por uma observação corriqueira, para dar destaque às reflexões dos erros que cometemos mesmo sem querer.
Fui solapado pela minha inocência e insegurança e acabei resvalando na tolice. Na tolice do não dito, na mal focada luz do apagado no tempo, na sombra das minhas frustrações. Permito-me, agora, extravasar essa agonia, não para justificar os dois adjetivos postados (inocência e insegurança), mas para meditar, através do ofício do discurso revelado, sobre as besteiras que fazemos sem necessidade. Réu confesso não de transgressões, mas de omissões, entendo que ao abrir uma lacuna de silêncio podemos criar “monstros” inexistentes. E a pergunta que permanece é “quem os aniquilará?”
Desculpo-me publicamente pela minha insensatez que pode matar tanto quanto a estupidez. Ambas, não só pela rima, mas pelas consequências, são candidatas a agravar belos espetáculos de vida. E para não correr este risco, lanço-me na tarefa de dizer “que besteira eu fiz (ainda que não a julgando como tal) e que quase pôs a ruir o valor do que vivo. Por onde anda a lucidez (mais uma rima pobre) da segurança e da certeza da verdade que em nós habita? Salvem-me, ó palavras que engendro na mente e pulverizo no som da voz. Salvem-me de minhas escorregadelas a fim de que eu seja absolvido a partir de mim mesmo, sem martírios e sem pecados.

terça-feira, 12 de julho de 2011

Construção

No vai e vem entre a linha d'água que desenha o chão num tom mais escuro e a luz que se reflete mais clara, na areia, via-se a sombra das pernas curtas e apressadas que iam rumo à parafernália de plásticos, cores e formas que circundavam o fosso. Abrindo as mãos, despejava a argamassa tão molhada que ao invés de cair, escorria. Na mesma pressa, o caminho de volta trazia a missão de que não poderia demorar buscando mais material para a construção. Muitas tentativas. Muitas delas frustradas, pois gastando o tempo da trajetória, o sol, cumprindo sua função, convertia tudo em bloco ressecado de terra fina.

Mas o menino era persistente. Continuava no empreendimento.


Com uma gigantesca dificuldade iam-se levantando paredes e pilastras, preparando torres e bastiões. Por vezes, a ameaça de um vento natural que passava, outras, o sopro gerado por afoitos e distraídos que giravam por ali, transformavam o minúsculo corpo em obstáculo e segurança.


Exaurido da função, quis dar melhores resultados ao trabalho e deixou que lâmpada das ideias se acendesse. Por que não utilizar um adjuntório para garantir que as intempéries não voltassem a ser um infortúnio?


Fuçando aqui e acolá, encontrou num terreno meio-baldio um velho saco pardo com o acinzentado pó mágico. Recolheu o que lhe cabia nas mãos e triunfante aproximou-se da sua obra. Polvilhou o que já erguido estava e se dirigiu uma vez mais à orla. Trazia agora a empolgação na corrida. Todos os problemas de manutenção do trabalho estavam garantidos. Espargiu o líquido por cima de tudo que estava coberto de cinzas e esperou. Ufa! Era descasar e observar com admiração a perpetuação da labuta.


Como sempre, o astro-rei não tardou a deferir sua radiação e calor, calcificando ainda mais o amontoado esturricado de areia. O criador, ao observar a sua criação, com o peito estufado de quem diz “venci”, nota alguns pequenos ajustes que deveriam ser feitos. Sentou-se defronte a ponte que abaixada unia o portão de entrada à estrada dos forasteiros e chorou. Percebeu que nem sempre o melhor caminho é perpetuar os castelos que se constroem, pois mais adiante, em percebendo a necessidade de novas adaptações, não resta outra coisa a fazer a não ser derrubar tudo (com mais esforço e força do que se fosse somente areia) e começar outra vez.


Algumas imortalizações são como lápides: servem para somente informar que ali jazem os sonhos.

terça-feira, 5 de julho de 2011

Trigêmeos

Havia chegado a hora. Um corre-corre, diríamos “normal” em momentos como aquele, tantas vezes vivido. Entravam, na sala de parto, os envolvidos. O que não poderiam supor é que, antes mesmo de começarem os procedimentos, quando todos se deram conta da situação, o primeiro já tinha nascido. “Foi muito rápido”, diziam. “Quando percebemos já tinha acontecido”, retrucavam outros. A verdade é que nasceu!
Mas não acaba aí a história! Há mais por vir. A respiração ritmada impõe o tom dos trabalhos. Lá vem mais um... todos preparados. Dentro dos conformes, a sucessão dos fatos flui na tranquilidade do esperado. É possível ter certeza do que se faz ali e, permitindo-se aproveitar cada segundo daquele milagre, o segundo surge. Limpam-no, colocando-o ao lado da mãe para eternizar o instante na foto com flash.
Sabia-se, de antemão, que o serviço não acabara. Todos na expectativa e nada... Esperavam, esperavam, esperavam... A angústia assaltava a uns, o temor se interpunha entre outros. Uns poucos (mas poucos mesmo) usavam da paciência. Sussurros para cá, movimentos para lá. Olhos atentos para ver a decisão dos responsáveis. Um encontro de afoitos, nervosos, tensos, desatentos, despreocupados. Uma sucessão de pessoas no ambiente a aguardar que viesse o último “rebento”. Quando não tinha mais jeito, eis que surge.
Agora, a mãe, a senhora Vida, vai bem. E coube ao pai, o senhor Tempo, a incumbência de registrar os filhos. O primeiro chamou-se Passado, Presente o segundo e ao terceiro deu-lhe o nome de Futuro.

terça-feira, 28 de junho de 2011

Perplexo

Deparei-me tentando justificar os meus paradoxos. E o mais sério da questão era que tentava explicá-los para mim. Seria uma desculpa para seguir incorrendo no erro de me perder no tempo ou uma ingênua forma de me entender? Somava-se a este sentimento mais uma pergunta: Acaso existe esta possibilidade última de se auto-entender? Insistência jamais foi persistência, é verdade, entretanto, caminhar pelos meandros de ambos os lados – do tempo que escoa e do próprio conhecimento – faz-me sentir mais seguro, não das respostas, mas da certeza de que estou, ao menos, tentando.

Não quero dar mais importância ao fato do que ele merece. Porém, é inevitável não me sentir incomodado por ir descortinando diante dos próprios olhos que há uma série de incongruências entre aquilo que sou, o que pensam que sou, o que acho que sou e o que acredito que deveria ser.

Não entendeu? É fácil! Basta que você se coloque no meu lugar e se indague: Sei exatamente quem eu sou? Se sei, por que é então que alguns não me entendem? Não têm os outros esta obrigação, mas, hão de convir que, em havendo um hiato entre o que penso de mim e a forma como esse “eu” chega ao outro, alguma divergência deve existir. Deste modo, minha figura não é outra se não é a instauração da perplexidade que me assalta no exato segundo em que acordo e alimento a esperança de ter mais um dia para me surpreender em mim mesmo.

terça-feira, 21 de junho de 2011

Por onde anda o poeta?

Revisitando as palavras do doce e angustiado Bandeira, reedito-as nos seguintes termos de alerta inicial: não sou poeta menor, que dirá poeta! Mas quero crer (e até prova em contrário não abro mão da crença) que existe aquele que escreve e aquele que, independente do que escreve, vive! São dois entes!
Ficou confuso? Tento explicar:
Palavras e traços lançados no alvo alvo pertencem a um deles. O que não quer dizer necessariamente que são o espelho do outro. Ninguém estabeleceu esta regra de reciprocidade para a poesia. E fadaria ao fracasso caso assim lhe fosse imposto. Não só cercearia a criação, como impediria o sonho.
Que blasfêmia infame a de associar os versos ao punho que tão somente sustentou a pena! Imaginemos, pois, a seguinte cena:
O indagador tentando desfazer a confusão,
Pergunta ao versejador em primeira mão:
- O que quis dizer com suas linhas?
Eis que brota a resposta “Não são minha!”
- Não falei minhas e sim linhas!
- Pois bem entendi e lhe disse que não são minhas!
- Ora pois, de quem então?
- Suas são!
- Minhas?
- Meu rapaz! Por que a indagação? Não perguntes mais. É vão!
- O que faço com a dúvida que me consome?
- Larga a busca do pertencimento de nomes
E, se sagaz consegues ser,
Desfruta do que os teus olhos podem ler.

terça-feira, 14 de junho de 2011

A Pessoa e aos que amam

Pelo aniversário (ontem) de Fernando Pessoa


Fernando que me perdoe,

Mas eu também

Sou um guarda-dor

Daqueles que sentem no peito

O ardente feito

Do sentimento-amor.



Abrir meus braços

E ter de igual modo

Aberta a cabeça.

Esta é a sina de meu posto

Para me manter longe dos pensamentos errantes.



Sou eu um guarda-dor!



E que venham, então, os que choram de rir,

Os que tontamente amam

Sem saber por quê.



Caminhem comigo.

Eu os conduzirei

Na rota dos aprendizes

Que ensinam a amar.

Faremos, assim, de nosso mundo

O paraíso dos que lutam

Pela vitória dos amantes.



Deixem que eu faça jus ao meu cargo

Ficando tempo largo

Como que a compor:

Sou um renovado guarda-dor.

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Cacos de vidro

À Adrianne Ogeda


Olhando assim de soslaio é o caos. O número grande de cacos de tamanhos e formas variados assusta e denuncia que houve alguma catástrofe! A visão se embaralha na confusão e na desordem da quantidades de cores e as mais diferentes texturas de vidros. Parece, num primeiro momento, que o trabalho de limpeza, quando se iniciar, não findará.
Quem teria feito aquele estrago todo e nem se deu ao luxo de recolher os destroços? Ousadia, hein! O culpado (se há culpados), pelo visto, está muito seguro de que alguém, com excesso de senso, virá para recolher o material roto. Só pode ser isso! Provavelmente é isso mesmo! Sempre há o “folgado” que sabe que o “incomodado” vai colocar a mão na massa e deixará tudo direitinho como antes.
Assim vão eles, assim seguimos nós!
O que não sabem – e nem desconfiam – é que sem nos importarmos com o que pensam os criadores de cacos (e de casos), cumprimos as nossas tarefas e fazemos bom uso do que nos dão. Não nos lastimaremos. Isto seria perder tempo e energia. Não nos sentaremos à beira do caminho, achando que o melhor é desistir. Tal atitude só nos igualaria aos estabanados desestabilizadores.
Bem se vê que não nos conhecem, pois mais do que mexidos pelos pedaços de cristal que se espalham pelo chão, nosso tino de vontade galga outros patamares. Não se dão conta do que fazemos, nem como e nem porquê. Mas repousamos os sonhos na tranquilidade de nosso dever alimentado pelas certezas de somos capazes de transformar aquela coleção de fragmentos de vidros no mais belo mosaico digno de ornamentar as catedrais da existência.

terça-feira, 31 de maio de 2011

Seguem Eros e Narciso

Antes de me acusares como o subversivo do instaurado, dá-me a oportunidade de falar. Não te peço licença para me justificar. O que estou pleiteando é o espaço dos argumentos. Não tenho – e por certo não terei – a intenção de mudar as imagens e nem, muito menos, anseio lançar-me na autoria da desmitificação. Esse certamente não sou eu. O que faço, e isto permito-me assinar, é reposicionar-me diante do discurso repassado através do tempo. Complicado? Não! Basta ter calma e deixar que eu explique.
O que emoldura o meu cenário é a hipótese muito plausível de um instante anterior ao que foi legado à humanidade. Refiro-me ao encantamento narcísico. Todos aceitam a verdade da cena na qual o jovem se enebria de si mesmo, mas poucos retrocederam no jogo para questionar outras hipóteses como a que minha veia inquieta lançou. Por que seria tão absurdo que Eros tivesse chegado antes e, cumprindo com o que lhe é missão, houvesse disparado sua flecha na alma do menino? Ó crueldade dos ímpios, quantas vezes foste tu mesma que buscaste desculpas para o amor? Permite que eu potencialize outras possibilidades que não só as restritas consagradas. Narciso apaixonou-se sim, mas não unicamente devido a uma maldição lançada. Houve sim, naquele local uma confluência dos atos e, na concordância do acaso, vi juntarem-se a magia, o desejo e o destino.
Eis então, querendo tu ou não, o resultado do que penso ser processo: Não há mergulho em si mesmo se não existe a presença prévia de um Eros.

terça-feira, 24 de maio de 2011

Vaticina Tirésias

O que impressiona é o enquadramento da cena. Só se observa – ou pelo menos só se difunde a imagem – o espelho d'água, o desenho do rosto alvo tremulando nas ondulações provocadas pelo vento que por ali passava e debruçado à beira do rio aquele corpo bem feito de musculatura e textura. O silêncio também colabora com o tema e quase impede de questionar os motivos que levam o imberbe a estar paralisado no ato da admiração. Está inebriado pelo que vê? Encanta-se com a própria face reproduzida? Provavelmente sim. Mas não esta não é a razão absoluta da questão. Os olhos pouco curiosos não percebem um entorno mais amplo. A espreitar, do alto de uma copada árvore, uma sombra se delineia. Mais corpulento, porém não menos definido e alvo, a figura aponta a sua seta em direção ao jovem tombado às margens das águas.
Eis o encaminhamento da explicação plausível: Ele fora atingido pela poção do apaixonamento e por desconhecimento ou inocência não soube livrar-se de si mesmo e cristalizou a paisagem. Parou no tempo de tanto se olhar. Fato que desestabiliza o astuto observador e força-o a lançar a segunda flecha. O toque pouco suave e repentino da pontiaguda prata embebida no veneno do amor fez com que o autoadmirador assustadiço pulasse e perdendo o domínio do próprio corpo, rompesse a inércia e caísse no curso da fonte de seu enfeitiçamento. A dor no coração de Eros se traduziu no traço de uma única lágrima em seu rosto que ao tocar o solo, molhou a terra onde havia nascido a flor de Narciso.

terça-feira, 17 de maio de 2011

Em paz!

Tudo começa realmente pela percepção do entorno. Antes mesmo de uma avaliação criteriosa, as primeiras impressões constroem um conceito, ainda que este possa ser posteriormente refeito com bases mais sólidas de conhecimentos e informações mais fidedignas. Mas, inegavelmente, o princípio parte da sensação.
Assim, tem início a brisa. As folhas e os pedaços de tantas outras coisas espalhados no chão denunciam que se aproxima o vento. Tudo se move! Quanto mais o tempo passa, mais se entende do que se trata. Aumenta a intensidade do ar em movimento. O corpo oscila, a poeira atrapalha a visão, a temperatura também muda.
O embate se faz! Não há como fugir. As vozes, em tons tão diferentes, daqueles que assistem colaboram com a surdez e há pouco espaço para a lógica do pensamento. É a aproximação do redemoinho que paralisa a ação.
Dói e assusta o instante exato em que o tufão toca a pele. A solução é enrijecer o corpo e resistir ao que vem de encontro.
Enquanto o pó e os destroços que formam o vendaval chegam não existe raciocínio. Permanecem o incômodo, o medo e o desconhecido. A única coisa a fazer é nele entrar (ou se deixar engolfar). Eita transição amarga e aviltante!
Estando em meio ao giro frenético do destempero da natureza, a angústia aperta a garganta, o grito não sai. O tempo perde os ponteiros e parece infindável. Tudo roda, entontece e entristece.
Vencidos esses eternos segundos, lá no centro da confusão, uma situação, no mínimo, mostra-se insólita. Um silêncio impressionante e uma ausência de turbilhão. Os olhos enxergam o lado de fora e percebem que ainda resistem os que se apavoram e gesticulam corpos e mentes. Não se ouve o que dizem e não se entende o que sinalizam, mas o fato é que ali, enquanto a velocidade centrifuga à volta, o olho do furação é o estado a ser vivido em paz!

terça-feira, 10 de maio de 2011

Escolhas II

Diante de mim, a sucessão de portas... a alternâncias e a variedade de oferecimentos não representavam a bondade de quem quer ajudar. Claro que não! Era sim a picardia de fazer com que o selecionador, no caso eu, paralisasse ante as incertezas e das dúvidas.
Num primeiro instante, a dicotomia se fazia representar pelo vacilo inevitável do susto e pela imperiosa necessidade de seguir. As duas opções por si só excluíam quaisquer outras possibilidades. Não havia nada que colaborassem com a dissuasão da confusão, restava somente o risco da escolha.
Fui...
Já do outro lado, cruzado o umbral, fechada a porta, era hora de seguir.
Os olhos ainda ardendo devido à transposição do ambiente, era o começo da adaptação aos novos tons de luminosidade do lugar.
Neste fragmento de tempo, alguns se apavoram e pensam que jamais voltarão a ver com a mesma plenitude de antes. Aí repousa a primeira sensação de fracasso que pode levar a perder a oportunidade da experimentação. Tempo... tempo.. tempo.... Tempo de esperar, tempo de se acostumar, tempo de entender o que faz parte do inédito. Não conseguindo, muitos se boicotam e desesperados estancam.
Passado o sufoco inicial, pé ante pé, lanço-me na tarefa de gerar movimento. Aguçam-se todos os meus sentidos conhecidos e chego a imaginar que existem outros que nem me dou conta. Estudando o espaço com o corpo, esbarro nos obstáculos, resvalo na incerteza do solo, sinto o vazio dos empecilhos, respiro com cuidado para não deslocar o desnecessário... É assim que, promovida a seleção, devo manter-me até que após longa convivência, o que era ignoto se aproxima do domínio do conhecimento.
E a vida, essa voraz desestabilizadora, quando me vê mais seguro, torna a apresentar no final do percurso outro feixe de portas para renovar o processo da escolha.
Então, lá vou eu outra vez!

terça-feira, 3 de maio de 2011

Escolhas

Diante de tantas portas e uma única chave, parado ali, só me restava entender qual deveria ser o procedimento e qual o objetivo da cena. Rápida a mente começa a conjecturar, duas eram as possíveis respostas: ou somente uma das portas encaixava-se perfeitamente na chave (propositalmente não falei sobre o encaixe da chave na porta) ou se tratava de uma chave-mestra!
Como ninguém me forneceu manual de instrução, fui a diante, investi o meu esforço na abertura de uma porta, deixando as outras.
Haveria tempo de testar porta por porta? Caso estivesse eu errado, haveria a recuperação da chance em outra saída? Arriscaria um tempo que sequer sabia existir?
Escolhendo, “desescolhe-se” tudo o mais (permitam-me o neologismo). Nisto não há problemas ou danos. Certamente porque o processo de se lançar em uma direção pressupõe o abandono das outras tantas.
Seja pelo motivo que for, tomamos o rumo da existência ou porque assim o quisemos consciente – e bancamos a atitude – ou porque somos engolfados pelas circunstâncias – o que fazer? A verdade é que as nossas seleções se configuram pelas oportunidades conquistadas, pela semeadura do que se intenciona, conta com o fator sorte ou acaso (nem excludente e muito menos inexistente), encontra guarida também na ausência de visão mais ampla, em suma, a vida, em múltiplas possibilidades, pode brincar conosco de originalidade. Estejamos preparados!
Talvez, o fator mais crítico do abandono das chances em detrimento de uma só seja a dor do não aproveitamento da posição em que nos encontramos. Pobre daquele que, seguindo um caminho, desfia o rosário de lamúrias do que deixou para trás, pois além de não experimentar o que ficou lá longe, na encruzilhada da tomada de decisão, ainda se desgasta com o fardo daquilo que colocou nos ombros para carregar.
Naquela coleção de poucos de segundos que me obrigaram a escolher, coloquei a chave, girei-a e cruzei o portal.
O que havia do outro lado? Isto é uma outra história!