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terça-feira, 23 de agosto de 2011

Trajetória


Na caminhada lenta e compassada, o homem ia descortinando o caminho. A estrada, talhada, longa e reta, estimulava o andar, e ele, pela sensação de liberdade dada pela brisa que suavizava o esforço, tomava mais e mais impulso.
Devido ao conforto e à segurança do trajeto, aumentava o ritmo. A velocidade foi tanta que fez substituir os seus pés humanos por firmes patas bem plantadas no trotar.
Agora, o galope do corcel ganhava o chão e levantava um rastro de poeira diante dos olhos dos que o quisessem acompanhar. Zás...! Nem tanto ao longe, a visão do animal conseguiu detectar o fim da senda, fazendo com que o coração batesse mais rápido que o próprio galgar desenfreado de quem ganha a vida! Se era abismo, optou por desconhecer o perigo disto e sem retroceder, aumentou a corrida. Lançando-se para o penhasco a fim de que a adrenalina da morte lhe desse as asas, tornou-se ave altaneira.
Plainou no ar até recuperar as forças necessárias para o mergulho no vácuo entre as paredes rochosas e gigantescas do cânion. Tal como flecha que busca seu alvo, seu corpo encontra a barreira do espelho d'água e na profundeza do rio, brotam as escamas e nadadeiras que lhe dão a mobilidade do movimento. Lá se vai, correnteza afora, para encontrar a foz e tornar-se grande oceano de paz.

terça-feira, 26 de julho de 2011

Bicicleta

Sentado no meio-fio, descansando de caminhar, vi passar por mim, numa velocidade considerável, uma bicicleta. O mais curioso é que não consegui me deter nem no condutor e muito menos nos detalhes do veículo, nem cor, nem modelo, nada! A razão não foi a rapidez do deslocamento. O que me desviou a atenção da percepção do todo foram as redondas formas que engendram o movimento. Mais especificamente, uma das varetas de aço escovado que compõe o aro. Não me aventuraria a descobrir o já descoberto – a roda. Entretanto, lancei-me no delírio de enlaçar a vida naquele objeto. E, caso me permita divagar, creio que consigo estabelecer os pontos de interseção entre a existência e a haste.

Se bem observarmos, repetidamente passamos pelos mesmos sinais enquanto vivemos. Como a órbita do planeta que traça o seu percurso e volta ao ponto de partida, experimentamos o gozo e o sofrimento e a cada completamento do trajeto reconhecemos e aprimoramos tais sensações.

Assim, o pneu da bicicleta fecha, de tempos em tempos, um ciclo. Quanto dura a volta total? Tudo varia a partir do ritmo da pedalada e de o quanto estamos ainda com fôlego para empreender mais esforço. Vai dizer que não se parece à vida? Qual a periodicidade de retomarmos os fatos e as experiências? As coisas não estabelecem uma estrita dependência de fatores como disposição enfrentar? Não estamos a todo instante revendo se vale à pena correr mais ou diminuir a velocidade?

O certo, mas o certo mesmo, é que de uma forma ou de outra, mais cedo ou mais tarde, a vareta cromada da nossa vida volta a passar pelo mesmo ponto que tangencia o chão e no impulso de continuar existindo, segue o seu curso para fechar daqui a pouco mais uma volta.