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terça-feira, 23 de agosto de 2011

Trajetória


Na caminhada lenta e compassada, o homem ia descortinando o caminho. A estrada, talhada, longa e reta, estimulava o andar, e ele, pela sensação de liberdade dada pela brisa que suavizava o esforço, tomava mais e mais impulso.
Devido ao conforto e à segurança do trajeto, aumentava o ritmo. A velocidade foi tanta que fez substituir os seus pés humanos por firmes patas bem plantadas no trotar.
Agora, o galope do corcel ganhava o chão e levantava um rastro de poeira diante dos olhos dos que o quisessem acompanhar. Zás...! Nem tanto ao longe, a visão do animal conseguiu detectar o fim da senda, fazendo com que o coração batesse mais rápido que o próprio galgar desenfreado de quem ganha a vida! Se era abismo, optou por desconhecer o perigo disto e sem retroceder, aumentou a corrida. Lançando-se para o penhasco a fim de que a adrenalina da morte lhe desse as asas, tornou-se ave altaneira.
Plainou no ar até recuperar as forças necessárias para o mergulho no vácuo entre as paredes rochosas e gigantescas do cânion. Tal como flecha que busca seu alvo, seu corpo encontra a barreira do espelho d'água e na profundeza do rio, brotam as escamas e nadadeiras que lhe dão a mobilidade do movimento. Lá se vai, correnteza afora, para encontrar a foz e tornar-se grande oceano de paz.

terça-feira, 17 de maio de 2011

Em paz!

Tudo começa realmente pela percepção do entorno. Antes mesmo de uma avaliação criteriosa, as primeiras impressões constroem um conceito, ainda que este possa ser posteriormente refeito com bases mais sólidas de conhecimentos e informações mais fidedignas. Mas, inegavelmente, o princípio parte da sensação.
Assim, tem início a brisa. As folhas e os pedaços de tantas outras coisas espalhados no chão denunciam que se aproxima o vento. Tudo se move! Quanto mais o tempo passa, mais se entende do que se trata. Aumenta a intensidade do ar em movimento. O corpo oscila, a poeira atrapalha a visão, a temperatura também muda.
O embate se faz! Não há como fugir. As vozes, em tons tão diferentes, daqueles que assistem colaboram com a surdez e há pouco espaço para a lógica do pensamento. É a aproximação do redemoinho que paralisa a ação.
Dói e assusta o instante exato em que o tufão toca a pele. A solução é enrijecer o corpo e resistir ao que vem de encontro.
Enquanto o pó e os destroços que formam o vendaval chegam não existe raciocínio. Permanecem o incômodo, o medo e o desconhecido. A única coisa a fazer é nele entrar (ou se deixar engolfar). Eita transição amarga e aviltante!
Estando em meio ao giro frenético do destempero da natureza, a angústia aperta a garganta, o grito não sai. O tempo perde os ponteiros e parece infindável. Tudo roda, entontece e entristece.
Vencidos esses eternos segundos, lá no centro da confusão, uma situação, no mínimo, mostra-se insólita. Um silêncio impressionante e uma ausência de turbilhão. Os olhos enxergam o lado de fora e percebem que ainda resistem os que se apavoram e gesticulam corpos e mentes. Não se ouve o que dizem e não se entende o que sinalizam, mas o fato é que ali, enquanto a velocidade centrifuga à volta, o olho do furação é o estado a ser vivido em paz!