terça-feira, 29 de novembro de 2011

Abre-se a cortina


Não dá para dizer que haja uma preocupação com a quantidade de assistentes na plateia que possa medir a ansiedade da atuação. Este não é o fator que gera o sentimento da apreensão. Da mesma forma, não é a condição da estreia que faz com que o coração bata aceleradamente. Em poucas palavras, tanto faz “casa cheia” ou bilheteria zerada, primeira apresentação ou a derradeira, a questão é você no centro do palco.
Quando a ribalta acende, todos as variantes desaparecem, mesmo porque as luzes dos refletores em cima do ator, além de transformá-lo em personagem, impedem-no de enxergar o que está fora do palco. Nem distingue o entorno e muito menos é ele sozinho (perde-se a condição única de carne e osso e passa a ser carne, osso e “persona”). Todas as possibilidades se renovam a cada apresentação. Tudo pode acontecer diferente do que houve na véspera. E com quem conta o artista, ali, na “hora H”? Com ninguém a não ser ele mesmo e as circunstâncias que o instante produz.
Tais são as razões que me fazem explicitar a tensão que brota do enredo da vida. E por mais que a expectativa seja a de que, no final da encenação, haja aplausos, o suor frio escorre escondido pela maquiagem e a espinha gela a alma.

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Pedido


Ingressos comprados, casa cheia. Apreensão natural dos instantes iniciais. Os três toques anunciam que é chegada a hora. Aberta a cortina, não havia retrocessos. Ausência de som em toda a plateia. No centro do palco, um foco que se ampliava e o feixe de luz ia consumindo o breu lentamente até que se surge por completo a personagem.
Tinha início a peça.
O vazio do entorno dava ares ainda mais abissais ao espaço, ocupado somente por uma única peça – eu! A árdua tarefa era clara: deveria sozinho ser capaz de preencher toda a área.
A voz tronante (em off) faz a leitura dos autos da peça e assim o enredo se esclarece. Tratava-se da minha vida. O movimento do corpo, como quem busca encontrar cada peça do grande quebra-cabeças, tateava cada centímetro do chão ainda escuro. Levava no corpo uma peça leve de algodão pouco talhada, mas não mortalha que ganhava peso na medida em que me deslocava. A primeira fala abria o tempo da discussão: “Que ninguém me peça explicação! Nem eu a possuo, pois então!”

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Vivendo

O que busco de mim não são as respostas acabadas de quem sou. Porque caso assim quisesse encontrar, provavelmente, meus pés não me estariam pisando o caminho certo. Daria crédito a que sou um ente delimitado e pétreo. Não me concederia a chance da constante reformulação do que penso, sinto ou faço. Estaria fadado ao engessamento de tudo que trilhei e não abriria os olhos ao despertar a cada dia com o compromisso de reinventar-me. Não! Não esperem de mim o vasculhamento de minhas histórias com o simples propósito de sabê-las. Já as conheço e reconheço – e sei que nem de tudo me apercebi. O que me intensifica é a tarefa de por por terra as questões já formuladas. O que me sustenta é a crença que o imutável só pode existir no indizível, pois no plano das ações tudo – absolutamente tudo – pode ser outro, pode se transformar, crescer, evoluir e até mesmo ruir. Das coisas do mundo o que não se mantêm é para ser experienciado. E como não há entre o céu da existência e a terra das vivências nada que se eternize, o que me cabe é viver!

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Tragados


Os afobados do tempo começam a se movimentar quando se dão conta que termina mais uma fase. Eis que se aproxima a angústia dos anúncios de TV para nos lembrar que o fim do ano está chegando. Mas fim de que? E aqueles que se debatem entre as promessas não cumpridas e o desespero de terem que renovar os votos para o que acham ser um tal futuro tão próximo? Pobre deles. Mal conseguem passar pelos portais que eles mesmos geraram. Apressados, querem logo levantar os pés do lado vivido e plantá-los (bem plantados os dois) no vindouro momento. Uma espécie de remissão do pecado de não ter realizado aquilo que se propuseram a fazer. Mas quem deles cobra? Quem os sacrifica ou os sentencia mais do que suas próprias consciências? Ó doloridos homens acorrentados!
O movimento intermitente de lâmpadas hipnoticamente colocadas para distrair e a claridade dos neons os embota de tal forma que chegam a pensar que estão resgatando a última chande de viver.
O único clima de abafamento não é atmosférico. Reside, sim, na ansiedade posta no ar pelo corre-corre das compras, das dívidas, das dietas desregradas e do frisson que consumimos sem pestanejar.
Por onde andará nossa capacidade de respirar com a normalidade das horas? Em que local encontraremos a caminhada dos ponteiros segundo os critérios rítmicos estabelecidos pelo pêndulo temporal? Pergunto-me: tudo isto para que chegada? Angústia de quem busca, medo de quem encontra. Não posso deter a marcha, mas posso observar ao meu redor e ratificar a minha tese de que o que nos engolfa não é o tempo. Somos tragados, como carne mal mastigada, pela garganta da nossa cegueira diante do inevitável curso das areias que se esvaem inexoravelmente.

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Ampulheta




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terça-feira, 25 de outubro de 2011

Querer e poder


A dicotomia faz parte do alicerce da vida. Ai do homem que se deixa engolfar pela pressão exercida por essa divisão constante. Hora quando se quer, não se pode, hora quando se pode, não se quer. Fazer o quê, então? Drama? Dilacerar-se? Magoar-se ou magoar? Perda de tempo. Devemos coadunar os momentos em que a tranquilidade nos acena com os instantes em que os desejos e os planejamentos se tornam inexequíveis.
Quem, dentre nós, nunca passou pela situação de desencontro entre o que pensava ser o ideal e aquilo que encontrou na incompreensão generalizada dos homens e dos acontecimentos? Pois é isto, sem tirar nem por! Somos o somatório das alegrias (quando tudo concorre para nos atender) e das tristezas (quando chafurdam as nossas expectativas).
Porém, eu lhes pergunto: Quem morrerá por não ver satisfeitos os seus caprichos? Morre sim, mas morrem as ilusões. Estas... ora, ora..estas são assim mesmo...nascem e fenecem. Foram feitas para isto!
No crepúsculo delas, abrem-se os sulcos na terra da esperança para que mais tarde possam brotar novas construções de vida.
De par em par, abro as portas da minha existência e reconheço, firmemente, que não terei tudo do jeito que penso, até mesmo porque, meus pensamentos também passam e no escorrer da areia do meu tempo se transformam e me fazem crescer.

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Anjo e demônio

Tempo, monstro e mago dos meus dias, tu me devoras ao mesmo instante em que me transformas. Quimera e herói a atuar em meu sono, é o teu susto que me dá a chance de progredir. Senhor dos dias, opressor dos homens, negociador da humanidade, cura dos males, tantos os teus nomes, irrogavelmente verdadeiros que chego a sentir a inexorável vontade de me lançar a ti.

Num lapso de entendimento de minha pequenez seria esta a minha resolução. Contudo, alegro-me em reconhecer que passados os poucos segundos do pensamento daquela entrega a qual me deixaria levar, sou surpreendido pelo voraz desejo de deixar que tu mesmo te consumas em tuas areias. Busco, ao emergir da tua ampulheta, a liberdade do meu respirar e se queres, realmente, continuar a ser quem és, vem e vença-me. Pois se deixares para que eu assim o decida, perder-te-á em ti mesmo e triunfarei como Teseu que, sem olhar para o obstáculo, usou do ardil do fio para retornar daquilo que o aprisionaria.

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Pelos meus olhos


Desde muito cedo aprendi que cada dia é uma explosão de luz e, neste parto diário, encontro o conforto para seguir crendo em meu papel de colaborador desta emissão luminosa que clareia a vida. Sucedem-se os instantes e, na medida do possível, vou eternizando-os na alma, sem arrependimentos pelas ações, mas com a certeza plena de que as falhas (que são humanas, como diz um “velho” amigo - “sou lúcido!”) servem-me para que eu cresça.
Sem saudosismo ou sentimentalismo, consigo olhar ao redor e perceber o caminho riscado pelo lume do qual eu também sou partícipe. Espero, com isto, jamais fugir do brilho do olhar que nutre as convivências.
Eis a razão de minha existência e que me perdoem os que só conseguem enxergar o cinzento e empoeirado do tempo, mas eu me manterei (e não é proselitismo) no firme propósito de ver sempre o copo pelo prisma do “meio cheio”, antes de observar o vazio restante. Prefiro agradecer a existência ainda de alguma água, antes do derrotismo do espaço oco da outra metade do recipiente. É tudo uma questão de ótica e esta é a minha.
Não se arvorem ao julgamento de eu ser um otimista tolo e nem se deem ao trabalho de acreditar que é pueril inocência de quem nunca sofreu. Ao contrário, é a atitude de quem entendeu que a melhor forma de se defender das agruras e das dores é não se deixar levar pelo obstáculo antes de apostar que a mais adequada saída se encontra em si mesmo.

terça-feira, 4 de outubro de 2011

04 de outubro


No dia de hoje, peço-lhes permissão para que eu me afaste um pouco dos meus devaneios para poder falar de alguém que soube ser na vida um filho de Deus.
Sua história é tão singular que mesmo diante de todos os dogmas estabelecidos pelas congregações, inclusive uma das mais poderosas (a Igreja Católica), ele foi exceção. De um modo geral, os que são reconhecidos no mundo ocidental como santos passam a ter suas datas festivas por ocasiões grandiosas como os seus nascimentos. Nem isto, a egrégora de Francisco de Assis, respeitou (com todo respeito!). Não se comemora o dia do Santo italiano pela data do seu natalício – muito menos pelo dia de sua morte. Muito de sua biografia já consta no ideário da humanidade e muito do que dele se sabe mistura-se a questões poucos comprovadas. Mas o que isto importa?
Alguns só acham que Francisco era um santo que falava com animais. Entretanto, ele foi muito mais! Giovanni di Pietro di Bernardone foi alguém que, havendo experimentado a vida, optou seguir o seu coração. Coragem para deixar o luxo não deveria ser o tópico mais importante daquele jovem. O que o torna a expressão da Comunhão com o Divino não é o abandono puro e simples dos bens materiais. O que define a personalidade desse filho de comerciante é a submissão à crença de que o Ser Supremo lhe falou à alma! Quantos homens também investem no abandono do lar, das posses e das relações sociais e nem por isto se tornam santos? Francisco não era, como se costuma dizer, “morno” com relação a Deus. Isto santificou a sua história. A imagem bucólica desse ser humano (na concepção mais plena de humanidade) ultrapassa os passeios no campo, o afago na cabeça dos bichos ou as pombas em seu redor. Francisco, muitas vezes, foi austero e inflexível; foi duro e irredutível. Não por teimosia, mas por absoluta certeza de que na Terra sua missão era a libertação da alma.
No dia em que se comemora a chegada de seu corpo, já sem o alento vívido, à cidade de Assis para o seu sepultamento, minha voz se unem a de tantos outros que como eu louvam este louco de Deus.

terça-feira, 27 de setembro de 2011

Votos são mais que promessas

As promessas envolvem os ímpetos do momento e podem beirar a falta de lucidez. Já os votos, estes são atos conscientes da predisposição dos comprometimentos. E é por esta razão que hoje te digo:

Não te quero perfeção, mas te desejo inteiramente.
Não espero submissão, mas te desejo fiel.
Não exijo aceitação da forma como penso, mas te desejo pela sua compreensão com os meus pensamentos.
Não te imponho o que acho correto, mas te desejo com a predisposição para me ouvir.
Não julgo teus atos, mas desejo que sejas prudentes na hora de agir.
Não te controlo as emoções, mas desejo que te esforces pela serenidade.
Não te venderei ilusões, mas desejo permanecer nos teus sonhos.
Não acobertarei desmedidas, mas desejo ser o auxílio a tua temperança.
Não te lançarei ao vento, mas desejo voar contigo nas asas do que cremos.

Que não haja em nós a espera do amanhã, pois esta expectativa corrói e cansa. Que se existe uma eternidade, que ela seja agora e que nunca mais a possibilidade de ser feliz seja ameaçada pelo porvir, deixando nas aras dos deuses a decisão de viver.

Não te quero de outra forma a não ser esta de poder desejar-te ao meu lado! Aceitas?

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Compromisso e comprometimento


Aos compromissos podemos até faltar. Para tanto, uma boa desculpa, arquitetada e verossímil, pode convencer. Os compromissos são frutos de agendamentos e quanta vez são formalizados tão antecipadamente que corremos o risco de esquecê-los! Os compromissos envolvem mais de uma pessoa e mobilizam muitas atitudes para o seu cumprimento. Compromisso é data, é local, são condições. É um alerta temporal, com estabelecimento de critérios de início e fim, independente da largura que possa existir entre um e outro. Você, julgando-se capacitado, aceita o compromisso e espera o momento dele se concretizar.

O comprometimento é moral e se alimenta do seu foro íntimo. Ninguém precisa lhe cobrar – e nem conhecê-lo. Comprometer-se é mais do que aceitação. É escolha e recuperação. Um resgate de autorregulação, não com a dor da consciência, mas pelo prazer da construção da clareza do que se sabe ser capaz. Comprometimento pode, inclusive, ter data para iniciar e acabar, mas não se prende ao calendário como fonte primária de observação. O tempo é só uma consequência.

Há aqueles que lidam (e bem) com a convivência do compromisso com o comprometimento simplesmente porque não se deixam oprimir pela cobrança das relações interpessoais. Eles transitam entre os dois de forma tão acertada que esfacelam a necessidade das diferenças e esvaziam o sentido contraditório dos conceitos. São sábios pois não utilizam nem os compromissos e muito menos os comprometimentos para agirem em prol de um bem maior: a fé na certeza da missão de viver no mundo.
No fundo, no fundo, comprometem-se no sentido mais puro da palavra, qual seja, ser o local por onde flui a verdadeira complementariedade dos termos.

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Ampulheta


Perguntaram-me por que “ampulheta”? O que tanto a questão do tempo aparece em meus devaneios como um fato a ser comentado e observado? Sem titubear, pois a resposta não precisava de reflexão, fui taxativo: dois são os motivos que me levam a ter naquele objeto a minha atenção.
Primeiro porque o tempo é inexorável; ninguém pode detê-lo. Isto sempre me assombrou e me atraiu, como dois sentimentos que caminham paralelos em mim. Em outros termos, para melhor me expressar, é dizer que devido as areias que escorrem terminamos por nos defrontamos com a nossa incapacidade de retroagir e diante do implacável (que é o tempo) atentamos para a nossa pequeníssima e frágil dimensão frente à existência.
O segundo motivo (nem por isso secundária razão) é o da possibilidade de fazer girar as âmbulas, passado o último grão de areia. Aferro-me a isto tal qual criança que não pode perder a sobremesa. Dá-nos a vida outras chances, não de refazer o já passado, mas de empreender novas formas de experienciar, tornando instigante e excitante o movimento da inversão do relógio do tempo. Uma vez mais, coloco-o “ɐɔǝqɐɔ ɐʇuod”.

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Tempo, senhor do tempo?


Numa “conversa de bêbados” (absolutamente sóbrios) da qual participava, escutei uma frase nada original, mas magistral: - Maior do que o poder do sol, só o tempo. Lembrei-me de todas as instâncias em que o “magnânimo” senhor me espremeu e me fez atestar realmente o seu controle e a sua predominância sobre a vida. Não só porque a ele atribuem a cura de todos os males, como também, outorgam-lhe a gerência dos esquecimentos. Quem, dentre os mortais, nunca ouviu dizer que “com o tempo tudo passa”. Cabe-nos as inquietações: A quem é confiada a tarefa de fazer passar? Seria o Tempo o articulador dos mecanismos ou repousa sobre nossos ombros a capacidade de nos engendramos em tantos outros acontecimentos que rejeitamos as dores do passado e terminamos por esquecê-lo?
Fez fama o Tempo e ele, poucas vezes, deu crédito aos participantes do processo, ou seja, cada um de nós. Não o culpo, pois diante de nossas faces ele sempre expôs o rosto pronto às críticas. Quem não o esbofeteou, não o fez por não querer (ou por não saber, tanto faz!). Mas aqui sempre esteve e estará.
Não vou adonar-me da responsabilidade de dar a conhecer aos homens o quanto podemos também ser coautores do controle das nossas emoções e de nossos olvidos. Porém, faço questão de ser uma voz que se une aos tantos que resvalam na suspeita de que também podemos estar no leme de nosso viver. Ó objeto translúcido do mais fino cristal, ampulheta que és, dou-te até a prerrogativa, no movimento do teu escoar, de seres invocado como Senhor do Tempo.

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Travessia


Na sala redonda, clara e limpa, nenhum quadro, nenhum móvel. Nada além das portas. Não restava outra coisa a fazer a não ser segurar firmemente a maçaneta de uma delas e seguir. Sem dar crédito à escolha, lançou-se o homem à tarefa e cruzando o portal se foi.
Do outro lado, o pó levantado durou um tempo até que, voltando a cair no chão, descortinou a paisagem. Era pedregosa, árida e quente. As construções de rochas firmes deixavam antever nas frestas as samambaias que nasciam e os musgos do abandono. O caminho pouco regular, coberto de barro era lama de pouca segurança para andar. Viu ao redor os transeuntes apressados que iam todos na mesma direção. Roupas de tecidos crus, soltas e pouco cuidadas. Acompanhou a multidão e cruzando os portões de imensas toras de madeira, deparou-se com uma arena central oval onde os gladiadores lutavam até a morte. Dando-se conta do que lhe sucedera ao atravessar aquela porta da sala vazia, viu-se entre o esfacelamento da linha temporal e o absurdo do momento. Assustado, correu rapidamente para tentar escapar de onde se metera, e percorreu o caminho contrário à gritaria e ao alvoroço dos que nas arquibancadas já pediam a morte dos lutadores. Ofegante e desesperado, não havia solução para a fronteira rompida e, pela viela, viu entreaberta uma rústica porta de casebre. Jogou-se sem pedir licença.
Rosto no chão, susto no coração. Ergueu-se até que a vista se acostumasse novamente. No saguão, pilastras lisas e brilhantes, chão encerado e reluzente, refletia as sombras das cortinas de fino tecido que esvoaçavam em razão do vento. Mas como um casebre era tão luxuoso? O que escondia quem ali habitava? Notou que os homens e as mulheres daquela ocasião eram mais amorenados e de corpos mais talhados. Encostada na parede a estátua negra do grande gato denunciava o culto a Bastet. Mais uma vez, atordoou-se por haver transposto, em segundos, séculos e continentes. O cheiro âmbar no ar, além de mais inebriar, fazia crer que a verdade se distanciara dele. Seguindo pelo amplo corredor, onde as pinturas contavam histórias, avistou outro vão em sua forma arqueada coberto pela transparência de uma espécie de voal branco.
Sem saída outra, já acelerava o coração com tanto medo do que encontraria do outro lado que chegou de olhos fechados. Entretanto, pode perceber que o frio da brisa a tocar-lhe o rosto era quase molhado. Timidamente, entreabrindo a visão, deparou-se com uma imensa floresta dos mais intensos e diferentes tons de verdes, junto a uma queda d'água colossal. Os ruídos eram indecifráveis, eram muitos e em vários tons e decibéis. Estava novamente longe, muito longe do que poderia imaginar ser a sua própria existência. Sentou-se, ainda tonto das travessias, e dormiu.

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Trajetória


Na caminhada lenta e compassada, o homem ia descortinando o caminho. A estrada, talhada, longa e reta, estimulava o andar, e ele, pela sensação de liberdade dada pela brisa que suavizava o esforço, tomava mais e mais impulso.
Devido ao conforto e à segurança do trajeto, aumentava o ritmo. A velocidade foi tanta que fez substituir os seus pés humanos por firmes patas bem plantadas no trotar.
Agora, o galope do corcel ganhava o chão e levantava um rastro de poeira diante dos olhos dos que o quisessem acompanhar. Zás...! Nem tanto ao longe, a visão do animal conseguiu detectar o fim da senda, fazendo com que o coração batesse mais rápido que o próprio galgar desenfreado de quem ganha a vida! Se era abismo, optou por desconhecer o perigo disto e sem retroceder, aumentou a corrida. Lançando-se para o penhasco a fim de que a adrenalina da morte lhe desse as asas, tornou-se ave altaneira.
Plainou no ar até recuperar as forças necessárias para o mergulho no vácuo entre as paredes rochosas e gigantescas do cânion. Tal como flecha que busca seu alvo, seu corpo encontra a barreira do espelho d'água e na profundeza do rio, brotam as escamas e nadadeiras que lhe dão a mobilidade do movimento. Lá se vai, correnteza afora, para encontrar a foz e tornar-se grande oceano de paz.

terça-feira, 16 de agosto de 2011

Interjeição


A jovem já pronta para sair. Nos dizeres antigos, mas muito apropriados, de minha avó, estava ela toda “emperequetada”. Preparou-se do mais delicado jeito e forma. Maquiagem primorosa, vestido bem cortado e acinturado. Sandálias luzindo e bolsa impecável. Todo o preparativo tinha em mente a expectativa de pelas ruas poder ouvir de diversos lugares o mesmo diapasão: esperava ouvir os “óhs” que os observadores lançariam em reconhecimento a todo o esforço da produção. Coração meio acelerado não via a hora de ir. Olhadela final no espelho do hall de entrada (que nesse momento se fazia de saída) e lá se foi!
O dia estava claro diante dos olhos, afinal, o desejo movia os passos... O primeiro minuto se foi... passou o segundo, o terceiro.... os ponteiros do relógio eram inclementes e pareciam acelerar o tempo. Nada a moça ouvia daquilo que tencionava. Nem um longínquo suspiro. Nada! Deu voltas, escolheu outros itinerários, retorceu esquinas, esticou avenidas... em vão.
Teve que voltar e abrindo a porta de casa, largou a bolsa, tirou os sapatos, recusando-se a abrir as cortinas. De que serviria a luz do dia? Foi para o banho, a água morna relaxou a musculatura tensa da caminhada. Permaneceu ali um bom tempo!
Já no quarto, corpo seco, cama pronta, decidiu não se vestir. Desnuda e exausta, deitou-se! Nesse momento, sem ousar nada pensar, começou a sentir um vibratório deslocamento de ar que vinha de fora. Aquietou os sentidos para prestar mais atenção e percebeu o estrondoso som oriundo de muitas direções. A percepção do espanto foi compreendida no eco de um retumbante “Oooooooh”.
Adormeceu com a lição aprendida de que por mais ouro que se possa vestir para os outros, ninguém é mais valioso do que no silêncio e a nudez para si mesmo.

terça-feira, 9 de agosto de 2011

A gota


Muitos foram os que disseram para a pequena gota que, pelas suas dimensões, ela nunca molharia um jardim inteiro. O máximo que cumpriria como função seria um “borrifo” na terra. E mais: rezasse ela para que em tal dia não houvesse um sol escaldante, pois se assim o fosse, nem tocaria o solo, evaporando rapidamente.
Triste e encarando a sua pequenez a gota tentava justificar que não era pelo tamanho mas pelas propriedades o seu valor. Ainda assim, eram inúteis os seus argumentos frente aos destruidores da estima alheia. “De que servem as propriedades se não modificarás as condições da plantação?”
Frases desta estirpe, como um martelo a golpear a noite, impediam o sono da pobre. Descansar nem pensar, muito menos dormir.
Tornando-se um martírio ali viver, outra não foi a opção a não ser partir. Isso mesmo. Ir embora! Fugir? Talvez! Digam o que disserem. O que a menina dos ouvidos exaustos queria era se livrar do tormento dos depreciadores.
Reuniu forças para seguir sem olhar para trás. Percorreu os sulcos que ia encontrando no caminho. Sentia-se novamente fatigada, mas de um cansaço novo, desafiador pelo menos. Horas, dias, tempo...tempo... Tempo suficiente para que ela escorregasse em uma fenda profunda e muito empinada e perdendo o controle dos movimentos foi via abaixo até se estatelar, no fim caminho, em um gigantesco lençol de água que se formava à beira do mar.
Perdeu-se ali a minúscula, dando lugar ao gigantesco oceano, formado, é verdade de uma infinidade de tantas outras gotas. Hoje, ela permanece latente e intacta a manter a essência da vida dos que um dia dela zombaram: Total e completa ela segue!

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Primeiro e Segundo

Iam pela vereda os dois de mãos dadas. O Primeiro, adulto nos anos que possuía, segurava forte a mão do Segundo, criança na idade que levava consigo. O destino, do outro lado da rua, esperava-os. Entretanto, o fluxo dos veículos que circulavam por ali impedia, num primeiro momento, que eles atravessassem.
Primeiro, homem de histórias já vividas e ouvidas, tentava ser prudente, buscava a faixa de pedestres para cruzar o caminho. Segundo, menino menos provido de cancha e movido pelo entusiasmo, queria aproveitar as brechas dos pequenos engarrafamentos que nasciam no asfalto.
A tensão se refletia no esticar de ambos os braços. Um puxando para encontrar a segurança da travessia e o outro se jogando para lá do meio-fio, vendo entre os vãos dos carros que se abriam diante dos seus olhos uma chance de passar.
Via-se que Segundo preocupava-se com Primeiro, ajudando-lhe a não tropeçar nos buracos da calçada. Bonito cuidado da inocência quando se crê poderosa! Da mesma sorte, Primeiro se esmerava em dar sustento a Segundo para que este não corresse riscos. Belo exemplo da experiência quando já vira na pele resultados das ações passadas! E não pensem que na trajetória deixava de haver a clara ajuda mútua. Se o maior queria ensinar a correta forma de cruzar a via, o menor dava mostras da necessária agilidade que os anos fazem esquecer.
Primeiro cauteloso, Segundo ligeiro. Um pelo vivido, o outro pela descoberta.
Desta maneira, caminharam até que a lei da complementaridade os fez chegar à sua meta. O arfar dos “uffs, conseguimos!” no mesmo tom de voz denuncia as suas identidades: No Primeiro me reconheço, neste momento em que vivo, enquanto que no Segundo percebo o que fui há tempos atrás. Seres em um mesmo ser que luta nas correntezas das possibilidades e reluta, tantas outras vezes, na contrapartida das oportunidades. Os dois sou eu!

terça-feira, 26 de julho de 2011

Bicicleta

Sentado no meio-fio, descansando de caminhar, vi passar por mim, numa velocidade considerável, uma bicicleta. O mais curioso é que não consegui me deter nem no condutor e muito menos nos detalhes do veículo, nem cor, nem modelo, nada! A razão não foi a rapidez do deslocamento. O que me desviou a atenção da percepção do todo foram as redondas formas que engendram o movimento. Mais especificamente, uma das varetas de aço escovado que compõe o aro. Não me aventuraria a descobrir o já descoberto – a roda. Entretanto, lancei-me no delírio de enlaçar a vida naquele objeto. E, caso me permita divagar, creio que consigo estabelecer os pontos de interseção entre a existência e a haste.

Se bem observarmos, repetidamente passamos pelos mesmos sinais enquanto vivemos. Como a órbita do planeta que traça o seu percurso e volta ao ponto de partida, experimentamos o gozo e o sofrimento e a cada completamento do trajeto reconhecemos e aprimoramos tais sensações.

Assim, o pneu da bicicleta fecha, de tempos em tempos, um ciclo. Quanto dura a volta total? Tudo varia a partir do ritmo da pedalada e de o quanto estamos ainda com fôlego para empreender mais esforço. Vai dizer que não se parece à vida? Qual a periodicidade de retomarmos os fatos e as experiências? As coisas não estabelecem uma estrita dependência de fatores como disposição enfrentar? Não estamos a todo instante revendo se vale à pena correr mais ou diminuir a velocidade?

O certo, mas o certo mesmo, é que de uma forma ou de outra, mais cedo ou mais tarde, a vareta cromada da nossa vida volta a passar pelo mesmo ponto que tangencia o chão e no impulso de continuar existindo, segue o seu curso para fechar daqui a pouco mais uma volta.

terça-feira, 19 de julho de 2011

Pecados e inocência

Sabe quando você se arrepende de algo que depositou na conta da inocência achando que era, no mínimo, inofensivo, mas que se transforma em rota de colisão e quando se dá por si, já entornou o caldo? Pois então. O que fazer? Justificar os atos que você continua achando que são ínfimos e que não iriam dar movimento algum em nenhuma parte da sua vida? Ou reconhecer que houve, apesar da visão sem maldade, um erro da sua parte?
Na atual conjuntura, em mim não resta a menor dúvida: devo dizer que errei não tomando como referência atos que não cometi, mas errei por me esquecer de que vivendo e convivendo somos parte de um conjunto.
Razão pela qual abri mão de lhes escrever hoje outro texto, motivado por uma observação corriqueira, para dar destaque às reflexões dos erros que cometemos mesmo sem querer.
Fui solapado pela minha inocência e insegurança e acabei resvalando na tolice. Na tolice do não dito, na mal focada luz do apagado no tempo, na sombra das minhas frustrações. Permito-me, agora, extravasar essa agonia, não para justificar os dois adjetivos postados (inocência e insegurança), mas para meditar, através do ofício do discurso revelado, sobre as besteiras que fazemos sem necessidade. Réu confesso não de transgressões, mas de omissões, entendo que ao abrir uma lacuna de silêncio podemos criar “monstros” inexistentes. E a pergunta que permanece é “quem os aniquilará?”
Desculpo-me publicamente pela minha insensatez que pode matar tanto quanto a estupidez. Ambas, não só pela rima, mas pelas consequências, são candidatas a agravar belos espetáculos de vida. E para não correr este risco, lanço-me na tarefa de dizer “que besteira eu fiz (ainda que não a julgando como tal) e que quase pôs a ruir o valor do que vivo. Por onde anda a lucidez (mais uma rima pobre) da segurança e da certeza da verdade que em nós habita? Salvem-me, ó palavras que engendro na mente e pulverizo no som da voz. Salvem-me de minhas escorregadelas a fim de que eu seja absolvido a partir de mim mesmo, sem martírios e sem pecados.