terça-feira, 31 de maio de 2011

Seguem Eros e Narciso

Antes de me acusares como o subversivo do instaurado, dá-me a oportunidade de falar. Não te peço licença para me justificar. O que estou pleiteando é o espaço dos argumentos. Não tenho – e por certo não terei – a intenção de mudar as imagens e nem, muito menos, anseio lançar-me na autoria da desmitificação. Esse certamente não sou eu. O que faço, e isto permito-me assinar, é reposicionar-me diante do discurso repassado através do tempo. Complicado? Não! Basta ter calma e deixar que eu explique.
O que emoldura o meu cenário é a hipótese muito plausível de um instante anterior ao que foi legado à humanidade. Refiro-me ao encantamento narcísico. Todos aceitam a verdade da cena na qual o jovem se enebria de si mesmo, mas poucos retrocederam no jogo para questionar outras hipóteses como a que minha veia inquieta lançou. Por que seria tão absurdo que Eros tivesse chegado antes e, cumprindo com o que lhe é missão, houvesse disparado sua flecha na alma do menino? Ó crueldade dos ímpios, quantas vezes foste tu mesma que buscaste desculpas para o amor? Permite que eu potencialize outras possibilidades que não só as restritas consagradas. Narciso apaixonou-se sim, mas não unicamente devido a uma maldição lançada. Houve sim, naquele local uma confluência dos atos e, na concordância do acaso, vi juntarem-se a magia, o desejo e o destino.
Eis então, querendo tu ou não, o resultado do que penso ser processo: Não há mergulho em si mesmo se não existe a presença prévia de um Eros.

terça-feira, 24 de maio de 2011

Vaticina Tirésias

O que impressiona é o enquadramento da cena. Só se observa – ou pelo menos só se difunde a imagem – o espelho d'água, o desenho do rosto alvo tremulando nas ondulações provocadas pelo vento que por ali passava e debruçado à beira do rio aquele corpo bem feito de musculatura e textura. O silêncio também colabora com o tema e quase impede de questionar os motivos que levam o imberbe a estar paralisado no ato da admiração. Está inebriado pelo que vê? Encanta-se com a própria face reproduzida? Provavelmente sim. Mas não esta não é a razão absoluta da questão. Os olhos pouco curiosos não percebem um entorno mais amplo. A espreitar, do alto de uma copada árvore, uma sombra se delineia. Mais corpulento, porém não menos definido e alvo, a figura aponta a sua seta em direção ao jovem tombado às margens das águas.
Eis o encaminhamento da explicação plausível: Ele fora atingido pela poção do apaixonamento e por desconhecimento ou inocência não soube livrar-se de si mesmo e cristalizou a paisagem. Parou no tempo de tanto se olhar. Fato que desestabiliza o astuto observador e força-o a lançar a segunda flecha. O toque pouco suave e repentino da pontiaguda prata embebida no veneno do amor fez com que o autoadmirador assustadiço pulasse e perdendo o domínio do próprio corpo, rompesse a inércia e caísse no curso da fonte de seu enfeitiçamento. A dor no coração de Eros se traduziu no traço de uma única lágrima em seu rosto que ao tocar o solo, molhou a terra onde havia nascido a flor de Narciso.

terça-feira, 17 de maio de 2011

Em paz!

Tudo começa realmente pela percepção do entorno. Antes mesmo de uma avaliação criteriosa, as primeiras impressões constroem um conceito, ainda que este possa ser posteriormente refeito com bases mais sólidas de conhecimentos e informações mais fidedignas. Mas, inegavelmente, o princípio parte da sensação.
Assim, tem início a brisa. As folhas e os pedaços de tantas outras coisas espalhados no chão denunciam que se aproxima o vento. Tudo se move! Quanto mais o tempo passa, mais se entende do que se trata. Aumenta a intensidade do ar em movimento. O corpo oscila, a poeira atrapalha a visão, a temperatura também muda.
O embate se faz! Não há como fugir. As vozes, em tons tão diferentes, daqueles que assistem colaboram com a surdez e há pouco espaço para a lógica do pensamento. É a aproximação do redemoinho que paralisa a ação.
Dói e assusta o instante exato em que o tufão toca a pele. A solução é enrijecer o corpo e resistir ao que vem de encontro.
Enquanto o pó e os destroços que formam o vendaval chegam não existe raciocínio. Permanecem o incômodo, o medo e o desconhecido. A única coisa a fazer é nele entrar (ou se deixar engolfar). Eita transição amarga e aviltante!
Estando em meio ao giro frenético do destempero da natureza, a angústia aperta a garganta, o grito não sai. O tempo perde os ponteiros e parece infindável. Tudo roda, entontece e entristece.
Vencidos esses eternos segundos, lá no centro da confusão, uma situação, no mínimo, mostra-se insólita. Um silêncio impressionante e uma ausência de turbilhão. Os olhos enxergam o lado de fora e percebem que ainda resistem os que se apavoram e gesticulam corpos e mentes. Não se ouve o que dizem e não se entende o que sinalizam, mas o fato é que ali, enquanto a velocidade centrifuga à volta, o olho do furação é o estado a ser vivido em paz!

terça-feira, 10 de maio de 2011

Escolhas II

Diante de mim, a sucessão de portas... a alternâncias e a variedade de oferecimentos não representavam a bondade de quem quer ajudar. Claro que não! Era sim a picardia de fazer com que o selecionador, no caso eu, paralisasse ante as incertezas e das dúvidas.
Num primeiro instante, a dicotomia se fazia representar pelo vacilo inevitável do susto e pela imperiosa necessidade de seguir. As duas opções por si só excluíam quaisquer outras possibilidades. Não havia nada que colaborassem com a dissuasão da confusão, restava somente o risco da escolha.
Fui...
Já do outro lado, cruzado o umbral, fechada a porta, era hora de seguir.
Os olhos ainda ardendo devido à transposição do ambiente, era o começo da adaptação aos novos tons de luminosidade do lugar.
Neste fragmento de tempo, alguns se apavoram e pensam que jamais voltarão a ver com a mesma plenitude de antes. Aí repousa a primeira sensação de fracasso que pode levar a perder a oportunidade da experimentação. Tempo... tempo.. tempo.... Tempo de esperar, tempo de se acostumar, tempo de entender o que faz parte do inédito. Não conseguindo, muitos se boicotam e desesperados estancam.
Passado o sufoco inicial, pé ante pé, lanço-me na tarefa de gerar movimento. Aguçam-se todos os meus sentidos conhecidos e chego a imaginar que existem outros que nem me dou conta. Estudando o espaço com o corpo, esbarro nos obstáculos, resvalo na incerteza do solo, sinto o vazio dos empecilhos, respiro com cuidado para não deslocar o desnecessário... É assim que, promovida a seleção, devo manter-me até que após longa convivência, o que era ignoto se aproxima do domínio do conhecimento.
E a vida, essa voraz desestabilizadora, quando me vê mais seguro, torna a apresentar no final do percurso outro feixe de portas para renovar o processo da escolha.
Então, lá vou eu outra vez!

terça-feira, 3 de maio de 2011

Escolhas

Diante de tantas portas e uma única chave, parado ali, só me restava entender qual deveria ser o procedimento e qual o objetivo da cena. Rápida a mente começa a conjecturar, duas eram as possíveis respostas: ou somente uma das portas encaixava-se perfeitamente na chave (propositalmente não falei sobre o encaixe da chave na porta) ou se tratava de uma chave-mestra!
Como ninguém me forneceu manual de instrução, fui a diante, investi o meu esforço na abertura de uma porta, deixando as outras.
Haveria tempo de testar porta por porta? Caso estivesse eu errado, haveria a recuperação da chance em outra saída? Arriscaria um tempo que sequer sabia existir?
Escolhendo, “desescolhe-se” tudo o mais (permitam-me o neologismo). Nisto não há problemas ou danos. Certamente porque o processo de se lançar em uma direção pressupõe o abandono das outras tantas.
Seja pelo motivo que for, tomamos o rumo da existência ou porque assim o quisemos consciente – e bancamos a atitude – ou porque somos engolfados pelas circunstâncias – o que fazer? A verdade é que as nossas seleções se configuram pelas oportunidades conquistadas, pela semeadura do que se intenciona, conta com o fator sorte ou acaso (nem excludente e muito menos inexistente), encontra guarida também na ausência de visão mais ampla, em suma, a vida, em múltiplas possibilidades, pode brincar conosco de originalidade. Estejamos preparados!
Talvez, o fator mais crítico do abandono das chances em detrimento de uma só seja a dor do não aproveitamento da posição em que nos encontramos. Pobre daquele que, seguindo um caminho, desfia o rosário de lamúrias do que deixou para trás, pois além de não experimentar o que ficou lá longe, na encruzilhada da tomada de decisão, ainda se desgasta com o fardo daquilo que colocou nos ombros para carregar.
Naquela coleção de poucos de segundos que me obrigaram a escolher, coloquei a chave, girei-a e cruzei o portal.
O que havia do outro lado? Isto é uma outra história!

terça-feira, 26 de abril de 2011

O colecionador de cristais

Colecionava cristais, cuidadosamente guardados em caixa de prata. Com esmero e certeza do que possuía, sabia exatamente quantos tinha e de quando eram. Impressionante a forma como dispunha cada pedra daquela que reluzia ao ser limpa e expostas à luz.
As histórias de cada cristal não se confundiam jamais. Até porque, elas eram o resultado das lágrimas que produzia quando uma dor ou sofrimento se lhe tomava de assalto na vida! Inesquecíveis e guardadas, ali estavam sempre.
Não acreditando em bem que sempre dure – entendendo como bem aquilo que se possui e encarando os cristais como seus mais preciosos bens –, a sorte não lhe soprou a favor naquele dia.
Surpreendido pela cena de uma folha que havia despencado de uma alta árvore e que, soprando leve, uma brisa não permitia que ela caísse logo, um sorriso se esboçou no rosto marcado pelas rugas de tensão sempre alertas! Naquele momento, por distração, deixou que a mente vagasse no mesmo ritmo da folha. Dançando ao sabor do vento, os pensamentos largavam-se todos no entusiasmo provocado pela bailarina amarelecida do anúncio de chegada do outono. Chegava a rir... isto mesmo.. rir do que estava vendo.
Foi o suficiente para sentir que o seu colo começava a ficar molhado. Instintivamente abriu a caixa e, uma a uma, viu cada pedra de cristal desfazendo-se em liquido, voltando a ser lágrima. Perdeu-as todas e culpando-se por haver dado chance a sentir alegria, esquece o lapso do encantamento, torna a fechar a caixa e chora...
Recomeça a coleção de cristais!

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Tabuleiro

O desavisado ou, pelo menos, aquele que se furta a aventura de viver seria capaz de achar estranha a cena. Caso a estranheza ultrapasse às raias da razão, diria ser loucura e desconexão. Mas, a bem da verdade, só quem nunca se arriscou chegaria a tal conclusão.
A mesa, muito bem posta, coloca em régua milimétrica os objetos em imagem refletida. De cada lado, as cadeiras recebem os jogadores que contendo a tensão necessária e capaz, fazem os movimentos segundo o que as suas condições lhes permitem para que não demonstrem vacilações ou improdutividade.
O tabuleiro, alternadamente branco e preto, estimula os apressados a emitirem suas opiniões sobre divertimento. Porém, cabe-me o tino de descrever, nos pormenores, tudo que envolve a questão.
As peças que povoam o lado direito são redondas e achatadas, cabendo por completo em cada “casícula” alva e negra – eis o jogo de damas.
Na outra extremidade, surgem os elevados elementos (torres, cavalos, rei, rainha, bispos e peões) que movidos no limite dos deslocamentos encontram barreiras espaciais – e não especiais – para seguirem em frente! Ali está o xadrez!
Tomando assim de susto, havemos de concordar que não há como aceitar o prosseguimento do embate, pois jogos diferentes, regras outras!
Equívoco pontual de quem desconhece os motivos. Ou seja, a dois, por mais que possa parecer a terceiros algo impossível e estranho, sempre existirão acordos específicos de convivência e por mais disparatada que se mostre a situação, somente os envolvidos asseguram a manutenção do que se propuseram jogar. É estabelecer, num âmbito privado, os sinais de construção do que estabeleceram como meta. Em suma, chamam a isto de casamento.

terça-feira, 12 de abril de 2011

Compositor

Entre um devaneio e outro, a pausa de meus sentidos apressados fez-me perceber ao longe uma melodia. Confesso que, cansado de engendrar tantos pensamentos, não fui capaz de reconhecer se era uma música produzida por instrumentos do mundo real ou se fazia parte do preenchimento do vazio da mente. A única coisa que posso afirmar é que me deparei com mais uma das verdades (ainda que as verdades sejam sempre parciais) que vou carreando ao longo da minha jornada: a genialidade não carece de tantos elementos para ser considerada descoberta. Pode deixar que tentarei elucidar a questão!
Uma sinfonia, numa análise determinada, é composta da magistral combinação de sons. Entretanto cabe dizer que são somente sete as notas musicais, em escalas diversas, mas restrita e exclusivamente sete. O trabalho – a árdua tarefa da sensibilidade, da emoção, da sorte e do suor – consiste em dar vasão às múltiplas possibilidades e, arrisco-me a dizer, repetitividades dos acordes. E quem pensa que sobre tudo já se criou, pode ser surpreendido com uma nova métrica, uma inédita ária.
Assim também o é na análoga vida. Somos uma apanhado de alguns procedimentos e, magicamente, deparamo-nos com a necessidade de revitalizar o que somos – a bagagem que trazemos – objetivando dar sentido à existência. Mesclamos, selecionamos e até reinventamos (dentro dos limites do que temos nas mãos) a orquestração de nossos dias. Não devemos, logo pois, contar com os fatores estranhos as nossas matérias. Obriguemo-nos sim ao exercício da arte combinatória e, certamente, o resultado trará a harmonia da audição de quem se lança na tarefa de se auscultar.

terça-feira, 5 de abril de 2011

Tento

Ilumina-me o vento
com as perguntas que invento
desde os meus aposentos.
Sou este relento
de onde o trabalho turbulento
que eu mesmo acrescento
dá luz ao meu sustento.

terça-feira, 29 de março de 2011

Perguntas e respostas

Não quero tropeçar nas certezas das respostas, pois até elas podem ser tão fluidas que são capazes de derrubar qualquer afirmação categórica. Prova disto está na quantidade de anos em que se acreditou piamente em que a Terra era plana. Daí, concluo: a angústia de quem vive ou pode estar pautada na expectativa do que o instante seguinte lhe reserva, é a famosa surpresa do futuro (e quem assim rege os dias acaba por não caminhar), ou bem pode localizar-se no cansaço da não-obtenção das explicações (estes perdem as esperanças). E como não quero me cansar mais do que o necessário, deixo para os afoitos ambas as tarefa. Desejo afastar-me dos quereres desregrados para que eles não sejam mais grilhões do que aqueles que já, por força de existir, arrasto. Não me esquivo de seguir os dias e nem me furto da arte de me lançar na chance do erro, do acerto, das tentativas, das frustrações, mas o que me nego – e nisto sou taxativo – é permanecer na sofreguidão da reclamação das inconstâncias que fogem à minha lógica.
Sei que há um mundo para além do alcance do que meus olhos podem ver, entretanto a pergunta que não me deixa é: se não conseguirei desvendar todos esses mistérios que povoam a alma humana desde sempre, por que eu, mortal, insistirei em deixar pegadas nas dúvidas? Tal atitude solucionaria a dor do universo? Se assim o fosse, seria o primeiro voluntário a integrar o elenco dos questionadores. Porém, algo me diz (e sem explicação do que me fala) algo me diz que é inócuo jazer no vácuo da pergunta. Simplesmente anseio alimentar o meu viver!

quinta-feira, 17 de março de 2011

Bandeiriana: a vida que podia ter sido e não foi

Por incrível que pareça, o passado também se idealiza. Não o mudamos e nem limpamos as dores, principalmente aquelas que cortaram a carne. Não. O passado não é dissolvido no ar como poeira. Podemos fazer força para esquecê-lo (e as vezes somos tomados de uma amnésia sugestiva e intencional), mas o passado não se apaga. O passado por definição é: A inoperante chance do “poderia ter sido” (mas não foi!). Entretanto, ainda há aqueles que alimentam um passado tão vazio de significado somente pelo fato de não quererem sofrer o presente. Há os que criam um cenário tão longe da realidade, que chegam a crer, inocentemente, que viveram o que nem de perto se constituía como real. Chamam à memória uma sensação que, analisada de forma isenta, ver-se-ia como improvável. Mentem? Claro que não! Enganam-se? Talvez. Não por maldade ou mau-caratismo, mas querendo se defender do insondável futuro. Alguns, embora possam ter sofrido, naquele então, ofensas ou desprezo insistem em manter a soberba do ofensor e escutam, hoje, esse “algoz” com um ligeiro sorriso nos lábios, pois afinal de contas, “vivi aquele tempo” (que na verdade nem existiu!).
“Ó tolos arraigados, não vos maltrateis trazendo à tona o que não move mais os moinhos! Não vos recuseis a olhar os sulcos com perspectivas verdadeiras. E jamais temais enterrar os vossos passado.”
Dizendo não à violência que um passado criado pode trazer, certamente ele não deixará de ter acontecido, mas, obviamente, dará ao homem a única oportunidade de ser feliz: o presente. Não insistas em relembrar o que não foi tomado por ti. Aquilo tudo nada mais é, no agora, a miragem, absurdamente miragem, da sombra de um ontem. Não valerá à pena!

terça-feira, 15 de março de 2011

Voo-pássaro


Rasgam o cenário as duas lâminas articuladas da tesoura de sua cauda. Em contraste com o resultado alaranjado da mescla do ocaso, o traço azulão-prateado, parece, pela velocidade, querer manchar a palheta do céu. Trazes no teu voo o anseio da chegada do tempo de desabrochar. E, ainda que incerto, agarramos-nos na esperança de que uma vez mais será instante de florescer.
Resistente, teu senso de orientação deixa os olhos que te acompanham incrédulos, uma vez que repetes diariamente a trajetória sem errar a linha. Ágil, escapas das ameaças nos rasantes efetuados, e mesmo diante do perigo, a velocidade da sobrevivência faz-te elevar o corpo outra vez. Sem temer a distância, lança-te na aventura de buscar temperaturas mais cálidas na certeza de que perpetuarás a espécie. Tão pequena, mas tão imensa, a andorinha-exemplo faz corar de vergonha o homem que pouco conhece de si mesmo e falha ao estabelecer os projetos de controlar as areias da sua própria ampulheta que escorrem inexoráveis.

terça-feira, 8 de março de 2011

O caminho da poesia

Piso suavemente os versos da poesia. Por entre verbos, adjetivos e rimas meus pés se guiam para que não perca o passo nem o ritmo estabelecido por cada um. Não me tomem por herege e muito menos por soberbo, achando eu que posso ser superior. Ao contrário, minha pequenez me faz avançar, na vida, sustentado pela força das palavras cautelosamente são colocadas em cada linha. Altivo são os poetas que souberam dizer o que minh’alma sempre quis expressar. Ousados são eles que sem receio ou a preocupação dos derrotados esculpiram os degraus por entre os que caminho. Reconhecemos-lhes o valor, pois, ao lançarem no alvo branco da expressão o que lhes conforma o íntimo, não tinham por primeira opção a aceitação e muito menos a obrigação de agradarem a terceiros. O que verdadeiramente sempre lhes impulsionou – e peço permissão ao pleonasmo da emoção para dizer – foi a imperiosa vontade de entenderem-se a si mesmos, como o faço tão modestamente neste desabafo!

terça-feira, 1 de março de 2011

As sete qualidades capitais (cont.)

Reitero a minha necessidade de não estar condicionado a pautar meu comportamento em primeiro lugar pelo temor do erro. Ainda não me deram uma explicação plausível para que eu, ou qualquer outro ser humano, tenhamos que nos desdobrar nas atitudes considerando antes de tudo o que não devemos fazer. Cresci – e se cada um quiser também tomar para si o meu discurso – crescemos fomentados pelos efeitos que o pecado pode ocasionar na vida de um “digno” ser vivente. Razões até encontramos, sejam elas de cunho religioso (dogmático mesmo) ou motivos sociais de imperiosa vontade de controle. Mas o fato é: Por que para ser reconhecido como humano não me basta agir somente pelo prazer das ações ou o de bem-estar colaborativo em termos de humanidade? Quem me poderia justificar que antes de dizer o que é bom, precisamos construir a ideia do ruim?
Depois de tantas associações com o que se desenha de inferno para os transgressores, não quero chegar à conclusão de que o homem é bom não porque dele nasça essa prática, e sim porque ele teme ter que transitar entre os portais do purgatório e o fogo do inframundo. Não pode ser assim tão direta a questão! Ora, faço o bem não pela convicção, mas pelo susto do risco. Não quero acreditar que seja assim.
Desculpem-me a indignação, mas ser comedido, desapegado, desprendido, amável, alegre, empenhado e modesto não deveriam ser as medidas de seus opostos e sim, a bandeira a sinalizar a construção das interrelações.
Ainda restará um fio de esperança enquanto houver, ao menos, um entre nós que, de tempos em tempos, venha ao mundo a desafiar a força do instaurado e, quase martirizado, propuser a revisão dos conceitos. Não tem jeito, pensarei assim sempre!

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

As 7 Qualidades Capitais

Uma pergunta tem me sondado os dias: Por que devo sustentar minha vida através dos limites do inescrupuloso? Não consigo entender como fazer o caminho a partir do medo! O que leva os homens à imposição do temor para garantirem a supremacia de suas instâncias? Será insegurança ou vergonha a instauração dos limites. “Não ande por ali”, “Não pise acolá”, “Tomar este rumo lhe condenará a alma” e tantas outras frases de efeito que, por repetição, afastam-se da reflexão. Ninguém pode comprometer a eternidade tão somente por aprender a entender as limitações. Não se vence a batalha sem se conhecer os inimigos. Homem algum pode enfrentar o mostro se na peleja já entrar derrotado. Alguém pode me dizer, baseado em razões plausíveis, por que devo pautar a vida pelo não-erro ao invés de vasculhar em mim mesmo o conforto do acerto? Certa vez, fui inquirido sobre meus pecados. Retumbante palavra, ferina e maltrapilha ecoou na alma, travou as explicações querendo que eu me desfizesse de mim mesmo. Mas se só se conhece a noite porque há o dia para se contrapor, como entender minhas virtudes (se as tenho!) sem compreender o que me tolhe? Não proponho a anarquia dos sentimentos, mas vale à pena aferir alguns quesitos dentro dos torpes comportamentos humanos. Façamos, antes pois, um estudo de cada uma das imposições dogmáticas dos pecados (e que me convençam deles) para que só então, venham os doutos do cerceamento alheio me dizer que não vivi!

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Jogadores no tempo

O olhar mais aguçado não é o que busca os detalhes para formular as críticas, é sim aquele que pelas lentes da presteza e da coragem encara seja o que for. Estive a observar, no horizonte, uma pequena e alongada nuvem que se movia no seu ritmo segundo as condições atmosféricas de onde se encontrava. Logo imaginei: “Em quanto tempo pode ela chegar até aqui?” Nem a expectativa de ver atendidas as minhas especulações foi suficiente para que eu pudesse esperar a sua chegada. Perdi, então, naquele momento, a chance de observar as modificações que o sabor do vento transforma. Somos assim também com relação aos homens e somos muito mais severos ainda quando tratamos de nós mesmos. Se, claramente, percebemos as formas e no tempo de nossas exigências conseguimos enxergar, ótimo! Deixamos correr solta a formulação das ideias e não hesitamos em construir valores e conceitos. Entretanto, se somos ameaçados, no menor das impossibilidades, aí então dispersamos e dispensamos a oportunidade de crescer. A conclusão que, inevitavelmente, podemos chegar é a de que vilão não é a areia do tempo que escorre. Saibam, pois, que a grande opressora nesta história é a nossa intolerância que joga conosco pacientemente diante do tabuleiro.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Presente do Indicativo

Permita-me, caro Andrade, revisitar a sua assertiva e, retocando-a, dizer: amar é verbo no Presente (e do Indicativo, ainda por cima!). Aquele que se arvora a pronunciá-lo no pretérito deveria rever o que sentiu, pois, provavelmente não tem a compreensão exata daquilo pelo qual estava passando.
Quem ama guarda numa espécie de hiato do “agora” a coleção das vivências e descobertas mais significativas que se pode ter. Quem ama aprende a abrir espaços em suas reticentes manias e vícios para não ofender o alvo do amor e busca também, ao mesmo tempo, uma forma de dar explicações para o fechamento das tantas outras possibilidades que contrariam os seus desejos. Para amar, o homem se esmera em ser o que talvez ainda não é, mas crê no vir a se transformar. Quem ama agrega quando lhe convém e tem o dom de espalhar quando não consegue se manter na posição da conquista. O tempo de amar é o jogo que transita entre o laço e o cofre. Ao amar, desfila-se pelas ruas com o sorriso exposto da exibição na mesma medida em que se mantém alerta os sentidos que fazem recuar frente às ameaças ladinas dos olhares alheios. Três, pelo menos, são as chances de amar:
- Ao pensar que não foi amor, esforço-me em construir profundos calabouços para aprisionar o que me enganou.
- Se, distraidamente, no recôndito dos pensamentos me escapa um “amei”, é porque não era amor.
- Mas se amo, cansa-se o vento das tantas vezes em que lhe lanço as palavras.
Então, pelo axioma da ilógica experiência, se amo (no Presente), é porque entendo que amar é verbo de verdade!

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Autorretrato

Sei que minhas palavras são mudas aos teus ouvidos. Não por lhes faltar importância, mas porque elas ainda não nasceram, apesar de lutarem comigo. O que tento te dizer é resultado de um eterno produto inacabado que exponho à luz dos olhos dos homens. Nada mais escrevo a não ser o instante da contemplação que se engata no tempo imediatamente antes de existir: é a fecunda realização. Inevitável é não deixar de sentir o incômodo do arrastado movimento da areia que escorre e me angustia. Segue a vida e eu, pressionado pelos espectros que me assombram, tento exorcizá-los no papel antes que eles me calem. Surgem, ora pois, as linhas e os traços paralelos tantas vezes, difusos e confusos outras tantas. Divergência esclarecedora que se direciona a mim. Descubro quem sou.

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Onde repousa a alma

Por entre as cúpulas das ermidas, santuários, capelas e igrejas matrizes minh’alma caminhou. A quietude, que recuperava o valor das pedras ali erigidas, reconhecia o esforço de tantos e notava a devoção de muitos. Não havia espaço para qualquer palavra. Todas seriam inúteis.
Mais do que paredes, pinturas e imagens, naqueles templos, repousa a confiança do homem em um amálgama de promessas e gratidão. Por completa e misteriosa sintonia, meus pés, ao cruzarem os portais, conseguiam distinguir o esforço do somatório do tempo das existências.
Persigno-me contrito e deixo que meu coração cresça a cada encontro que independentemente de ter os olhos abertos ou não, faz-me preencher de Deus! Passo a passo, busco perceber os detalhes que abrem meu coração em direção ao indizível mundo da fé.
São bandeiras, abóbadas, átrios, candeeiros e círios. Depositários das esperanças na forma de oferendas que, cautelosamente colocadas, refletem, no dourado dos objetos, as histórias de seus peregrinos. Sinto-me a interseção do palpável e o imaterial das confrarias celestiais que cantam junto aos foles dos órgãos que ressoam em minhas veias. Atravessando os limites da linha que move o universo de experiências e por tamanho reconhecimento da dádiva vivida naqueles dias, não me resta outra atitude a não ser a de dobrar meus joelhos, levantar meu rosto em direção à nave central onde se ergue o madeiro e em oração silenciosa dizer amém!

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Insistente

Desenhada em meu rosto,
Insistes em perpetuar-te
Como se imagem
Fosses de mim.

Mas eu, teimoso que sou,
Reitero o ato de eliminar-te.
Nesta luta de insistentes,
Voltas a te fixar em minha face.

O que te faz brilhar
Não é luz própria.
Lanças mão do espectro da lua
Para que te vejam
E te valorizem mais do que faço.
Tola, desconheces o quanto precisas
De espectadores para que ganhes vida.

Na verdade,
Nada és sem outros olhos.
Não reluzes sem faróis externos,
Nem te manténs por própria vontade.

Não permitirei que te instaures.
És gota e não oceano.
És filete e não caudal.
És lágrima e não minha morte.

Seco-te e sigo adiante.