Colecionava cristais, cuidadosamente guardados em caixa de prata. Com esmero e certeza do que possuía, sabia exatamente quantos tinha e de quando eram. Impressionante a forma como dispunha cada pedra daquela que reluzia ao ser limpa e expostas à luz.
As histórias de cada cristal não se confundiam jamais. Até porque, elas eram o resultado das lágrimas que produzia quando uma dor ou sofrimento se lhe tomava de assalto na vida! Inesquecíveis e guardadas, ali estavam sempre.
Não acreditando em bem que sempre dure – entendendo como bem aquilo que se possui e encarando os cristais como seus mais preciosos bens –, a sorte não lhe soprou a favor naquele dia.
Surpreendido pela cena de uma folha que havia despencado de uma alta árvore e que, soprando leve, uma brisa não permitia que ela caísse logo, um sorriso se esboçou no rosto marcado pelas rugas de tensão sempre alertas! Naquele momento, por distração, deixou que a mente vagasse no mesmo ritmo da folha. Dançando ao sabor do vento, os pensamentos largavam-se todos no entusiasmo provocado pela bailarina amarelecida do anúncio de chegada do outono. Chegava a rir... isto mesmo.. rir do que estava vendo.
Foi o suficiente para sentir que o seu colo começava a ficar molhado. Instintivamente abriu a caixa e, uma a uma, viu cada pedra de cristal desfazendo-se em liquido, voltando a ser lágrima. Perdeu-as todas e culpando-se por haver dado chance a sentir alegria, esquece o lapso do encantamento, torna a fechar a caixa e chora...
Recomeça a coleção de cristais!
terça-feira, 26 de abril de 2011
segunda-feira, 18 de abril de 2011
Tabuleiro
O desavisado ou, pelo menos, aquele que se furta a aventura de viver seria capaz de achar estranha a cena. Caso a estranheza ultrapasse às raias da razão, diria ser loucura e desconexão. Mas, a bem da verdade, só quem nunca se arriscou chegaria a tal conclusão.
A mesa, muito bem posta, coloca em régua milimétrica os objetos em imagem refletida. De cada lado, as cadeiras recebem os jogadores que contendo a tensão necessária e capaz, fazem os movimentos segundo o que as suas condições lhes permitem para que não demonstrem vacilações ou improdutividade.
O tabuleiro, alternadamente branco e preto, estimula os apressados a emitirem suas opiniões sobre divertimento. Porém, cabe-me o tino de descrever, nos pormenores, tudo que envolve a questão.
As peças que povoam o lado direito são redondas e achatadas, cabendo por completo em cada “casícula” alva e negra – eis o jogo de damas.
Na outra extremidade, surgem os elevados elementos (torres, cavalos, rei, rainha, bispos e peões) que movidos no limite dos deslocamentos encontram barreiras espaciais – e não especiais – para seguirem em frente! Ali está o xadrez!
Tomando assim de susto, havemos de concordar que não há como aceitar o prosseguimento do embate, pois jogos diferentes, regras outras!
Equívoco pontual de quem desconhece os motivos. Ou seja, a dois, por mais que possa parecer a terceiros algo impossível e estranho, sempre existirão acordos específicos de convivência e por mais disparatada que se mostre a situação, somente os envolvidos asseguram a manutenção do que se propuseram jogar. É estabelecer, num âmbito privado, os sinais de construção do que estabeleceram como meta. Em suma, chamam a isto de casamento.
A mesa, muito bem posta, coloca em régua milimétrica os objetos em imagem refletida. De cada lado, as cadeiras recebem os jogadores que contendo a tensão necessária e capaz, fazem os movimentos segundo o que as suas condições lhes permitem para que não demonstrem vacilações ou improdutividade.
O tabuleiro, alternadamente branco e preto, estimula os apressados a emitirem suas opiniões sobre divertimento. Porém, cabe-me o tino de descrever, nos pormenores, tudo que envolve a questão.
As peças que povoam o lado direito são redondas e achatadas, cabendo por completo em cada “casícula” alva e negra – eis o jogo de damas.
Na outra extremidade, surgem os elevados elementos (torres, cavalos, rei, rainha, bispos e peões) que movidos no limite dos deslocamentos encontram barreiras espaciais – e não especiais – para seguirem em frente! Ali está o xadrez!
Tomando assim de susto, havemos de concordar que não há como aceitar o prosseguimento do embate, pois jogos diferentes, regras outras!
Equívoco pontual de quem desconhece os motivos. Ou seja, a dois, por mais que possa parecer a terceiros algo impossível e estranho, sempre existirão acordos específicos de convivência e por mais disparatada que se mostre a situação, somente os envolvidos asseguram a manutenção do que se propuseram jogar. É estabelecer, num âmbito privado, os sinais de construção do que estabeleceram como meta. Em suma, chamam a isto de casamento.
terça-feira, 12 de abril de 2011
Compositor
Entre um devaneio e outro, a pausa de meus sentidos apressados fez-me perceber ao longe uma melodia. Confesso que, cansado de engendrar tantos pensamentos, não fui capaz de reconhecer se era uma música produzida por instrumentos do mundo real ou se fazia parte do preenchimento do vazio da mente. A única coisa que posso afirmar é que me deparei com mais uma das verdades (ainda que as verdades sejam sempre parciais) que vou carreando ao longo da minha jornada: a genialidade não carece de tantos elementos para ser considerada descoberta. Pode deixar que tentarei elucidar a questão!
Uma sinfonia, numa análise determinada, é composta da magistral combinação de sons. Entretanto cabe dizer que são somente sete as notas musicais, em escalas diversas, mas restrita e exclusivamente sete. O trabalho – a árdua tarefa da sensibilidade, da emoção, da sorte e do suor – consiste em dar vasão às múltiplas possibilidades e, arrisco-me a dizer, repetitividades dos acordes. E quem pensa que sobre tudo já se criou, pode ser surpreendido com uma nova métrica, uma inédita ária.
Assim também o é na análoga vida. Somos uma apanhado de alguns procedimentos e, magicamente, deparamo-nos com a necessidade de revitalizar o que somos – a bagagem que trazemos – objetivando dar sentido à existência. Mesclamos, selecionamos e até reinventamos (dentro dos limites do que temos nas mãos) a orquestração de nossos dias. Não devemos, logo pois, contar com os fatores estranhos as nossas matérias. Obriguemo-nos sim ao exercício da arte combinatória e, certamente, o resultado trará a harmonia da audição de quem se lança na tarefa de se auscultar.
Uma sinfonia, numa análise determinada, é composta da magistral combinação de sons. Entretanto cabe dizer que são somente sete as notas musicais, em escalas diversas, mas restrita e exclusivamente sete. O trabalho – a árdua tarefa da sensibilidade, da emoção, da sorte e do suor – consiste em dar vasão às múltiplas possibilidades e, arrisco-me a dizer, repetitividades dos acordes. E quem pensa que sobre tudo já se criou, pode ser surpreendido com uma nova métrica, uma inédita ária.
Assim também o é na análoga vida. Somos uma apanhado de alguns procedimentos e, magicamente, deparamo-nos com a necessidade de revitalizar o que somos – a bagagem que trazemos – objetivando dar sentido à existência. Mesclamos, selecionamos e até reinventamos (dentro dos limites do que temos nas mãos) a orquestração de nossos dias. Não devemos, logo pois, contar com os fatores estranhos as nossas matérias. Obriguemo-nos sim ao exercício da arte combinatória e, certamente, o resultado trará a harmonia da audição de quem se lança na tarefa de se auscultar.
terça-feira, 5 de abril de 2011
Tento
Ilumina-me o vento
com as perguntas que invento
desde os meus aposentos.
Sou este relento
de onde o trabalho turbulento
que eu mesmo acrescento
dá luz ao meu sustento.
terça-feira, 29 de março de 2011
Perguntas e respostas
Não quero tropeçar nas certezas das respostas, pois até elas podem ser tão fluidas que são capazes de derrubar qualquer afirmação categórica. Prova disto está na quantidade de anos em que se acreditou piamente em que a Terra era plana. Daí, concluo: a angústia de quem vive ou pode estar pautada na expectativa do que o instante seguinte lhe reserva, é a famosa surpresa do futuro (e quem assim rege os dias acaba por não caminhar), ou bem pode localizar-se no cansaço da não-obtenção das explicações (estes perdem as esperanças). E como não quero me cansar mais do que o necessário, deixo para os afoitos ambas as tarefa. Desejo afastar-me dos quereres desregrados para que eles não sejam mais grilhões do que aqueles que já, por força de existir, arrasto. Não me esquivo de seguir os dias e nem me furto da arte de me lançar na chance do erro, do acerto, das tentativas, das frustrações, mas o que me nego – e nisto sou taxativo – é permanecer na sofreguidão da reclamação das inconstâncias que fogem à minha lógica.
Sei que há um mundo para além do alcance do que meus olhos podem ver, entretanto a pergunta que não me deixa é: se não conseguirei desvendar todos esses mistérios que povoam a alma humana desde sempre, por que eu, mortal, insistirei em deixar pegadas nas dúvidas? Tal atitude solucionaria a dor do universo? Se assim o fosse, seria o primeiro voluntário a integrar o elenco dos questionadores. Porém, algo me diz (e sem explicação do que me fala) algo me diz que é inócuo jazer no vácuo da pergunta. Simplesmente anseio alimentar o meu viver!
quinta-feira, 17 de março de 2011
Bandeiriana: a vida que podia ter sido e não foi
Por incrível que pareça, o passado também se idealiza. Não o mudamos e nem limpamos as dores, principalmente aquelas que cortaram a carne. Não. O passado não é dissolvido no ar como poeira. Podemos fazer força para esquecê-lo (e as vezes somos tomados de uma amnésia sugestiva e intencional), mas o passado não se apaga. O passado por definição é: A inoperante chance do “poderia ter sido” (mas não foi!). Entretanto, ainda há aqueles que alimentam um passado tão vazio de significado somente pelo fato de não quererem sofrer o presente. Há os que criam um cenário tão longe da realidade, que chegam a crer, inocentemente, que viveram o que nem de perto se constituía como real. Chamam à memória uma sensação que, analisada de forma isenta, ver-se-ia como improvável. Mentem? Claro que não! Enganam-se? Talvez. Não por maldade ou mau-caratismo, mas querendo se defender do insondável futuro. Alguns, embora possam ter sofrido, naquele então, ofensas ou desprezo insistem em manter a soberba do ofensor e escutam, hoje, esse “algoz” com um ligeiro sorriso nos lábios, pois afinal de contas, “vivi aquele tempo” (que na verdade nem existiu!).
“Ó tolos arraigados, não vos maltrateis trazendo à tona o que não move mais os moinhos! Não vos recuseis a olhar os sulcos com perspectivas verdadeiras. E jamais temais enterrar os vossos passado.”
Dizendo não à violência que um passado criado pode trazer, certamente ele não deixará de ter acontecido, mas, obviamente, dará ao homem a única oportunidade de ser feliz: o presente. Não insistas em relembrar o que não foi tomado por ti. Aquilo tudo nada mais é, no agora, a miragem, absurdamente miragem, da sombra de um ontem. Não valerá à pena!
terça-feira, 15 de março de 2011
Voo-pássaro
Rasgam o cenário as duas lâminas articuladas da tesoura de sua cauda. Em contraste com o resultado alaranjado da mescla do ocaso, o traço azulão-prateado, parece, pela velocidade, querer manchar a palheta do céu. Trazes no teu voo o anseio da chegada do tempo de desabrochar. E, ainda que incerto, agarramos-nos na esperança de que uma vez mais será instante de florescer.
Resistente, teu senso de orientação deixa os olhos que te acompanham incrédulos, uma vez que repetes diariamente a trajetória sem errar a linha. Ágil, escapas das ameaças nos rasantes efetuados, e mesmo diante do perigo, a velocidade da sobrevivência faz-te elevar o corpo outra vez. Sem temer a distância, lança-te na aventura de buscar temperaturas mais cálidas na certeza de que perpetuarás a espécie. Tão pequena, mas tão imensa, a andorinha-exemplo faz corar de vergonha o homem que pouco conhece de si mesmo e falha ao estabelecer os projetos de controlar as areias da sua própria ampulheta que escorrem inexoráveis.
terça-feira, 8 de março de 2011
O caminho da poesia
Piso suavemente os versos da poesia. Por entre verbos, adjetivos e rimas meus pés se guiam para que não perca o passo nem o ritmo estabelecido por cada um. Não me tomem por herege e muito menos por soberbo, achando eu que posso ser superior. Ao contrário, minha pequenez me faz avançar, na vida, sustentado pela força das palavras cautelosamente são colocadas em cada linha. Altivo são os poetas que souberam dizer o que minh’alma sempre quis expressar. Ousados são eles que sem receio ou a preocupação dos derrotados esculpiram os degraus por entre os que caminho. Reconhecemos-lhes o valor, pois, ao lançarem no alvo branco da expressão o que lhes conforma o íntimo, não tinham por primeira opção a aceitação e muito menos a obrigação de agradarem a terceiros. O que verdadeiramente sempre lhes impulsionou – e peço permissão ao pleonasmo da emoção para dizer – foi a imperiosa vontade de entenderem-se a si mesmos, como o faço tão modestamente neste desabafo!
terça-feira, 1 de março de 2011
As sete qualidades capitais (cont.)
Reitero a minha necessidade de não estar condicionado a pautar meu comportamento em primeiro lugar pelo temor do erro. Ainda não me deram uma explicação plausível para que eu, ou qualquer outro ser humano, tenhamos que nos desdobrar nas atitudes considerando antes de tudo o que não devemos fazer. Cresci – e se cada um quiser também tomar para si o meu discurso – crescemos fomentados pelos efeitos que o pecado pode ocasionar na vida de um “digno” ser vivente. Razões até encontramos, sejam elas de cunho religioso (dogmático mesmo) ou motivos sociais de imperiosa vontade de controle. Mas o fato é: Por que para ser reconhecido como humano não me basta agir somente pelo prazer das ações ou o de bem-estar colaborativo em termos de humanidade? Quem me poderia justificar que antes de dizer o que é bom, precisamos construir a ideia do ruim?
Depois de tantas associações com o que se desenha de inferno para os transgressores, não quero chegar à conclusão de que o homem é bom não porque dele nasça essa prática, e sim porque ele teme ter que transitar entre os portais do purgatório e o fogo do inframundo. Não pode ser assim tão direta a questão! Ora, faço o bem não pela convicção, mas pelo susto do risco. Não quero acreditar que seja assim.
Desculpem-me a indignação, mas ser comedido, desapegado, desprendido, amável, alegre, empenhado e modesto não deveriam ser as medidas de seus opostos e sim, a bandeira a sinalizar a construção das interrelações.
Ainda restará um fio de esperança enquanto houver, ao menos, um entre nós que, de tempos em tempos, venha ao mundo a desafiar a força do instaurado e, quase martirizado, propuser a revisão dos conceitos. Não tem jeito, pensarei assim sempre!
terça-feira, 22 de fevereiro de 2011
As 7 Qualidades Capitais
Uma pergunta tem me sondado os dias: Por que devo sustentar minha vida através dos limites do inescrupuloso? Não consigo entender como fazer o caminho a partir do medo! O que leva os homens à imposição do temor para garantirem a supremacia de suas instâncias? Será insegurança ou vergonha a instauração dos limites. “Não ande por ali”, “Não pise acolá”, “Tomar este rumo lhe condenará a alma” e tantas outras frases de efeito que, por repetição, afastam-se da reflexão. Ninguém pode comprometer a eternidade tão somente por aprender a entender as limitações. Não se vence a batalha sem se conhecer os inimigos. Homem algum pode enfrentar o mostro se na peleja já entrar derrotado. Alguém pode me dizer, baseado em razões plausíveis, por que devo pautar a vida pelo não-erro ao invés de vasculhar em mim mesmo o conforto do acerto? Certa vez, fui inquirido sobre meus pecados. Retumbante palavra, ferina e maltrapilha ecoou na alma, travou as explicações querendo que eu me desfizesse de mim mesmo. Mas se só se conhece a noite porque há o dia para se contrapor, como entender minhas virtudes (se as tenho!) sem compreender o que me tolhe? Não proponho a anarquia dos sentimentos, mas vale à pena aferir alguns quesitos dentro dos torpes comportamentos humanos. Façamos, antes pois, um estudo de cada uma das imposições dogmáticas dos pecados (e que me convençam deles) para que só então, venham os doutos do cerceamento alheio me dizer que não vivi!
terça-feira, 15 de fevereiro de 2011
Jogadores no tempo
O olhar mais aguçado não é o que busca os detalhes para formular as críticas, é sim aquele que pelas lentes da presteza e da coragem encara seja o que for. Estive a observar, no horizonte, uma pequena e alongada nuvem que se movia no seu ritmo segundo as condições atmosféricas de onde se encontrava. Logo imaginei: “Em quanto tempo pode ela chegar até aqui?” Nem a expectativa de ver atendidas as minhas especulações foi suficiente para que eu pudesse esperar a sua chegada. Perdi, então, naquele momento, a chance de observar as modificações que o sabor do vento transforma. Somos assim também com relação aos homens e somos muito mais severos ainda quando tratamos de nós mesmos. Se, claramente, percebemos as formas e no tempo de nossas exigências conseguimos enxergar, ótimo! Deixamos correr solta a formulação das ideias e não hesitamos em construir valores e conceitos. Entretanto, se somos ameaçados, no menor das impossibilidades, aí então dispersamos e dispensamos a oportunidade de crescer. A conclusão que, inevitavelmente, podemos chegar é a de que vilão não é a areia do tempo que escorre. Saibam, pois, que a grande opressora nesta história é a nossa intolerância que joga conosco pacientemente diante do tabuleiro.
terça-feira, 8 de fevereiro de 2011
Presente do Indicativo
Permita-me, caro Andrade, revisitar a sua assertiva e, retocando-a, dizer: amar é verbo no Presente (e do Indicativo, ainda por cima!). Aquele que se arvora a pronunciá-lo no pretérito deveria rever o que sentiu, pois, provavelmente não tem a compreensão exata daquilo pelo qual estava passando.
Quem ama guarda numa espécie de hiato do “agora” a coleção das vivências e descobertas mais significativas que se pode ter. Quem ama aprende a abrir espaços em suas reticentes manias e vícios para não ofender o alvo do amor e busca também, ao mesmo tempo, uma forma de dar explicações para o fechamento das tantas outras possibilidades que contrariam os seus desejos. Para amar, o homem se esmera em ser o que talvez ainda não é, mas crê no vir a se transformar. Quem ama agrega quando lhe convém e tem o dom de espalhar quando não consegue se manter na posição da conquista. O tempo de amar é o jogo que transita entre o laço e o cofre. Ao amar, desfila-se pelas ruas com o sorriso exposto da exibição na mesma medida em que se mantém alerta os sentidos que fazem recuar frente às ameaças ladinas dos olhares alheios. Três, pelo menos, são as chances de amar:
- Ao pensar que não foi amor, esforço-me em construir profundos calabouços para aprisionar o que me enganou.
- Se, distraidamente, no recôndito dos pensamentos me escapa um “amei”, é porque não era amor.
- Mas se amo, cansa-se o vento das tantas vezes em que lhe lanço as palavras.
Então, pelo axioma da ilógica experiência, se amo (no Presente), é porque entendo que amar é verbo de verdade!
terça-feira, 1 de fevereiro de 2011
Autorretrato
Sei que minhas palavras são mudas aos teus ouvidos. Não por lhes faltar importância, mas porque elas ainda não nasceram, apesar de lutarem comigo. O que tento te dizer é resultado de um eterno produto inacabado que exponho à luz dos olhos dos homens. Nada mais escrevo a não ser o instante da contemplação que se engata no tempo imediatamente antes de existir: é a fecunda realização. Inevitável é não deixar de sentir o incômodo do arrastado movimento da areia que escorre e me angustia. Segue a vida e eu, pressionado pelos espectros que me assombram, tento exorcizá-los no papel antes que eles me calem. Surgem, ora pois, as linhas e os traços paralelos tantas vezes, difusos e confusos outras tantas. Divergência esclarecedora que se direciona a mim. Descubro quem sou.
terça-feira, 25 de janeiro de 2011
Onde repousa a alma
Por entre as cúpulas das ermidas, santuários, capelas e igrejas matrizes minh’alma caminhou. A quietude, que recuperava o valor das pedras ali erigidas, reconhecia o esforço de tantos e notava a devoção de muitos. Não havia espaço para qualquer palavra. Todas seriam inúteis.
Mais do que paredes, pinturas e imagens, naqueles templos, repousa a confiança do homem em um amálgama de promessas e gratidão. Por completa e misteriosa sintonia, meus pés, ao cruzarem os portais, conseguiam distinguir o esforço do somatório do tempo das existências.
Mais do que paredes, pinturas e imagens, naqueles templos, repousa a confiança do homem em um amálgama de promessas e gratidão. Por completa e misteriosa sintonia, meus pés, ao cruzarem os portais, conseguiam distinguir o esforço do somatório do tempo das existências.
Persigno-me contrito e deixo que meu coração cresça a cada encontro que independentemente de ter os olhos abertos ou não, faz-me preencher de Deus! Passo a passo, busco perceber os detalhes que abrem meu coração em direção ao indizível mundo da fé.
São bandeiras, abóbadas, átrios, candeeiros e círios. Depositários das esperanças na forma de oferendas que, cautelosamente colocadas, refletem, no dourado dos objetos, as histórias de seus peregrinos. Sinto-me a interseção do palpável e o imaterial das confrarias celestiais que cantam junto aos foles dos órgãos que ressoam em minhas veias. Atravessando os limites da linha que move o universo de experiências e por tamanho reconhecimento da dádiva vivida naqueles dias, não me resta outra atitude a não ser a de dobrar meus joelhos, levantar meu rosto em direção à nave central onde se ergue o madeiro e em oração silenciosa dizer amém!
terça-feira, 11 de janeiro de 2011
Insistente
Desenhada em meu rosto,
Insistes em perpetuar-te
Como se imagem
Fosses de mim.
Mas eu, teimoso que sou,
Reitero o ato de eliminar-te.
Nesta luta de insistentes,
Voltas a te fixar em minha face.
O que te faz brilhar
Não é luz própria.
Lanças mão do espectro da lua
Para que te vejam
E te valorizem mais do que faço.
Tola, desconheces o quanto precisas
De espectadores para que ganhes vida.
Na verdade,
Nada és sem outros olhos.
Não reluzes sem faróis externos,
Nem te manténs por própria vontade.
Não permitirei que te instaures.
És gota e não oceano.
És filete e não caudal.
És lágrima e não minha morte.
quarta-feira, 5 de janeiro de 2011
Original
Quem foi que disse que tenho que ser sempre original? Essas expectativas não vêm daqueles que buscam para as suas próprias vidas as relações do que escrevo. Não são também os que criam imagens a partir do que produzo que o fazem! Quem mais, então, poderia supor que há que se ter um cunho de ineditismo tão sacralizado nas ideias de minhas linhas?
Os que me seguem poderão encontrar algo jamais pensado, mas sem a necessidade de ser absolutamente extraordinário.
Qual a regra imposta para que meu texto seja sempre uma gigantesca surpresa?
Não restaria nem para a existência e muito menos para o tempo a oportunidade de construírem a história, pois se somente o não-revelado fosse o único a ser valorizado, o que fazer com todas as páginas registradas da humanidade? Pobre Platão, diria eu!
O que chamam de invento não é um isolado conceito de acontecimento, mas sim a capacidade de reviver de forma diferente o que fora posto por outrem. Dito de outra forma, para que não me acusem de confuso, é tomar para si o já criado e forjá-lo novamente.
Do plágio à reinvenção, tudo é possível, mas o que realmente importa é o conforto de quem modela as palavras e o prazer de quem entra em contato com o resultado dessa manifestação.
terça-feira, 28 de dezembro de 2010
De perto e de longe
De perto, no mesmo nível em que estão os meus passos, não compreendes as voltas dou. Buscas entender as razões que me fazem caminhar por entre as imaginárias paredes do labirinto que tu inventas (não eu) para justificar os meus movimentos. E por ali vou, retorno, passo novamente diante de ti, sentes minha presença ritmada a tua retaguarda, incansável! E das voltas que dou, mais voltas dão os teus pensamentos. Emaranha-te neles! Não falas, não pedes explicações e permaneces a te remorderes no intuito de buscar plausíveis motivos para o que estou fazendo.
Devido a tua necessidade de entendimento ser maior do que a da tua confiança, és alçada a andares muito mais altos do que aquele que estavas. E de lá – aí sim – percebes o que meu trilhar fazia: tecia, fio a fio, com esmero e cuidado, a tela do que é amar. Na paisagem que agora vês, consegues enxergar de longe o que teus olhos não foram capazes de perceber ao meu lado. Infelizmente, tarde no tempo! No inexorável tempo que aplaca as possibilidades de retorno. E de onde te encontras, só te resta a observação, pois antes de confiar, teu senso tentava adivinhar pelo juízo de teus valores sem me dar a chance de terminar a obra que para ti fazia.
Curiosa é esta diferença entre as distâncias dos planos, que oferece a quem está junto uma oportunidade de exercitar a certeza e dá aos que afastados estão a única possibilidade de lamentarem o que não puderam aproveitar.
Sigo na labuta a espera de para quem possa oferecer meu tecido e tu, se quiseres, poderás prosseguir a mirar o meu tear.
terça-feira, 21 de dezembro de 2010
Promessas e esperanças
Hoje serei direto e isto tem uma explicação: cortou-me a carne o fio afiado da faca!
Comecemos do simples para o complexo. “São as promessas que alimentam as esperanças”. Posso responder por mim, pois no meu caso funciona assim.
Reconheço que por vezes sou insistente em acreditar nas promessas feitas, nas conversas que tentam ser das reconciliações. Ouço a voz que diz “farei” e a isto me prendo. Entendo também que se não fosse deste modo, muito provavelmente, eu não existiria. Não consigo fazer de outra forma. Quando dou por mim, já foi... acreditei de novo! Pela estrada a fora da vida, vou crendo e buscando enxergar, ainda que em fragmentos, as pequenas possibilidades do que ouvi. Será que o que estou vendo agora se aproxima do que me foi prometido? Não! Ainda não foi desta vez. E ao identificar outra tentativa lá estou a buscar as ligações entre as suspeitas e os sinais quase apagados do que na minha cabeça poderia vir a ser um lampejo do que esperava. É mais forte do que eu, não consigo deixar de lado e nem quero acreditar que é melhor não crer. Esperando permaneço!
terça-feira, 14 de dezembro de 2010
Causa e efeito
Naquela noite, já altas horas, movia-se livre a minha sombra no solo sem conhecer qualquer obstáculos. Avançava, retrocedia ou mesmo assumia os contornos irregulares que ia encontrando a cada gesto meu. Ao bel prazer de sua vontade, à revelia das minhas tentativas de controle, ela brincava. E eu, ciente e consciente de que era meu corpo o responsável imediato da sua existência.
Quase como protesto, dei-lhe as costas (mesmo sabendo que ela permaneceria ali). Deparei-me com o azul mais escuro que o marinho, salpicado de luzes intermitentes – chamam-nas de estrelas, creio! - e qual não foi minha surpresa a derrubar minha fama de responsabilidade: era sim meu corpo quem criava a sombra, mas era a luz da lua a propulsão! Decepção!
Por bom tempo, meus olhos fitavam o contorno redondo do branco que se destacava naquele marinho mais marinho ainda. Tempo... tempo.. tempo. De golpe, assaltado pelos pensamentos que tentavam entender a dicotomia de quem era mais produtor da sombra, ela – a lua – ou eu, surge o estalo (dizem os doutos “insite”): nem um nem outro! De onde vem a tua luz, inspiração dos apaixonados e candeeiro dos loucos? Dirigia minha indagação ao satélite. É também reflexo mais distante que imaginas. Eu mesmo respondia. O que brilha, na verdade, é o que te toca oriundo das sobras do caminho entre a tua superfície, tão descontrolada como a que eu pisava, e o sol.
Sem vingança ou revanche (não adiantariam), rendi-me: a sombra era a consequência do sol!
terça-feira, 7 de dezembro de 2010
A ponte
Entre as teias dos meus silêncios transitas e eu, torpe, aferro-me na esperança de que as entendas. Como posso exigir-te as compreensões forjadas em meus esconderijos? Como querer que a linguagem de minhas “não-palavras” se traduza em tuas atitudes, sem sequer deixar claros os objetivos que conformam minhas necessidades? Neste hiato encontramo-nos! De um lado teu esforço e tuas limitações, esmerando-se em me saciar. De outro, eu ansioso na espera das respostas exatas que me satisfaçam. Arre minha angústia! Se quero verdadeiramente que me escutes, devo, antes de mais nada, falar-te ou pelo menos sinalizar-te que caminhos têm meus “mudos-falares”. Não quero gerar abismos intransponíveis. Arde em mim o desejo de lançar pontes possíveis no suor das ações que edificadas assegurarão nosso livre transitar. Eu em tua direção e tu vindo até mim, ali, bem no meio do caminho criado, entre o eco da minha mente e a tua mensagem marcamos nosso encontro, selamos nossa história, aprendemos e ensinamos as nossas línguas mutuamente! Vem! Pois, esforça-me-ei em ir também!
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