terça-feira, 25 de setembro de 2012

Da série "Pelas ruas" - 3

Longe de querer ser original (aliás, o que é original, caro Platão?), mas por ser extremamente útil, deparei-me com uma longa rua, limpa e reluzente em suas vitrines polidas de dourado. Temperatura amena e gente tranquila caminhando. Cada qual com o seu tempo, com seu mundo. Tantos mundos juntos, algumas vezes se esbarrando, mas tão separados e distantes.
Havendo chamado a minha atenção essa disparidade toda, notei, sei lá se por acaso ou envergonhado, o maltrapilho que numa beirada de um portal bem esculpido em pedra deixava-se estar.
Mendigava? Talvez! Mas o que? Não era o aspecto que afastava os transeuntes, pensava eu. Era, na verdade, o peso das próprias circunstâncias que os fazia cegos. Aquele homem acocorado era invisível!
Deixando que meus “alfarrábios” mentais me lembrassem a lição secular de que todos estamos ancorados no mesmo esteio da criação e que sem prestarmos atenção podemos estar sendo testados na observância desse ensinamento, retirei do bolso a pouca nota – que provavelmente valor que compraria uma madura manga – coloquei-a naquelas mãos endurecidas pelos tempo e segui o meu rumo.
Ainda insatisfeito pela perplexidade do alijamento a que todos submetemos a cada um, voltei meu corpo em 180 graus para olhá-lo mais uma vez e vi que ali ele não estava e haviam brotado em seu lugar as alvíssimas mil pétalas brancas que são o privilégio de assento de poucos escolhidos e merecedores no mundo.

terça-feira, 18 de setembro de 2012

Da série "Pelas ruas" - 2


Um sério defeito que tenho (dos inúmeros que não me atrevo a listar) é estar mais ensimesmado do que de olho no mundo. E assim foi... caminhando “cá comigo, meus pensamentos” quando, ao dobrar a esquina, num movimento mecânico, “trupiquei” com a afoita e rápida guria que no susto do supetão só disse “uiu!”
Ela nem ia muito parar para me dar trela e nem ao menos satisfação do tropeço. E quase a espera da famosa frase “Pô, tio, não olha pra onde anda, não?”, aguardei no vácuo do silêncio incômodo nenhuma resposta ou retrucada.
Era ela a Menina-Surpresa (seu nome) que nos momentos mais inesperado aparece e “buuuuuu” nos assusta. E o coração acelera não por ser feia ou desforme.... ao contrário... pode até mesmo ser bela e jovem. O que acontece é que somos retirados da zona de conforto assim de golpe. Não é a Surpresa que nos assalta, somos nós mais distraídos ou acostumados com o entorno linear que esquecemos de, avant-gard, estar mais a espera de que as situações mudem. Refeito, aprumei-me e segui o caminho.

terça-feira, 11 de setembro de 2012

Da série "Pelas ruas" - 1


E lá vinha eu, descendo a ladeira, nem tão íngreme assim, daqueles dias em que você acorda e, meio sem gás, pensa que o melhor teria sido não levantar. Olhar nem cabisbaixo poderíamos dizer, pois os olhos não estavam direcionados... perdidos, talvez, na confiança de se ensimesmar. Quando, pelo golpe fortuito do susto, tropecei na jovem senhora que, na direção oposta, vinha tranquila e segura de si.
“Ops, desculpe” foi o mínimo, com o máximo de esforço, que saiu em som. A contra-resposta, suave e segura, não longe do esperado “bom dia”, fez-me parar e, reconhecendo a vergonha do tranco, romper a barreira do meu cansaço. Iniciamos a conversa:
  • Olá.. Vejo que o senhor vai por aí, ir por indo...
  • De verdade, hoje nem indo mesmo vou. Se deslocamento é ir, só por isso estou indo.
  • Prazer. Paciência meu nome. Eu que encontro tantos desencontros, que esbarro em diversos colididos do próprio ânimo, sei o que me diz e o quanto isso lhe pesa.
E lá se foi ela, ladeira acima, deixando-me com a pulga atrás da orelha: É... quando o homem pensa que não será retirado da sua zona de inércia, eis que lhe atropela a sentinela das vivências escondidas nos mais recônditos porões de você mesmo! Paciência!

terça-feira, 4 de setembro de 2012

Prognósticos meteorológicos



Há os que olham um dia encoberto como sendo a tristeza das possibilidades. Mantêm-se tão fechados, como o próprio entorno, a anunciar algum iminente temporal. Assustam os que observam, criam tensões ao redor, provocam movimentos de busca de proteção. Cansam-se e fazem cansar. Enfim, significam somente o prenúncio do cabisbaixo tempo. Outros, por sua vez, nem mais otimistas, nem menos derrotistas, entendem que, para além das amontoadas nuvens, existe uma imensidão celeste, intocada e clara. Aferram-se a esta certeza e espalham a crença na espera de que o pardacento dia não persistirá. Nada permanece da mesma forma ad aeternun.
Escolher o lado em que se passa a frequentar dependerá exclusivamente do “tempo” que dentro de si se reconhece. Algumas vezes, deixando-se levar pelo maremoto dos “nublados”, outras tantas filiando-se aos adeptos do céu puramente azul.
Sem haver certos ou errados, tudo não passa de passos a serem dados em uma direção ou em outra: Se o que persiste no caminheiro é a dúvida, provavelmente se antevê o lado que selecionou (céu cinzento). Por sua vez, se na trajetória se escolhe a passada mais firme, do mesmo modo, antecipa-se a resposta (céu aberto).

terça-feira, 28 de agosto de 2012

E se...


Vasculhando a vida, e isso é coisa de enxerido mesmo, surpreendi-me com as peripécias dos meus dias e notei, despretensiosamente, que não tenho nada do que me arrepender. Mas acalmem-se. Não disse que só fiz coisas certas. A conclusão a qual cheguei é a de que, no final das contas, todos os caminhos adotados, as escolhas feitas, as emoções vividas e tudo o mais tiveram serventia e valia (e continuam tendo).
Confesso que, no início das divagações, achei meio estranha assertiva de que de nada me arrependo. Entretanto, ainda no viés das especulações, brinquei de averiguar através da famosa brincadeira “o que teria sido se …” e logo percebi que:
Se eu não tivesse feito besteira, não tinha conhecido gente maravilhosa e importante no período pós-traumático.
Se eu não tivesse errado o preenchimento do cartão do vestibular, não teria a satisfação profissional que tenho.
Se não tivesse me incomodado com alguns conceitos e dogmas, não estaria na esteira da minhas busca do autoconhecimento.
Se não tivesse brigado com algumas pessoas, não descobriria o quanto são importantes para mim.
Se não tivesse exagerado na dose do crescimento, não teria mergulhado mais fundo.
Se não tivesse escutado a harmonia das canções, não teria aguçado o feeling para os acordes do mundo.
Se não tivesse tropeçado e me enganado em alguns sentimentos, julgando serem eles os mais puros, não seria eu a escrever este texto.
Enfim... Dentro de tantas conjecturas, o mais importante é que não houve espaço para que eu encontrasse uma razão de remorso pelos dias que até hoje eu vivi.

terça-feira, 21 de agosto de 2012

AUTORES


Torno pública a notícia aos que me leem, que não sou o único responsável pelo que de minha pena nasce. Se o que dou vida é singelo, certamente provém das vozes dos céus que cultivo. Entretanto, em parecendo nefasto o que expresso, advém do que compartilho com o breu que em mim também habita.

Sim! A mais pura verdade. Uma vez humano, vivem em mim luz e sombra, que longe de serem culpadas da co-autoria de minhas linhas, são o respaldo daquilo que sou. E, nas bifurcações que me angustiam, elas não se anulam. Ao contrário, complementam-se denotando de forma mais objetiva ainda a configuração de mim mesmo.

Eis que aqui estou, vitral das cores quentes e frias, primárias, secundárias e tantas outras vezes terciárias (o cúmulo – e acúmulo – das misturas). Mosaico este que a uma certa distância permite ao observador distinguir o desenho que de perto, bem de pertinho, é quase indecifrável. Ainda bem que é “quase”. O que revela, então, a possibilidade de interpretação. Levará tempo, não resta dúvida. Escoará mais e mais areia nessa ampulheta da vida, mas haverá sempre a tentativa de me entender. Sigo!

quinta-feira, 12 de julho de 2012

Suspensão

Dado a termos baixos acessos (quase nenhum) nas últimas semanas, ficam suspensos os textos.

terça-feira, 10 de julho de 2012

Revoada


Olhando aquela dourada pequena jaula, viam-se amuados – ou talvez amontoados – os sentimentos. De quando em vez saltava um mais afoito para exercitar as asas ou mesmo ceder espaço para que outro pudesse espichar as suas.
A menininha, apiedando-se dos aprisionados, engendrava um plano para dar fim àquele sofrimento.
Sorrateiramente aproximou-se e levantando a tranca deixou entreaberta a portinhola.
Bateram em revoada. Cada um dos sentimentos que passava rumo à liberdade dava uma paradinha na abertura, olhava pra um lado, olhava pro outro, tentava entender qual a melhor direção e partia. Foi uma enxurrada de atropelos. Cada um dos ex-detentos queria o mais rápido possível a nova ambientação, mais espaçosa e mais instigante.
O que lhes espera lá fora ninguém poderia ter certeza e a única maneira de saber era lançando-se à empreitada. Haveria um tempo de readaptação. Deveriam contar com isso para não acharem que esse “outro mundo” não era o mais adequado ou mais assustador. A verdade é que toda nova experiência requer cautela. Entretanto, salutar dizer que se esquivar, voluntariamente, de uma chance é acovardar-se. Não estamos falando das inconsequências tolas dos arvorados. Referimo-nos, aqui, sobre a capacidade de se auto-medir e gerenciar o inusitado como forma libertadora dos marasmos habituais e cansativos.
É tempo de buscar dar mais amplitude (e amplidão), mesmo porque só sabe o seu limite quem se permite entender. Bom exercício este, não? Você se inscreveria nessa tarefa?

terça-feira, 3 de julho de 2012

Guru Purnima


Rasgavam a escuridão da noite as luzes das estrelas que, serpenteando o céu, abriam caminho para que se elevasse, imponente, a luz cheia. Sentado à beira do riacho, o menino Ganapati movia em círculos, com seu pequeno dedo, as águas cintilantes. A mirada fixa no movimento deixavam entrever, no brilho dos olhos, que era noite especial.
O coração havia descoberto que a paz ali sempre fizera morada e que o cansaço das muitas caminhadas no intento de encontrá-la teve fim quando reconheceu em si mesmo o oásis da vida.
Naquele intervalo dos afazeres, os lampejos das empreitadas iam e vinham de sua mente. Rememorava a quantidade de vezes em que suplicou à existência para que ela lhe mostrasse o caminho. “Onde mais posso buscar?” Parecia um deserto sob cálida temperatura ou um estéril terreno o movimento de atingir a imorredoura sensação da eternidade. Nem mesmo a sombra da morte parecia-lhe, em outros tempos, a solução adequada. Ouvira dizer, inclusive, que interromper o próprio alento era postergar a solução da redenção.
Quanto mais revivia a peregrinação, mais o movimento da mão submersa na correnteza formava desenhos simétricos. Respirava com a tranquilidade de quem conquistara a vitória sobre si mesmo. Ganapati era agora sereno e recompensado.
Deitava sobre o jovem alongadamente recostado na relva a luz do luar, prateando a vida de quem sabia, na alma, que havia encontrado o dissipador da sua ignorância. É noite de Guru Purnima, Hare!

terça-feira, 26 de junho de 2012

Papel e vento


Sentado sem muito tino e nem destino, deixei-me levar pela brisa que brincava com um despretensioso pedaço de papel. Nada se interpunha entre os dois, fazendo com que trocassem favores: o vento exercia o seu poder de levantar peso, enquanto o papel usufruía da força alheia para voar. Assim, em uma simbiótica relação de aproveitamento, lá iam eles!
Um não se sentia mais usado do que o outro. Não era disputa. Era simplesmente a ocasião. Sábia relação!
Tolos são os papéis ou os ventos que se digladiam ou se exigem mutuamente, chegando ao cúmulo de se apoquentarem. Não desfrutam do tempo, não aproveitam o momento, amofinam-se e se ressentem. Perdem-se e jamais recuperam a chance do deleite.
Já alto vão os entrelaçados em uma inaudível permissão que os faz livre. Não a liberdade mal interpretada de se andar sozinho, mas a sensação interna que os liberta das cobranças. Seguem soltos consigo mesmos. Razão pela qual podem ser felizes. Tornam-se, pouco a pouco, um ponto no céu cada vez tão mais diminuto que chega a desaparecer de minhas retinas.

terça-feira, 19 de junho de 2012

Anjo e demônio

A rima é pobre, mas o sentido é nobre!


Disfarça ou mente
quem diabo não se sente.
Aureola que nem sempre
se mantém reluzente.

São pouco inteligentes
aqueles que desejam ausentes
firmarem-se como inteligentes
na falácia das correntes.

Ao contrário, revelo-me valente
ao reconhecer humildemente
que não só em mim querubim presente
vive também o Mal insistente.

Não há discurso convincente
que me ponham na mente
que existam homens eterna e somente
benéficos, presentes e prudentes.

Mais vale a verdade que movimente
as luzes e sombras intermitentes
do que sou absolutamente
Anjo e demônio ambivalente.

terça-feira, 12 de junho de 2012

Paisagens e sensações


Houve um acordo tácito entre mim e o tempo nesses dias passados. A trégua teve sua razão. Além de merecê-la, talvez eu sucumbisse, caso não estabelecêssemos o acordo. Paramos os ponteiros do relógio (ou ao menos fizemos com que eles andassem mais lentamente). Tanto foi que, em alguns momentos, não sabia nem o dia e nem a hora em que me encontrava.
Aceitas as condições que favoreceriam a ambos, caminhei como peregrino do acaso. Juntei-me a outros três andarilhos naquelas paragens, ganhamos liberdade!
Pisando estradas e picadas recoberta de cristais, sentimo-nos enormes como quem sobrevoa acima das estrelas. Vimos poeira cósmica, ganhamos terrenos e, entre rochas lunares, mergulhamos em poços translúcidos. Cansamos o cansaço. Vencemo-lo!
Embrenhando-nos em nossa própria capacidade de superar, recuperamos nossas forças em tonéis de nascentes aconchegantes. Ali suspiramos e nos deixamo ficar. Fugiu-nos completamente a noção da sequência dos segundos, minutos e horas. Tais tiranos foram embora!
Gargalhamos não pela obrigação da simpatia, mas o que sim em nos jazia era a pura simpatia de sermos nós mesmos. Potentes, frágeis, eloquentes, ousados ou tementes, éramos, na verdade, autênticos!
Florestas de crenças suprarreais, céus coalhados de histórias (ouvimos muitas), riachos e cascatas que geravam melodias enebriantes (por elas fomos envolvidos). Permitimo-nos este presente.
Olfato aguçado, distinguimos perfumes e incensos. Olhares atentos, vimos detalhes inesperados e vida pulsante. Paladar avivado, saboreamos a simplicidade e comemos manjares. Tato alerta, tocamos formas e percebemos diferentes texturas. Ouvidos abertos, distinguimos ruídos e escutamos o som do mundo. Um espetáculo sensorial para além da explicação.
Eis pois, aqui, nobres e valorosas almas para sempre!
Terminado o contrato, voltou a ampulheta a nos cobrar o compromisso do tempo! Entretanto, não nos restam dúvidas: valeu a pena!

terça-feira, 5 de junho de 2012

Mesclagem


Trupiquei no emaranhado das linhas do tempo, não por distraído ou desatento. Mesmo não querendo ser enredado, acabei caindo nas tramas daquele novelo multicor. P'ra me livrar tentei de tudo, soprei o embolado tal qual me ensinara, certa vez, minha tia-avó. De nada adiantou, estava trucando. Busquei entender a lógica antes de empreender a tarefa de separar cada fio. Foi em vão! Logicidade, se havia, não era p'ro meu entendimento.
Parei de relutar p'ra não cansar. E sabe que começou a acontecer o que eu temia? Acabei me acostumando. “É a convivência!” Alguns diziam. Outros, mais sarcásticos e derrotistas, bradavam “Tem jeito não. Abre mão de fazer força! Deixa de ser bobo (p'ra não dizer otário)”
Ali, aboletado, quase estatelado, no chão. As linhas passavam por cima de mim da forma como elas queriam e sabiam. Não estavam nem aí p'ra mim. Nem permissão me pediam. “Com licença” então, nem pensar!
Recuperando o fôlego da peleja, iniciei meu processo de indiferença para com elas, até que, refeito do susto, apoiando-me em mim mesmo, ergui-me e de soslaio controlava qualquer movimento que aquele bobolô pudesse ter na tentativa de me derrubar novamente. Pé-ante-pé, levantei-me. Arriscava um passo, outro, mais outro e, ainda, mais outro até que, numa distância considerada razoável, bati em retirada.
Tempo,tempo tempo, vocês podem até me pegar n'outra esquina. Mas que vão ter trabalho, lá isso eu garanto!!

terça-feira, 29 de maio de 2012

O norte


Mergulhando a agulha, deixei-a se conduzir pelo próprio instinto de buscar o seu norte magnético. Rodou p'ra lá, rodou p'ra cá e depois de tantas piruetas que fez, aprumou-se!
De pouco adiantaria (energia improdutiva) tentar colocá-la logo de cara na direção correta. Dois motivos me fizeram abrir mão da tarefa: o primeiro porque correria o risco de não a posicionar exatamente na linha certa (seria energia gasta desnecessariamente) e, depois, quer eu fizesse o esforço que fosse, gastasse o tempo que gastasse, uma hora ou outra, ela, por si, encontraria o rumo (teria sido mais esforço sem necessidade).
Se a lei da natureza diz que a imantada aponta para o norte, pergunto: por que desperdiçaria o meu tempo (que já nem é tanto assim) para algo que iria p'ro lugar correto, independente de minha vontade? Ainda há os que, afoitos, nem se dão conta de que poderiam investir seu escasso transcorrer das horas em coisas mais eficientes e menos previsíveis.
Deixem que eu deixe a agulha lá tentando ela própria seguir o seu destino.

terça-feira, 22 de maio de 2012

Fio da lâmina


Atravessou como flecha o peito da noite a luz da lua.
Raio afiado pelo vento do desejo,
esmerilhou a lâmina certeira e zás!
Alojou-se entre as tramas das estrelas
fazendo verter candente rastro de brilho.
Nascia assim a vida dos amantes.

Ecoou no tempo o vácuo do espaço,
Transformando em movimento,
O suspiro dos pulmões dos que se entrelaçam
No “acordo mudo com tudo”!

Deixai, ó inspiradoras deusas da completude,
que eles se desgastem pela permissão, que ambos se concederam.
Não os observeis e, muito menos, não os cerceeis a liberdade
Do calor que deliberadamente optaram por gerar.

São cúmplices do hiato, conceito de tempo que significa existência.
Instante, eternidade, fugaz ou perpétuo.
O que importa não se mede nas areias da ampulheta.

Sagazes são aqueles que intensamente sangram a arte de amar!

terça-feira, 15 de maio de 2012

A lição de Subramani


Subramani passou o tempo necessário e exigido pelas normas do mosteiro a estudar e a aprender a conviver com o seu próprio silêncio. Quantas vezes lhe doeu na alma o esforço de calar a voz da mente. Sua dedicação suplantava os incômodos ocasionados pela austeridade. Entretanto, antes de compreender de forma mais ampla os objetivos da formação, ele fora assaltado algumas vezes, em determinados momentos de sua preparação, por pensamentos tolos: “Quem estaria dentro da minha cabeça para saber que estou pensando? Relaxava e se despreocupava naquelas “folgadas estripulias” da mente. Invariavelmente, surgia ao seu lado algum monge mais velho e a reprimenda era certa! “Pare de pensar, Subramani!”

“Mas como é possível que ele saber que eu estou pensando?”

“Caro Mestre, o senhor lê mentes?” perguntava inocentemente o aprendiz.

“O dia que receber sua ordenação terá compreendido como se faz. Nada de leitura de mente, meu jovem... nada disso! Tudo a seu tempo.. Você aprenderá.”

Seguiram-se os anos e todo o tempo das lições trasncorreram até que chegou finalmente o dia de receber na fronte o sinal carmim das cinzas monásticas. O preparativo era lento, mas transparecia no ar circundante a alegria do dever cumprido de todos os envolvidos. Jejum, abluções e muita oração completavam aquele dia especial.

O som sagrado initerruptamente ecoando pelo saguão anunciava o início do evento. Entraram todos os mantos alaranjados, contritos e serenos. Terminada a saudação ao Grande Senhor do Templo, ornado de uma guirlanda vermelha e branca, o silêncio fez morada.

Tudo se orquestrava sem nenhuma palavra. Inclusive o instante em que Subramani surgiu no corredor central à porta do salão. Parecia que seus pés não tocavam o chão no deslocamento em direção ao sacerdote que oficiava a cerimônia. Em um clima de profunda paz, os traços paralelos foram feitos na fronte do noviço. Do canto dos olhos duas pequenas e brilhantes lágrimas corriam em sinal de júbilo por haver chegado à meta. Estava pronto e ordenado. Rompendo o silêncio, o monge mais antigo, mesmo com um tom suave, revela a última prova:

“Jovem Subramani, olhando para todos estes irmãos aqui sentados em meditação, diga-me, qual deles está pensando?”

Tomado pelo susto, pois ninguém lhe havia dito que passaria, em público, por aquela provação, o recém-monge enguliu em seco e sem poder perguntar nada, observava a tensão no ambiente a espera de sua resposta. Assim, movendo no seu íntimo tudo que poderia estar armazenado e que lhe serviria de base para a resolução do mistério, voltou o seu corpo compassadamente e observando a cada um, após algum tempo, apontou para um dos monges.

“E como você sabe que aquele monge não está com sua mente vazia?”

“Simplesmente porque percebo que, ao contrário dos demais, ele tem movimentos faciais mais intensos. A testa se franze, ainda que levemente. O canto dos lábios se elevam involuntariamente. São detalhes mínimos, mas são os únicos indícios que consigo detectar.”

“Muito bem, Subramani. Eis o seu maior ensinamento: O olhar, janela da alma, quando está atento consegue desfazer as fronteiras entre o visível e o impalpável. Só a mente quieta é capaz de enxergar a plenitude a ponto de 'ouvir' o silêncio e distinguir das confusões dos levianos pensamentos. Leve consigo esta lição e seja feliz em sua missão de tocar os homens com a sua paz! Vai e cumpra com o seu prarabda-karma.”

domingo, 6 de maio de 2012

Série Binômios - I

Série Binômios –  I
Nem todo homem moral é ético. O primeiro cumpre com as convenções (e pode cumpri-las muito bem), mas isto não significa dizer que pensa de acordo com o que faz.  O ético certamente vive muitos conflitos por estar a todo instante pesando e sopesando a realidade circundante e o mundo interno das suas convicções. O moral move o mundo quando o ético coincide com ele. O ético tem que gerar uma força gigantesca para acionar as mudanças quando o ser simplesmente moral não fala a mesma língua que a sua.
O humano ético não se decepciona no que o alimenta, ele se dilacera, sim, ao se ver em situações discrepantes e aviltantes. Não muda a ética, mas silencia a moral. Ao contrário, o agente moral, se não se der conta da natureza ética, pode infringir as regras internas sem que com isso se sinta condenado. Pode, inclusive, não fazer por mal, mas pode ocasionar o mal a outros.
Uma peleja se dá quando o homem moral percebe que deve dar ouvidos à ética e, por consequência, tem que reformular a sua visão de mundo. Ferir-se não seria uma surpresa, mas estará, com absoluta certeza, no escopo da evolução. Em outras palavras, o moral dará lugar, mais cedo ou mais tarde, ao ético. Não vale, portanto, a pena sofrer: reconfigure-se!

terça-feira, 1 de maio de 2012

Exigências alheias

É duro quando as exigências do mundo lhe colocam contra a parede e você se vê forçado a atender às solicitações. Não se trata de uma revolução ou rebeldia diante do cotidiano. Não é um protesto nem, muito menos, o cruzar dos braços para as ações que devem ser empreendidas. É, somente, um desabafo e talvez, quem sabe, um convite à reflexão.
Mas a questão é – e ninguém pode duvidar – que por vezes gostaríamos de não ter que cumprir com as requisições, com as cobranças e com as necessidades outras e de outros. Como dizem os poetas: arre!!!!
Sem muita escapatória lá estamos a exercer a função de atendente das urgências alheias. Sim, urgências sim! Para o outro, as suas querelas são sempre “p’ra ontem” e ai de nós se não estamos prontos a ouvir e agir em benefício de quem nos clama. Somos mesquinhos e indiferentes ao gigantesco problema que lhe aflige. Estamos tão frios que somos incapazes de enxergar o imenso maremoto onde se encontra o solicitante. Verdadeiramente somos maus.
Pois quem de nós aqui nunca sofreu desta acusação? Quem, entre todos, não se deixou levar pelo alarido e terminou por se redimensionar na tentativa de auxiliar a quem, na descrição dos atos e fatos, criou quimeras sem tamanhos?
Então, meus nobres, hoje, não serei surdo aos apelos, mas confesso, de antemão, que não estava com a menor vontade de escrever. Entretanto, aí vai mais um devaneio.
Lembre-se: não se deixe cobrar tanto. Não porque a cobrança perca seu sentido, mas recorde-se sempre da sua condição também humana de falhar, não por ansiar o erro, e sim por se dar conta que não somos competentes de gerir socorro cem por cento do tempo, até porque, cá entre nós, nem de tempo entendemos.

terça-feira, 24 de abril de 2012

Teatro de Operações


Sempre pronto o campo de batalha. O vento só espreita a chegada dos que ali lutarão! Independente de ser sol escaldante, noite fria ou dias chuvosos. De um lado, o que vive externo de mim, do outro, o oponente interno de mim mesmo. O primeiro grita pelo que lhe circunda e tenta minar a sua fortaleza. O outro silencia entendendo que a economia das forças é a aliada para a vitória. Aquele que é sempre percebido pelos olhos de terceiros tem que captar o mundo circundante e dar conta dele. Abate-se algumas vezes com as questões e as vicissitudes. Compreende que nem tudo é perfeito e inclusive treme diante de tamanhas complicações.
O outro, aquele mais fechado e ensimesmado, esforça-se por se manter em paz.
Lá fora, o vendaval redesenha os contornos, refaz os projetos, derruba as certezas, em fim, constrói o irregular e não abre mão de manter o previsível. Por sua vez, o combatente interno municia-se para não crer nos solapos exteriores. Sabe que a paz não é o resultado dos conflitos e esforça-se em se manter de pé.
Lá um “eu” sacudido pelas intempéries. Aqui outro “eu” ciente de que nada do que é gerado no plano da matéria é capaz de ser a condicionante do equilíbrio. Só me faltava essa: ter que consolar o meu debatedor a todo instante e, no final das contas, carregá-lo para o meu universo. Não há como retroceder nem pode vacilar a mão que ergue a espada do bom combate! Viva o exemplo Arjuna.
Vamos a isto então!

terça-feira, 17 de abril de 2012

Dream, problems and happiness


Em hipótese alguma, desmereço ou deprecio Martin Luther King, mas rearrumaria a sua célebre colocação: I have a problem! Ou melhor, I have some problems! Sim... não são todos os problemas, mas alguns. São justamente eles que me fazem complementar a filosofia “lutherkinguiana” de poder ter sonhos.
O que seria da vitória se eu não tivesse enfrentado os obstáculos? Não reconheceria (e não saberia diferenciar) o gosto da conquista da complacente morosidade dos dias sem vigilância. E olha que não são desculpas esfarrapadas do conformismo dos atribulados. Não, não são! Acredito mesmo que a graça da vida está na suplantação. Parece jargão, porém, a vida humana não existe se não existem as complicações. Na história deste nosso planeta, apontem-me um só ser vivo que não tenha tido dificuldades para transpor? Se suplantou é outra história! Mas que as teve, ah, isso sim... teve.
Não adianta se esgueirar de uma ou de outra barreira, porque, no final das contas, sempre surge alguma até então insuspeitável que lhe espreitava. Não estou fazendo a apologia do caos na existência. Quero somente deixar às claras o estado de consciência que tenho para “matar meus leões” a cada dia, sem que com isso esteja arriscando a minha felicidade. Não poderia ser feliz pelo que não enfrento ou me esquivo. Esse ânimo de viver não pode estar atrelado aos percalços que a limitação do mundo das relações cria. Em outras palavras, ser feliz é “apesar de”. Felicidade não se restringe ao que se tem ou ao que não se conseguiu adquirir.
Lenta luta leva longe longas longos legados. Este é o resumo de viver: somos um somatório de tudo que aprendemos, e se tal batalha é que conforma o guerreiro, a experiência jamais será retirada da carne dos que combateram. Por essa razão, King, my King... I Have some problems e sou feliz.