terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Amigos na plateia


“Quem me conhece aí, levante a mão!” Gritei para a plateia que me ouvia. Olhando a assistência, todos os rostos era absolutamente conhecidos. Sem querer arriscar, mas quase afirmando, não havia alguém que fosse estranho.

Instintivamente e somando-se a tudo que aqueles que ali estavam já haviam vivido de histórias comigo, todos alçaram os seus braços para o alto. Passavam, naquele momento, os mais variados flash mentais de cada um sentado a minha frente. As imagens me eram projetadas também em meu campo da mente e eu via (e ouvia) inúmeras aventura, agruras e sentimentos por mim experimentados.

O tempo se perdeu na sua consecução lógica, os acontecimentos não precisvam de cronologia para serem entendidos e, uma vez mais sentidos. Na filosofia pessoana significa dizer “viver tudo de todas as maneiras”.

Não me detendo em quanto ficamos ali revivendo cada sensação, interrompi a minha própria catarse, onde revi e tentei entender a grande maioria do que chamo de minha vida, para novamente me dirigir à plateia e, interrompendo a alimentação de dados que eles me forneciam, afetuosamente na calma (mas fiermeza) de minha voz, troxe para perto de mim o microfone e os alertei:

“Desculpem-me todos vocês. Peço que não cansem seus braços! Podem abaixá-los. Sinto muito decepcioná-los, mas tenho que lhes dizer que suas respostas não são verdadeiras. Não porque mentem, jamais pensaria isto de quem quer que aqui esteja, já que todos são meus amigos. Entretanto, devo, por dever de fidelidade fraternal, informar-lhes que nem mesmo eu me conheço e que a máxima socratiana tem sido minha busca. Oxalá chegue o dia em que possa voltar a me dirigir a vocês e dizer: agora sim, conhecendo-me a mim mesmo, posso ter sido conhecido por todos.”

Desliguei o microfone, desci do tablado e segui em frente...

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Imagens

Nascia o dia e lá se punha ele a viver o seu cotidiano, na esperança (jamais na insistência) de que todos o compreendessem. Mesmo tentando não se impressionar, encafifavam-se as ideias e embaralhavam-se os argumentos. Mas o fato era que ele dizia “esquerda”, a maioria dos que o ouviam ia para a “direita”. E não era questão de uso de língua estrangeira, pois estivesse onde estivesse, nesse mundo de meu Deus, usava o idioma local.
Ele não desconfiava que os homens agiam de propósito, que as pessoas assim atuavam para contrariá-lo voluntariamente. Não era por revanche, vingança ou picardia. Não! Mas o fato era que olhava sempre em direção oposta a sua.
Amofinava-lhe o senso tais atitudes? Provavelmente sim. Entretanto, para além da sua vontade, tinha que seguir os dias, uma vez que não estava em suas mãos aceitar ou rejeitar o trânsito entre os demais.
Passada a jornada, findava-se o dia e retornava a casa. Entrava, ainda dando volta na cabeça para entender o motivo pelo qual as pessoas diametralmente olhavam para o outro lado. Entrou nos seus aposentos, aproximou-se do espelho e para dentro dele mergulhou para o descanso merecido e o sono que lhe levaria para o dia seguinte tudo recomeçar.

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

365 dias

O que você fará nos primeiros 365 dias deste ano? E você me perguntará: O que farei o ano todo? Antes de começar a responder eu lhe alerto: O ano todo não. Lembre-se de que fevereiro tem um dia a mais. Ou seja, você esperará o último dia do ano para fazer o balanço dos seus projetos?
Se a sua esperança se sustenta no desgaste dos dias, é hora de rever onde você tem alicerçado a sua vida. Corre o risco de 2012 já ter virado ano velho.
Lembre-se da noite do dia 31 do mês passado. Lembre-se de tudo o que desejou, planejou, sonhou, vibrou para que acontecesse. E agora? O ano já começou e o que está diferente? Será que vai esperar novamente o outro 31 de dezembro para renovar suas promessas de mudanças, rever e redirecionar as relações, as ações, os empreendimentos?
Não acha que é esperar muito para viver uma fugaz sensação de empenho que dura uma só  jornada ou, quem sabe até, parcas horas (as que se aproximam da meia noite)?
Como o tempo é realmente ilusório. Um ano novo nada mais é do que alguns bons pares de horas de um só dia, dentro dos 365 (ou 366, como agora) de todo o ciclo. Não faça isso com você. Busque entender que mais do que o anseio de um novo ano, você merece uma nova vida. De ontens a sua existência já se fez, de amanhãs, se for para só esperá-los, não acontecerá. Do que você nunca fugirá e nem escapará será de hojes.
Por isto, desejo-lhe a esperança de acreditar que você merece um Feliz Dia Novo!

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

As três pedras

Haviam brotado da mesma queda d’água as três pedras. Em tempos diferentes, situações particulares, mas o fato é que do mesmo curso vieram. Enquanto não foram ameaçadas por nenhuma torrente originada de temporais, os três minerais permaneciam algo próximos. Mantinham determinadas distâncias muito em função de suas experiências individuais, mas conseguiam acompanhar os seus cotidianos. Estavam perto, sempre perto, guardando e respeitando os limites umas das outras.
Mas nada como o tempo e o seu transcurso para que, após grande ameaça de temporal, viessem a ser tomadas de assalto por uma corrente muito caudalosa do rio da vida. A força das águas foi tanta que lançou cada pedra para um lado. Afastando o campo de visão, nenhuma das três mais conseguia ver as duas outras restantes. Acharam que estava traçado o destino e começavam a se contentar com o novo rumo que tudo havia tomado.
Porém, cumpre a sabedoria do inusitado a tarefa de surpreender, numa repentina manhã, quando nada mais se esperava de diferentes, já no fluxo normal do rio, eis que se reconhecem as três pedras.
Passada a emoção primeiro do encontro, os três irmãos renovaram a sua origem, compromissaram-se na verdade e decidiram viver a compreensão total do que significa para sempre. Sabendo que nem todas as vezes será tão próximo em contato físico, mas há de ser eternizado o acordo fraterno da felicidade.

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Destino

É impressionante a forma como a vida nos impõe tomadas de rumos que são independentes de nossa bagagem emocional, espiritual ou mesmo das experiências da vida fenomênica. A angústia e o receio têm que obrigatoriamente dar espaço para a ação. Coração de lado, lágrima retida, solidão da decisão. Eis o jogo da lila cósmica a nos impulsionar.
Nos meandros do desconhecido haverá, por certo, explicações que nos são vedadas por proteção. Para que não nos assustemos com o que fizemos, dissemos ou pensamos e terminados por impregnar a existência mais ampla que uma vida só. E para que não acusem nossas linhas de enigmáticas, o que se traduz hoje são as impressões do karma que quando desabam sobre nossas cabeças entram como estrondo ensurdecedor.
Conclusão: tampão nos ouvidos e resoluções. Lá vamos nós!

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

O óbvio e o inédito


1, 2, 3, 4, 6, 7... Pois bem, pois bem. A esta altura você está pensando: “Por que pulou o 5?” Ou então: “Xi, ele esqueceu do 5!” Mas que nada! Calma...calma... Esteja preparado também (e sempre) para ser surpreendido. Crie expectativas, é certo, mas não viva exclusivamente delas, uma vez que só o previsível não sustenta o mundo.
“Era de se esperar.” “Demonstrava uma sequência lógica.” e tantas outras elucubrações podem ser feitas. Ninguém as está proibindo. Porém, flexibilize. Prepare-se para poder não contar com o esperado, afinal de contas, a humanidade evoluiu a partir, muitas vezes, do que os demais não conseguiam crer e nem contar.
E quem foi que disse que projetos não são válidos? Olha aí novamente você tomando as primeiras letras para concluir o restante. Sonhe, idealize, projete, busque no presente os elementos que podem servir de esteio para o futuro... Entretanto, por favor, não cristalize e não engesse a magia das múltiplas possibilidades.
Alguns se frustam pelo que “consumiram de tempo” e pelo que não conseguiram observar do resultado tim tim por tim tim como haviam arquitetado. Estes se esquecem de que a vida é feita de um tempo real (gasto no momento) e impalpável (vivido pela lembrança e pela esperança). A ciência (ou arte, não sei bem) é lidar com os dois aspectos temporais (do dizível e do imprevisível). Por estas razões, não se furte da aventura de transitar entre a obviedade o ineditismo. Arrisque viver!

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Irmãs gêmeas

Sentou-se ao meu lado, com a educada frase “com licença”.Vestia-se bem, portava-se melhor ainda. Gestos tranquilos, voz calma. Boa aparência no geral. Iniciou a conversa, mesmo sem saber se eu queria, com os desgastados comentários sobre a beleza do tempo e da temperatura ambiente. Para não ser descortês, aquiesci e concordei vagamente com sorriso “mais ou menos”. Diante da minha resposta, prosseguiu na tentativa do diálogo. Não estava ali com tempo marcado e nem estava com projeto algum. Razão pela qual, dirigi um pouco mais meu corpo na sua direção, relaxei e ampliei as respostas. Das genéricas atmosféricas, não sei como e nem porquê, chegamos a outras assertivas e interrogantes. Não havia nada de maldade (isso era perceptível). Desta forma, em determinado momento, notei que as perguntas extrapolavam a curiosidade e eram quase que formulações de ideias que precisavam de minha confirmação. Como poderia aquela mulher saber tantas coisas sobre mim? Coincidência nas perguntas amplas demais que se pergunta a qualquer um? Notava que não! Cada vez mais as perguntas se tornavam mais específicas. Ela, serena e bem colocada, movia-se e eu, sem entender, envolvia-me!
Não aguentando mais aquele mistério, era minha vez de interpelar:“A senhora me conhece? Como é possível ter essas informações sobre a minha pessoa sem me conhecer?”
“Acalme-se! Não é para espanto e nem desespero. Posso lhe explicar.” Assim, iniciou o breve e o mais profundo discurso que já tinha ouvido!
Eu e minha irmã sempre lhe acompanhamos muito de perto. Desde sempre e para sempre nossa missão é estar ao seu lado. Não há como ser diferente. Por isto sabemos absolutamente de tudo que você fez de forma consciente e até mesmo quando você agia sem ter claro para você mesmo os seus atos. A diferença entre mim e minha irmã é uma única. Dela você sempre se lembra e se aferra cada vez mais. De mim, você, como a grande maioria, acaba esquecendo, rejeitando, não querendo conhecer e muito menos cogita ouvir-me. Já me acostumei, não sofro por isso, mas confesso a você que seria menos doloroso para todos se me vissem como gêmea mesmo de minha irmã. Não para assustar ninguém. Seria tão mais brando, geraria menos traumas, facilitaria a compreensão e a vivência se todos aceitassem de vez que vida e morte “nascem” no mesmo instante em que o homem chega ao mundo.

terça-feira, 29 de novembro de 2011

Abre-se a cortina


Não dá para dizer que haja uma preocupação com a quantidade de assistentes na plateia que possa medir a ansiedade da atuação. Este não é o fator que gera o sentimento da apreensão. Da mesma forma, não é a condição da estreia que faz com que o coração bata aceleradamente. Em poucas palavras, tanto faz “casa cheia” ou bilheteria zerada, primeira apresentação ou a derradeira, a questão é você no centro do palco.
Quando a ribalta acende, todos as variantes desaparecem, mesmo porque as luzes dos refletores em cima do ator, além de transformá-lo em personagem, impedem-no de enxergar o que está fora do palco. Nem distingue o entorno e muito menos é ele sozinho (perde-se a condição única de carne e osso e passa a ser carne, osso e “persona”). Todas as possibilidades se renovam a cada apresentação. Tudo pode acontecer diferente do que houve na véspera. E com quem conta o artista, ali, na “hora H”? Com ninguém a não ser ele mesmo e as circunstâncias que o instante produz.
Tais são as razões que me fazem explicitar a tensão que brota do enredo da vida. E por mais que a expectativa seja a de que, no final da encenação, haja aplausos, o suor frio escorre escondido pela maquiagem e a espinha gela a alma.

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Pedido


Ingressos comprados, casa cheia. Apreensão natural dos instantes iniciais. Os três toques anunciam que é chegada a hora. Aberta a cortina, não havia retrocessos. Ausência de som em toda a plateia. No centro do palco, um foco que se ampliava e o feixe de luz ia consumindo o breu lentamente até que se surge por completo a personagem.
Tinha início a peça.
O vazio do entorno dava ares ainda mais abissais ao espaço, ocupado somente por uma única peça – eu! A árdua tarefa era clara: deveria sozinho ser capaz de preencher toda a área.
A voz tronante (em off) faz a leitura dos autos da peça e assim o enredo se esclarece. Tratava-se da minha vida. O movimento do corpo, como quem busca encontrar cada peça do grande quebra-cabeças, tateava cada centímetro do chão ainda escuro. Levava no corpo uma peça leve de algodão pouco talhada, mas não mortalha que ganhava peso na medida em que me deslocava. A primeira fala abria o tempo da discussão: “Que ninguém me peça explicação! Nem eu a possuo, pois então!”

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Vivendo

O que busco de mim não são as respostas acabadas de quem sou. Porque caso assim quisesse encontrar, provavelmente, meus pés não me estariam pisando o caminho certo. Daria crédito a que sou um ente delimitado e pétreo. Não me concederia a chance da constante reformulação do que penso, sinto ou faço. Estaria fadado ao engessamento de tudo que trilhei e não abriria os olhos ao despertar a cada dia com o compromisso de reinventar-me. Não! Não esperem de mim o vasculhamento de minhas histórias com o simples propósito de sabê-las. Já as conheço e reconheço – e sei que nem de tudo me apercebi. O que me intensifica é a tarefa de por por terra as questões já formuladas. O que me sustenta é a crença que o imutável só pode existir no indizível, pois no plano das ações tudo – absolutamente tudo – pode ser outro, pode se transformar, crescer, evoluir e até mesmo ruir. Das coisas do mundo o que não se mantêm é para ser experienciado. E como não há entre o céu da existência e a terra das vivências nada que se eternize, o que me cabe é viver!

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Tragados


Os afobados do tempo começam a se movimentar quando se dão conta que termina mais uma fase. Eis que se aproxima a angústia dos anúncios de TV para nos lembrar que o fim do ano está chegando. Mas fim de que? E aqueles que se debatem entre as promessas não cumpridas e o desespero de terem que renovar os votos para o que acham ser um tal futuro tão próximo? Pobre deles. Mal conseguem passar pelos portais que eles mesmos geraram. Apressados, querem logo levantar os pés do lado vivido e plantá-los (bem plantados os dois) no vindouro momento. Uma espécie de remissão do pecado de não ter realizado aquilo que se propuseram a fazer. Mas quem deles cobra? Quem os sacrifica ou os sentencia mais do que suas próprias consciências? Ó doloridos homens acorrentados!
O movimento intermitente de lâmpadas hipnoticamente colocadas para distrair e a claridade dos neons os embota de tal forma que chegam a pensar que estão resgatando a última chande de viver.
O único clima de abafamento não é atmosférico. Reside, sim, na ansiedade posta no ar pelo corre-corre das compras, das dívidas, das dietas desregradas e do frisson que consumimos sem pestanejar.
Por onde andará nossa capacidade de respirar com a normalidade das horas? Em que local encontraremos a caminhada dos ponteiros segundo os critérios rítmicos estabelecidos pelo pêndulo temporal? Pergunto-me: tudo isto para que chegada? Angústia de quem busca, medo de quem encontra. Não posso deter a marcha, mas posso observar ao meu redor e ratificar a minha tese de que o que nos engolfa não é o tempo. Somos tragados, como carne mal mastigada, pela garganta da nossa cegueira diante do inevitável curso das areias que se esvaem inexoravelmente.

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Ampulheta




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terça-feira, 25 de outubro de 2011

Querer e poder


A dicotomia faz parte do alicerce da vida. Ai do homem que se deixa engolfar pela pressão exercida por essa divisão constante. Hora quando se quer, não se pode, hora quando se pode, não se quer. Fazer o quê, então? Drama? Dilacerar-se? Magoar-se ou magoar? Perda de tempo. Devemos coadunar os momentos em que a tranquilidade nos acena com os instantes em que os desejos e os planejamentos se tornam inexequíveis.
Quem, dentre nós, nunca passou pela situação de desencontro entre o que pensava ser o ideal e aquilo que encontrou na incompreensão generalizada dos homens e dos acontecimentos? Pois é isto, sem tirar nem por! Somos o somatório das alegrias (quando tudo concorre para nos atender) e das tristezas (quando chafurdam as nossas expectativas).
Porém, eu lhes pergunto: Quem morrerá por não ver satisfeitos os seus caprichos? Morre sim, mas morrem as ilusões. Estas... ora, ora..estas são assim mesmo...nascem e fenecem. Foram feitas para isto!
No crepúsculo delas, abrem-se os sulcos na terra da esperança para que mais tarde possam brotar novas construções de vida.
De par em par, abro as portas da minha existência e reconheço, firmemente, que não terei tudo do jeito que penso, até mesmo porque, meus pensamentos também passam e no escorrer da areia do meu tempo se transformam e me fazem crescer.

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Anjo e demônio

Tempo, monstro e mago dos meus dias, tu me devoras ao mesmo instante em que me transformas. Quimera e herói a atuar em meu sono, é o teu susto que me dá a chance de progredir. Senhor dos dias, opressor dos homens, negociador da humanidade, cura dos males, tantos os teus nomes, irrogavelmente verdadeiros que chego a sentir a inexorável vontade de me lançar a ti.

Num lapso de entendimento de minha pequenez seria esta a minha resolução. Contudo, alegro-me em reconhecer que passados os poucos segundos do pensamento daquela entrega a qual me deixaria levar, sou surpreendido pelo voraz desejo de deixar que tu mesmo te consumas em tuas areias. Busco, ao emergir da tua ampulheta, a liberdade do meu respirar e se queres, realmente, continuar a ser quem és, vem e vença-me. Pois se deixares para que eu assim o decida, perder-te-á em ti mesmo e triunfarei como Teseu que, sem olhar para o obstáculo, usou do ardil do fio para retornar daquilo que o aprisionaria.

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Pelos meus olhos


Desde muito cedo aprendi que cada dia é uma explosão de luz e, neste parto diário, encontro o conforto para seguir crendo em meu papel de colaborador desta emissão luminosa que clareia a vida. Sucedem-se os instantes e, na medida do possível, vou eternizando-os na alma, sem arrependimentos pelas ações, mas com a certeza plena de que as falhas (que são humanas, como diz um “velho” amigo - “sou lúcido!”) servem-me para que eu cresça.
Sem saudosismo ou sentimentalismo, consigo olhar ao redor e perceber o caminho riscado pelo lume do qual eu também sou partícipe. Espero, com isto, jamais fugir do brilho do olhar que nutre as convivências.
Eis a razão de minha existência e que me perdoem os que só conseguem enxergar o cinzento e empoeirado do tempo, mas eu me manterei (e não é proselitismo) no firme propósito de ver sempre o copo pelo prisma do “meio cheio”, antes de observar o vazio restante. Prefiro agradecer a existência ainda de alguma água, antes do derrotismo do espaço oco da outra metade do recipiente. É tudo uma questão de ótica e esta é a minha.
Não se arvorem ao julgamento de eu ser um otimista tolo e nem se deem ao trabalho de acreditar que é pueril inocência de quem nunca sofreu. Ao contrário, é a atitude de quem entendeu que a melhor forma de se defender das agruras e das dores é não se deixar levar pelo obstáculo antes de apostar que a mais adequada saída se encontra em si mesmo.

terça-feira, 4 de outubro de 2011

04 de outubro


No dia de hoje, peço-lhes permissão para que eu me afaste um pouco dos meus devaneios para poder falar de alguém que soube ser na vida um filho de Deus.
Sua história é tão singular que mesmo diante de todos os dogmas estabelecidos pelas congregações, inclusive uma das mais poderosas (a Igreja Católica), ele foi exceção. De um modo geral, os que são reconhecidos no mundo ocidental como santos passam a ter suas datas festivas por ocasiões grandiosas como os seus nascimentos. Nem isto, a egrégora de Francisco de Assis, respeitou (com todo respeito!). Não se comemora o dia do Santo italiano pela data do seu natalício – muito menos pelo dia de sua morte. Muito de sua biografia já consta no ideário da humanidade e muito do que dele se sabe mistura-se a questões poucos comprovadas. Mas o que isto importa?
Alguns só acham que Francisco era um santo que falava com animais. Entretanto, ele foi muito mais! Giovanni di Pietro di Bernardone foi alguém que, havendo experimentado a vida, optou seguir o seu coração. Coragem para deixar o luxo não deveria ser o tópico mais importante daquele jovem. O que o torna a expressão da Comunhão com o Divino não é o abandono puro e simples dos bens materiais. O que define a personalidade desse filho de comerciante é a submissão à crença de que o Ser Supremo lhe falou à alma! Quantos homens também investem no abandono do lar, das posses e das relações sociais e nem por isto se tornam santos? Francisco não era, como se costuma dizer, “morno” com relação a Deus. Isto santificou a sua história. A imagem bucólica desse ser humano (na concepção mais plena de humanidade) ultrapassa os passeios no campo, o afago na cabeça dos bichos ou as pombas em seu redor. Francisco, muitas vezes, foi austero e inflexível; foi duro e irredutível. Não por teimosia, mas por absoluta certeza de que na Terra sua missão era a libertação da alma.
No dia em que se comemora a chegada de seu corpo, já sem o alento vívido, à cidade de Assis para o seu sepultamento, minha voz se unem a de tantos outros que como eu louvam este louco de Deus.

terça-feira, 27 de setembro de 2011

Votos são mais que promessas

As promessas envolvem os ímpetos do momento e podem beirar a falta de lucidez. Já os votos, estes são atos conscientes da predisposição dos comprometimentos. E é por esta razão que hoje te digo:

Não te quero perfeção, mas te desejo inteiramente.
Não espero submissão, mas te desejo fiel.
Não exijo aceitação da forma como penso, mas te desejo pela sua compreensão com os meus pensamentos.
Não te imponho o que acho correto, mas te desejo com a predisposição para me ouvir.
Não julgo teus atos, mas desejo que sejas prudentes na hora de agir.
Não te controlo as emoções, mas desejo que te esforces pela serenidade.
Não te venderei ilusões, mas desejo permanecer nos teus sonhos.
Não acobertarei desmedidas, mas desejo ser o auxílio a tua temperança.
Não te lançarei ao vento, mas desejo voar contigo nas asas do que cremos.

Que não haja em nós a espera do amanhã, pois esta expectativa corrói e cansa. Que se existe uma eternidade, que ela seja agora e que nunca mais a possibilidade de ser feliz seja ameaçada pelo porvir, deixando nas aras dos deuses a decisão de viver.

Não te quero de outra forma a não ser esta de poder desejar-te ao meu lado! Aceitas?

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Compromisso e comprometimento


Aos compromissos podemos até faltar. Para tanto, uma boa desculpa, arquitetada e verossímil, pode convencer. Os compromissos são frutos de agendamentos e quanta vez são formalizados tão antecipadamente que corremos o risco de esquecê-los! Os compromissos envolvem mais de uma pessoa e mobilizam muitas atitudes para o seu cumprimento. Compromisso é data, é local, são condições. É um alerta temporal, com estabelecimento de critérios de início e fim, independente da largura que possa existir entre um e outro. Você, julgando-se capacitado, aceita o compromisso e espera o momento dele se concretizar.

O comprometimento é moral e se alimenta do seu foro íntimo. Ninguém precisa lhe cobrar – e nem conhecê-lo. Comprometer-se é mais do que aceitação. É escolha e recuperação. Um resgate de autorregulação, não com a dor da consciência, mas pelo prazer da construção da clareza do que se sabe ser capaz. Comprometimento pode, inclusive, ter data para iniciar e acabar, mas não se prende ao calendário como fonte primária de observação. O tempo é só uma consequência.

Há aqueles que lidam (e bem) com a convivência do compromisso com o comprometimento simplesmente porque não se deixam oprimir pela cobrança das relações interpessoais. Eles transitam entre os dois de forma tão acertada que esfacelam a necessidade das diferenças e esvaziam o sentido contraditório dos conceitos. São sábios pois não utilizam nem os compromissos e muito menos os comprometimentos para agirem em prol de um bem maior: a fé na certeza da missão de viver no mundo.
No fundo, no fundo, comprometem-se no sentido mais puro da palavra, qual seja, ser o local por onde flui a verdadeira complementariedade dos termos.

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Ampulheta


Perguntaram-me por que “ampulheta”? O que tanto a questão do tempo aparece em meus devaneios como um fato a ser comentado e observado? Sem titubear, pois a resposta não precisava de reflexão, fui taxativo: dois são os motivos que me levam a ter naquele objeto a minha atenção.
Primeiro porque o tempo é inexorável; ninguém pode detê-lo. Isto sempre me assombrou e me atraiu, como dois sentimentos que caminham paralelos em mim. Em outros termos, para melhor me expressar, é dizer que devido as areias que escorrem terminamos por nos defrontamos com a nossa incapacidade de retroagir e diante do implacável (que é o tempo) atentamos para a nossa pequeníssima e frágil dimensão frente à existência.
O segundo motivo (nem por isso secundária razão) é o da possibilidade de fazer girar as âmbulas, passado o último grão de areia. Aferro-me a isto tal qual criança que não pode perder a sobremesa. Dá-nos a vida outras chances, não de refazer o já passado, mas de empreender novas formas de experienciar, tornando instigante e excitante o movimento da inversão do relógio do tempo. Uma vez mais, coloco-o “ɐɔǝqɐɔ ɐʇuod”.

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Tempo, senhor do tempo?


Numa “conversa de bêbados” (absolutamente sóbrios) da qual participava, escutei uma frase nada original, mas magistral: - Maior do que o poder do sol, só o tempo. Lembrei-me de todas as instâncias em que o “magnânimo” senhor me espremeu e me fez atestar realmente o seu controle e a sua predominância sobre a vida. Não só porque a ele atribuem a cura de todos os males, como também, outorgam-lhe a gerência dos esquecimentos. Quem, dentre os mortais, nunca ouviu dizer que “com o tempo tudo passa”. Cabe-nos as inquietações: A quem é confiada a tarefa de fazer passar? Seria o Tempo o articulador dos mecanismos ou repousa sobre nossos ombros a capacidade de nos engendramos em tantos outros acontecimentos que rejeitamos as dores do passado e terminamos por esquecê-lo?
Fez fama o Tempo e ele, poucas vezes, deu crédito aos participantes do processo, ou seja, cada um de nós. Não o culpo, pois diante de nossas faces ele sempre expôs o rosto pronto às críticas. Quem não o esbofeteou, não o fez por não querer (ou por não saber, tanto faz!). Mas aqui sempre esteve e estará.
Não vou adonar-me da responsabilidade de dar a conhecer aos homens o quanto podemos também ser coautores do controle das nossas emoções e de nossos olvidos. Porém, faço questão de ser uma voz que se une aos tantos que resvalam na suspeita de que também podemos estar no leme de nosso viver. Ó objeto translúcido do mais fino cristal, ampulheta que és, dou-te até a prerrogativa, no movimento do teu escoar, de seres invocado como Senhor do Tempo.