terça-feira, 24 de abril de 2012

Teatro de Operações


Sempre pronto o campo de batalha. O vento só espreita a chegada dos que ali lutarão! Independente de ser sol escaldante, noite fria ou dias chuvosos. De um lado, o que vive externo de mim, do outro, o oponente interno de mim mesmo. O primeiro grita pelo que lhe circunda e tenta minar a sua fortaleza. O outro silencia entendendo que a economia das forças é a aliada para a vitória. Aquele que é sempre percebido pelos olhos de terceiros tem que captar o mundo circundante e dar conta dele. Abate-se algumas vezes com as questões e as vicissitudes. Compreende que nem tudo é perfeito e inclusive treme diante de tamanhas complicações.
O outro, aquele mais fechado e ensimesmado, esforça-se por se manter em paz.
Lá fora, o vendaval redesenha os contornos, refaz os projetos, derruba as certezas, em fim, constrói o irregular e não abre mão de manter o previsível. Por sua vez, o combatente interno municia-se para não crer nos solapos exteriores. Sabe que a paz não é o resultado dos conflitos e esforça-se em se manter de pé.
Lá um “eu” sacudido pelas intempéries. Aqui outro “eu” ciente de que nada do que é gerado no plano da matéria é capaz de ser a condicionante do equilíbrio. Só me faltava essa: ter que consolar o meu debatedor a todo instante e, no final das contas, carregá-lo para o meu universo. Não há como retroceder nem pode vacilar a mão que ergue a espada do bom combate! Viva o exemplo Arjuna.
Vamos a isto então!

terça-feira, 17 de abril de 2012

Dream, problems and happiness


Em hipótese alguma, desmereço ou deprecio Martin Luther King, mas rearrumaria a sua célebre colocação: I have a problem! Ou melhor, I have some problems! Sim... não são todos os problemas, mas alguns. São justamente eles que me fazem complementar a filosofia “lutherkinguiana” de poder ter sonhos.
O que seria da vitória se eu não tivesse enfrentado os obstáculos? Não reconheceria (e não saberia diferenciar) o gosto da conquista da complacente morosidade dos dias sem vigilância. E olha que não são desculpas esfarrapadas do conformismo dos atribulados. Não, não são! Acredito mesmo que a graça da vida está na suplantação. Parece jargão, porém, a vida humana não existe se não existem as complicações. Na história deste nosso planeta, apontem-me um só ser vivo que não tenha tido dificuldades para transpor? Se suplantou é outra história! Mas que as teve, ah, isso sim... teve.
Não adianta se esgueirar de uma ou de outra barreira, porque, no final das contas, sempre surge alguma até então insuspeitável que lhe espreitava. Não estou fazendo a apologia do caos na existência. Quero somente deixar às claras o estado de consciência que tenho para “matar meus leões” a cada dia, sem que com isso esteja arriscando a minha felicidade. Não poderia ser feliz pelo que não enfrento ou me esquivo. Esse ânimo de viver não pode estar atrelado aos percalços que a limitação do mundo das relações cria. Em outras palavras, ser feliz é “apesar de”. Felicidade não se restringe ao que se tem ou ao que não se conseguiu adquirir.
Lenta luta leva longe longas longos legados. Este é o resumo de viver: somos um somatório de tudo que aprendemos, e se tal batalha é que conforma o guerreiro, a experiência jamais será retirada da carne dos que combateram. Por essa razão, King, my King... I Have some problems e sou feliz.

terça-feira, 10 de abril de 2012

Sombra esmaecida


Soou forte, no vento, o estrondoso mote: A morte!
Se quis assustar-me, perdeu a oportunidade, pois não é de susto que eu a alimento.
O meu intento é revertê-la, muito mais do que sorvê-la!
Se queria a sombria manceba palmilhar os centímetros das vidas, aviso-lhe, logo de supetão: não será comigo então!
Vou léguas distantes e no murmúrio do silêncio restante, ouço uma risada amarela e pouco vibrante. Pobre coitada: não mais galopante.
O seu empenho não me refreou o ímpeto, nem ao menos paralisou a consecução dos meus dias.
Se objetivava confundir meus conceitos a respeito, alerto: esmaeceram os esforços!
Descreditei, desde há muito, de sua consistência e por conseguinte não a abraço mais.
Respeito a falência da matéria, calo-me na dor do afastamento, mas, em nenhum momento, dou por findada a tarefa de seguir vivendo.
Mudam os aspectos, os movimentos e as possibilidades, porém, mantêm-se as opções de permanência. E com nenhuma indulgência, liberto-me da dívida do luto para seguir impoluto no contrato divino de seguir existindo através do tempo.

terça-feira, 3 de abril de 2012

Voltar a fazer


Tenho vivido um dia por vez. Em algumas oportunidades mesmo surpreendido pela minha ansiedade, vejo-me atado às circunstâncias da inevitabilidade do tempo. Reajo externamente, exponho o incômodo através do verbo, mas passado o instante dos acontecimentos, percebo que é inútil gritar. Melhor e mais sábio, para a sobrevivência da paciência, é ficar calado. Mas quem consegue?
Insisto, desisto, suspiro, deliro... meu mix de emoções encontra eco na alma e desfaleço como estratégia inconsciente. Talvez para me manter vivo – play no off : desligo!
Taxativo mesmo, mesmo, nem a morte consegue ser! O destino, este sim, é a sorte de quem encontra resposta para as perguntas que não fez!
Encampa-me a lúcida estupidez de investir novamente no esforço da clareza, que encadeado pelos pensamentos vai costurado pela linha do contentamento de que vale a pena tentar. Agora é sério. Será só desta vez, prometo (até a próxima)! Não tomo jeito!

terça-feira, 27 de março de 2012

Destruição e Reconstrução


Não que a ave grega não tenha seu valor pela imperiosa força de renascimento. A questão focal não é esta. Obviamente que a oportunidade de recomeçar é sempre bem-vinda e reflete uma espécie de concessão supra-real (divina, se quiserem assim chamar) para todo ser vivo.

Entretanto (o que seria do mundo se não houvesse o “entretanto”?), a faculdade de renascer não é espontânea. Advém de uma “ignição” muitas vezes desprezadas por parte dos que olham somente o resultado e se esquecem do processo. Em outras palavras – para não nos acusarem de herméticos –, nenhuma fênix assim seria chamada se não houvesse o fogo que a consumisse antes. Nossa ótica, quanta vez capenga, não consegue perceber que aquilo que “destrói” tem função restauradora e oportuniza o crescimento. Só há espaço para outras chances quando há uma varredura (otimização, se assim preferirem) do antigo. Caso contrário, corre-se o risco de virar amontoado a mesclar velhos, desnecessários, desgastados, finalizados com os novos, inéditos, refeitos e restaurados. Isto embaça a vista e colabora para que na confusão não distingamos (e tampouco escolhamos) entre o servível e o desprezível.

Eis então a função gratificante e importantíssima do fogo que consome e abre claros que garantem a existência da fênix como tal.

terça-feira, 20 de março de 2012

Transformação


Havia sorvido toda a água do mar com canudinho, deixando a flora e a fauna marinha na aridez das areias depositadas no que um dia teria sido as profundezas dos oceanos. Colaborou na tintura do cinza-chumbo do horizonte e de todo a abóboda celeste. Ceifou com maquinário afiadíssimo os verdejantes prados cultivados pelo tempo. Fez escorrer as lamas dos altos degelos de montanhas himalaicas. Fez abismos ao gerar sumidouros rasgando o solo sedimentado. Contaminou a perfeita combinação dos elementos químicos que, diziam, era chamado de ar puro. Distraiu a atenção que aproximava o ideal do real. Afastou o que foi possível e afastou-se. Enfim, tornou-se uma espécie específica da raça humana.

terça-feira, 13 de março de 2012

Subway

Lá ia eu, no dia de ontem, de metrô para o trabalho. Era cedo, apinhados de gente iam os vagões! Mesmo sonolento, peguei-me surpreso com a cena. Em um mundo globalizado, onde a necessidade de se falar a mesma língua (ou seriam linguagens?) parece ser o mote das questões, deparei-me com uns 50 % dos passageiros com seus fios brancos (ou pretos) que desciam de seus ouvidos. Simplificando: muita gente estava ensimesmada escutando alguma coisa nos seus fones. Curioso e patético, ao mesmo tempo, era ver como ninguém se olhava, nem mesmo percebia a presença do outro. Comecei a brincar de ver. Um estudante (deveria ser) com sua bolsa surrada, com a alça que cruzava o peito, batia na perna como se guitarra tocasse. O jovem new-office-boy (pela camisa de listras de mangas dobradas) balançava a cabeça no que o ritmo lhe ditavam diretamente no cérebro. A garota do top amarelo, preocupada em consertar a postura para não mostrar mais do que já se estava vendo, tinha os tampões nas orelhas, mas era como se nada a obstruísse. E assim, uma sucessão de caras e bocas, todas com a possibilidade de nada interagirem devido à desculpa dos auriculares.
O silêncio, vez por outra, era interrompido pela “próxima estação” (next stop) ou pelo celular insistente de uma senhorinha que, meio surda, gritava para quem estava do outro lado do aparelho (e para nós também) que iria chegar para o almoço!
Que mundo é este onde a façanha tecnológica afasta os homens? Não haviam criado desde as revoluções industriais, cibernéticas e tantas outras um modo de aproximação?!
Será então – pensava eu – que no tempo das liteiras, da mesma maneira, não se comunicavam os que eram carregados para lá e para cá?
Ó São Tablet dos Modernosos, Santa Ipad dos Apressados, Nossa Senhora do MP3, 4, 5, 6, 7 e quantos mais, sei lá! Valei-nos! Desci na estação e, provavelmente, nem me viram!

terça-feira, 6 de março de 2012

É noite lá fora (II)


É noite lá fora... é noite lá fora....
Mas aqui dentro, na claridade do meu dia,
Eu vejo homens de areia fraca
Que escorrem inexoravelmente
Pelas ampulhetas do tempo.
Desfeitas... Descompostas...

É noite lá fora.
Retoma-se o fluxo,
Redobra-se o esforço.
Atento a planos seguros,
Seguimos na atitude
das mãos estendidas.

É noite lá fora

E no arroubo do momento,
Faz-se a compreensão exata da forma
Onde as labaredas da razão
Não arrefecem o incêndio
Da claridade do meu dia.


terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

A Dama de Copas


Um tanto quanto afoita e gananciosa, achando que o empenho das ações a faria mais poderosa e assistida, certa feita, a Dama de Copas resolveu garantir a plenitude de sua estabilidade e segurança afetivas. Com o ardil da rapidez, recolheu os ícones dos quatro naipes existentes e providenciou um afiado estilete que, com precisão cirúrgica, abriu em cruz os desenhos de Paus, Ouro, Espadas e Copas. O resultado era previsível: cada forma estava agora composta por quatro pedaços. Tomou para si um quadrante de cada naipe e, juntando-os, “inventou” um novo símbolo. Estava criado um novo naipe seu. Só seu!
Era hora de aproveitar a genial ideia. Entretanto, como o nascimento era fruto de um esquartejamento (ainda que havendo aproveitado o que cada um tinha de mais harmônico), não encontrou a pobre senhora eco entre os demais integrantes do baralho. Não havia nas redondezas nenhum outro modelo que pudesse se aproximar daqueles contornos. Nem mesmo ela estampava a inédita heráldica em sua bandeira!
Se anteriormente afastara-se dos seus e desdenhara o restante, tudo em prol de uma necessidade que não mediu as consequências, agora jazia solitária. O desfecho não foi outro a não ser entristecer-se em seu isolamento da tentativa de um ineditismo que não encontrou parâmetros. Entendeu, na dor da própria carne, que a felicidade não é necessariamente a exclusividade ou a novidade, mas sim, a forma como se reinventam as possibilidades do que se tem na vida!

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

A cartomante

Um amigo me contou uma história que vale a pena repassar.
Chegou o dia marcado em que a cartomante não mais pertenceria ao mundo dos vivos. Passados os primeiros momentos da tonteira inerente a quem atravessa a fronteira das vidas, recuperado o fôlego e o equilíbrio da visão mental, eis que ela se deparou com a cena funesta e escura do entorno. Achando que ainda não estava totalmente aprumada, pensou consigo: “Tenho que esperar um pouquinho mais até que eu possa vislumbrar minha nova morada.”
Grão a grão, escorreram as areias do tempo até que ela se deu conta de que não havia mais o que esperar. Era aquela mesma a imagem, era aquele mesmo o local.
Estarrecida (para não dizer assustada) foi em busca de alguém que pudesse lhe explicar o que estava acontecendo. Encontrou-se com uma figura esguia, vestes acinzentadas e pés descalços.
“O senhor poderia me dizer onde estou?”
“Ora, ora... No limbo!”
“Como assim? Impossível! Antes de iniciar esta viagem eu consultei para mim mesma as cartas e, segundo o jogo, vi asas na minha vida. O senhor tem certeza de que estou no lugar certo?”
“Minha filha, para se viver de interpretação, além da experiência que os anos trazem, não basta a intuição, há que se ter isenção. Você viu asas e achou que isto significava céu?”
“O que mais podem representar asas a não ser anjo?” Falava indignada a cartomante.
“Por acaso você via anjos?”
Ela balançava negativamente a cabeça.
“Asas soltas, no seu caso, são as que caíram. Assim como alguns seres celestiais que perderam as suas e tiveram que passar por aqui, devido à descrença ou mau uso de seus dons, alguns seres humanos também perdem suas chances de crescimento e precisam de mais um tempo de aprendizado.”
Cabisbaixa, deu as costas para o porteiro e desanimada caminhou em direção à nova oportunidade de crescer.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Estátuas na areia


Em meio à paisagem um tanto quanto árida, destacavam-se duas belas estátuas do mais raro mármore. O esmero das formas mostrava os detalhes dos contornos e era possível crer na realidade da representação. Estavam uma defronte a outra a se olharem.
Os que por elas passavam admiravam o trabalho do escultor, bem como prestavam atenção nos motivos que as colocaram ali.
Na rapidez das mudanças inesperadas, sobe o pó das areias nas asas da ventania que transforma a paisagem em um único tom bege sem nenhuma outra forma ou cor. Ninguém consegue ver nada mais!
Cada uma das minúsculas pedras acabou tornando-se cruel esmeril a bater fortemente em ambas as estátuas. Uma permaneceu, em grande parte, em sua forma original, somente cravejada dos pequenos estilhaços, mas era possível reconhecê-la como antes. A outra, à medida em que era atingida, soltava fragmentos de sua película mais superficial e revelava, aos poucos, outra base interior. No final, descascada, era completamente outra imagem.
Baixada a agitação da poeira, a cena ressurgia. De um lado, a primeira escultura que, apesar de um tanto quanto mais porosa (devido ao polimento forçado), mantivera os mesmos contornos e feições. A segunda, já não mais na posição que fora colocada inicialmente, encontrava-se de costas a observar uma outra imagem em pedra que surgira após haver cessado o caos.
Entretanto, eis que surge, voraz e inclemente, no horizonte, outra névoa sólida que, na esteira do ar, torna a cobrir todo o cenário! Restava às estátuas esperar passar o torvelinho.
Arrefecidos os ânimos dos Senhores do Tempo, descortinava-se diferente palco. Aquela imagem que fora descascada anteriormente jazia solitária. Perto não estavam nem sua primeira companheira, muito menos a outra que surgira (sabe-se lá de onde). Não passou de miragem e como tal era magnífica, mas volátil. Tão impalpável como improvável.
Rescaldo de quem se deixara-se enganar pelos olhos do corpo e, advindo da tolice encantatória, findou os dias cega na alma!

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

É noite lá fora!


O único intruso do mundo era o feixe prateado que, entre as brechas das distraídas cortinas, entrava tal como flecha de luz. Era pontual. Tocava uma nesga do solo e brilhava como um espelho de pequeníssima poça d'água. No mais, não havia nem ponteiros e nem metragens. Desapareceram as linhas encarceradoras do tempo e do espaço. Estávamos dispensados deles.
O ar, cravejado de diminutos sons arfantes, oferecia-se para nutrir as possíveis necessidades de ser alimento para o transcurso dos instantes (se dele precisássemos). A superfície que nos sustinha, disposta em uma maciez desalinhada de formas, não requereria reparos, pois se orgulhava de ser a testemunha das ondulações que singravam os mares bravios que buscávamos mutuamente. Houvesse olhos a observar notariam, vez por outra, duas sombras a se entrelaçarem. Entretanto, na grande maioria do ambiente, só se percebia uma única forma a se mover e a produzir a preciosa pedraria que brotava das superfícies (resultado dos movimentos e do ritmo instaurado). Apesar de salobra, era feliz.
Fadiga - vocábulo inexistente enquanto houvesse a crença de que ali reinava o desejo das descobertas – não fez morada. Palmo a palmo, os milímetros percorridos, os sulcos abertos, as clareiras atravessadas, tudo era motriz para a permanência inalterada das proibições de uma invasão temporal. Estancou-se o filete da areia dentro da ampulheta.
Por fim, nos primeiros indícios de alvores do novo dia, ali jazíamos, no nosso hiato das limitações, a nos regozijar pela recompensa do merecido descanso de uma eterna noite amando-nos.

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

No nascer do dia


Borbulhavam as espumas do mar, não pela agitação ou violência além do normal. Rompiam os limites de longe, chegando até a tênue linha entre as derradeiras ondas e a areia, e ao arrebentarem das alturas traziam consigo a melodia produzidas do mais recôndito das conchas-tritões.
Uma dança mágica que a poucos olhos atentos entretém. O aroma suave marinho espalhado pelo ar, a coloração forte azulada, com os bordados brancos aperolados que parecem rosários desfiados por mãos habilidosas. Brisa suave a desenhar na superfície delicadas contornos espirais na harmonia do ambiente. Toda paisagem se vê emoldurada pelo fundo de tela rosáceo dos primeiros aventureiros raios solares.
Sentado ali no pequeno arrimo que serpenteia a praia, meus pés, roçando o espelho d'água e meus olhos a fitar o horizonte, vejo leva-se das brumas de minhas lágrima a figura esquia e bela, coroada pelo divino existir. Sussurro para mim e ela me ouve: “Odoyá!”

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

As asas para voar


Ao abrir a porta, tropeçou num pequeno ninho. Agachou-se, fitou espantado e curioso ao mesmo tempo. Quem teria colocado ali o amontoado de palha? Havia dentro um diminuto pássaro, assustado e faminto. Levou para dentro o “pacote” (perdido, deixado, esquecido, nunca soube). E aí teve início o cuidado e a atenção. Correram os dias e a avezinha ganhou confiança e disposição. Plumagem cheia e reluzente, seu voo era planador e soberbo. De longe ouvia-se o seu trinar de alegria e segurança. Havia encontrado guarida e amor. Na esteira do tempo, a notícia da relação estabelecida entre o menino e o seu pássaro se espalhou. Muitos para lá acorriam com o intuito de admirar o espetáculo criado entre os dois. Era bonito de se ver.

Entretanto, atrelado a repercussão e a fama que se espalhou veio o receio do jovenzinho, pois tamanha beleza poderia despertar a inveja dos olhos alheios e a cobiça de terceiros.

Decidiu então resgardar seu pequeno tesouro de todas as formas. Evitava o sol com muita intensidade. Embarreirava o vento, impedia o pó da rua, não deixava abertas janelas nem portas... E a cada dia pensava em uma forma a mais para proteger o presente caro. Forjou em ferro dourado a mais linda gaiola que já se teve notícia, com espaço imenso e conforto de comida, água e poleiros.

Pronto... não corria riscos de ver sua felicidade exposta ao perigo externo.

Certa manhã, uma das mais azuis que o dia poderia fabricar, como sempre em sua rotina, foi alimentar o seu pássaro. Abriu a portinhola e com o assobio de sempre anunciou o início da jornada.

Silêncio (…)

Novamente, chamou com ar que entre os lábios passava.

Maior silêncio produzido ainda após o silvo (…)

Num canto da reluzente jaula jazia inerte o aveludado animal, cansado de não poder ser que verdadeiramente ele era: um pássaro a voar.

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Amigos na plateia


“Quem me conhece aí, levante a mão!” Gritei para a plateia que me ouvia. Olhando a assistência, todos os rostos era absolutamente conhecidos. Sem querer arriscar, mas quase afirmando, não havia alguém que fosse estranho.

Instintivamente e somando-se a tudo que aqueles que ali estavam já haviam vivido de histórias comigo, todos alçaram os seus braços para o alto. Passavam, naquele momento, os mais variados flash mentais de cada um sentado a minha frente. As imagens me eram projetadas também em meu campo da mente e eu via (e ouvia) inúmeras aventura, agruras e sentimentos por mim experimentados.

O tempo se perdeu na sua consecução lógica, os acontecimentos não precisvam de cronologia para serem entendidos e, uma vez mais sentidos. Na filosofia pessoana significa dizer “viver tudo de todas as maneiras”.

Não me detendo em quanto ficamos ali revivendo cada sensação, interrompi a minha própria catarse, onde revi e tentei entender a grande maioria do que chamo de minha vida, para novamente me dirigir à plateia e, interrompendo a alimentação de dados que eles me forneciam, afetuosamente na calma (mas fiermeza) de minha voz, troxe para perto de mim o microfone e os alertei:

“Desculpem-me todos vocês. Peço que não cansem seus braços! Podem abaixá-los. Sinto muito decepcioná-los, mas tenho que lhes dizer que suas respostas não são verdadeiras. Não porque mentem, jamais pensaria isto de quem quer que aqui esteja, já que todos são meus amigos. Entretanto, devo, por dever de fidelidade fraternal, informar-lhes que nem mesmo eu me conheço e que a máxima socratiana tem sido minha busca. Oxalá chegue o dia em que possa voltar a me dirigir a vocês e dizer: agora sim, conhecendo-me a mim mesmo, posso ter sido conhecido por todos.”

Desliguei o microfone, desci do tablado e segui em frente...

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Imagens

Nascia o dia e lá se punha ele a viver o seu cotidiano, na esperança (jamais na insistência) de que todos o compreendessem. Mesmo tentando não se impressionar, encafifavam-se as ideias e embaralhavam-se os argumentos. Mas o fato era que ele dizia “esquerda”, a maioria dos que o ouviam ia para a “direita”. E não era questão de uso de língua estrangeira, pois estivesse onde estivesse, nesse mundo de meu Deus, usava o idioma local.
Ele não desconfiava que os homens agiam de propósito, que as pessoas assim atuavam para contrariá-lo voluntariamente. Não era por revanche, vingança ou picardia. Não! Mas o fato era que olhava sempre em direção oposta a sua.
Amofinava-lhe o senso tais atitudes? Provavelmente sim. Entretanto, para além da sua vontade, tinha que seguir os dias, uma vez que não estava em suas mãos aceitar ou rejeitar o trânsito entre os demais.
Passada a jornada, findava-se o dia e retornava a casa. Entrava, ainda dando volta na cabeça para entender o motivo pelo qual as pessoas diametralmente olhavam para o outro lado. Entrou nos seus aposentos, aproximou-se do espelho e para dentro dele mergulhou para o descanso merecido e o sono que lhe levaria para o dia seguinte tudo recomeçar.

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

365 dias

O que você fará nos primeiros 365 dias deste ano? E você me perguntará: O que farei o ano todo? Antes de começar a responder eu lhe alerto: O ano todo não. Lembre-se de que fevereiro tem um dia a mais. Ou seja, você esperará o último dia do ano para fazer o balanço dos seus projetos?
Se a sua esperança se sustenta no desgaste dos dias, é hora de rever onde você tem alicerçado a sua vida. Corre o risco de 2012 já ter virado ano velho.
Lembre-se da noite do dia 31 do mês passado. Lembre-se de tudo o que desejou, planejou, sonhou, vibrou para que acontecesse. E agora? O ano já começou e o que está diferente? Será que vai esperar novamente o outro 31 de dezembro para renovar suas promessas de mudanças, rever e redirecionar as relações, as ações, os empreendimentos?
Não acha que é esperar muito para viver uma fugaz sensação de empenho que dura uma só  jornada ou, quem sabe até, parcas horas (as que se aproximam da meia noite)?
Como o tempo é realmente ilusório. Um ano novo nada mais é do que alguns bons pares de horas de um só dia, dentro dos 365 (ou 366, como agora) de todo o ciclo. Não faça isso com você. Busque entender que mais do que o anseio de um novo ano, você merece uma nova vida. De ontens a sua existência já se fez, de amanhãs, se for para só esperá-los, não acontecerá. Do que você nunca fugirá e nem escapará será de hojes.
Por isto, desejo-lhe a esperança de acreditar que você merece um Feliz Dia Novo!

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

As três pedras

Haviam brotado da mesma queda d’água as três pedras. Em tempos diferentes, situações particulares, mas o fato é que do mesmo curso vieram. Enquanto não foram ameaçadas por nenhuma torrente originada de temporais, os três minerais permaneciam algo próximos. Mantinham determinadas distâncias muito em função de suas experiências individuais, mas conseguiam acompanhar os seus cotidianos. Estavam perto, sempre perto, guardando e respeitando os limites umas das outras.
Mas nada como o tempo e o seu transcurso para que, após grande ameaça de temporal, viessem a ser tomadas de assalto por uma corrente muito caudalosa do rio da vida. A força das águas foi tanta que lançou cada pedra para um lado. Afastando o campo de visão, nenhuma das três mais conseguia ver as duas outras restantes. Acharam que estava traçado o destino e começavam a se contentar com o novo rumo que tudo havia tomado.
Porém, cumpre a sabedoria do inusitado a tarefa de surpreender, numa repentina manhã, quando nada mais se esperava de diferentes, já no fluxo normal do rio, eis que se reconhecem as três pedras.
Passada a emoção primeiro do encontro, os três irmãos renovaram a sua origem, compromissaram-se na verdade e decidiram viver a compreensão total do que significa para sempre. Sabendo que nem todas as vezes será tão próximo em contato físico, mas há de ser eternizado o acordo fraterno da felicidade.

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Destino

É impressionante a forma como a vida nos impõe tomadas de rumos que são independentes de nossa bagagem emocional, espiritual ou mesmo das experiências da vida fenomênica. A angústia e o receio têm que obrigatoriamente dar espaço para a ação. Coração de lado, lágrima retida, solidão da decisão. Eis o jogo da lila cósmica a nos impulsionar.
Nos meandros do desconhecido haverá, por certo, explicações que nos são vedadas por proteção. Para que não nos assustemos com o que fizemos, dissemos ou pensamos e terminados por impregnar a existência mais ampla que uma vida só. E para que não acusem nossas linhas de enigmáticas, o que se traduz hoje são as impressões do karma que quando desabam sobre nossas cabeças entram como estrondo ensurdecedor.
Conclusão: tampão nos ouvidos e resoluções. Lá vamos nós!

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

O óbvio e o inédito


1, 2, 3, 4, 6, 7... Pois bem, pois bem. A esta altura você está pensando: “Por que pulou o 5?” Ou então: “Xi, ele esqueceu do 5!” Mas que nada! Calma...calma... Esteja preparado também (e sempre) para ser surpreendido. Crie expectativas, é certo, mas não viva exclusivamente delas, uma vez que só o previsível não sustenta o mundo.
“Era de se esperar.” “Demonstrava uma sequência lógica.” e tantas outras elucubrações podem ser feitas. Ninguém as está proibindo. Porém, flexibilize. Prepare-se para poder não contar com o esperado, afinal de contas, a humanidade evoluiu a partir, muitas vezes, do que os demais não conseguiam crer e nem contar.
E quem foi que disse que projetos não são válidos? Olha aí novamente você tomando as primeiras letras para concluir o restante. Sonhe, idealize, projete, busque no presente os elementos que podem servir de esteio para o futuro... Entretanto, por favor, não cristalize e não engesse a magia das múltiplas possibilidades.
Alguns se frustam pelo que “consumiram de tempo” e pelo que não conseguiram observar do resultado tim tim por tim tim como haviam arquitetado. Estes se esquecem de que a vida é feita de um tempo real (gasto no momento) e impalpável (vivido pela lembrança e pela esperança). A ciência (ou arte, não sei bem) é lidar com os dois aspectos temporais (do dizível e do imprevisível). Por estas razões, não se furte da aventura de transitar entre a obviedade o ineditismo. Arrisque viver!