terça-feira, 22 de fevereiro de 2011
As 7 Qualidades Capitais
Uma pergunta tem me sondado os dias: Por que devo sustentar minha vida através dos limites do inescrupuloso? Não consigo entender como fazer o caminho a partir do medo! O que leva os homens à imposição do temor para garantirem a supremacia de suas instâncias? Será insegurança ou vergonha a instauração dos limites. “Não ande por ali”, “Não pise acolá”, “Tomar este rumo lhe condenará a alma” e tantas outras frases de efeito que, por repetição, afastam-se da reflexão. Ninguém pode comprometer a eternidade tão somente por aprender a entender as limitações. Não se vence a batalha sem se conhecer os inimigos. Homem algum pode enfrentar o mostro se na peleja já entrar derrotado. Alguém pode me dizer, baseado em razões plausíveis, por que devo pautar a vida pelo não-erro ao invés de vasculhar em mim mesmo o conforto do acerto? Certa vez, fui inquirido sobre meus pecados. Retumbante palavra, ferina e maltrapilha ecoou na alma, travou as explicações querendo que eu me desfizesse de mim mesmo. Mas se só se conhece a noite porque há o dia para se contrapor, como entender minhas virtudes (se as tenho!) sem compreender o que me tolhe? Não proponho a anarquia dos sentimentos, mas vale à pena aferir alguns quesitos dentro dos torpes comportamentos humanos. Façamos, antes pois, um estudo de cada uma das imposições dogmáticas dos pecados (e que me convençam deles) para que só então, venham os doutos do cerceamento alheio me dizer que não vivi!
terça-feira, 15 de fevereiro de 2011
Jogadores no tempo
O olhar mais aguçado não é o que busca os detalhes para formular as críticas, é sim aquele que pelas lentes da presteza e da coragem encara seja o que for. Estive a observar, no horizonte, uma pequena e alongada nuvem que se movia no seu ritmo segundo as condições atmosféricas de onde se encontrava. Logo imaginei: “Em quanto tempo pode ela chegar até aqui?” Nem a expectativa de ver atendidas as minhas especulações foi suficiente para que eu pudesse esperar a sua chegada. Perdi, então, naquele momento, a chance de observar as modificações que o sabor do vento transforma. Somos assim também com relação aos homens e somos muito mais severos ainda quando tratamos de nós mesmos. Se, claramente, percebemos as formas e no tempo de nossas exigências conseguimos enxergar, ótimo! Deixamos correr solta a formulação das ideias e não hesitamos em construir valores e conceitos. Entretanto, se somos ameaçados, no menor das impossibilidades, aí então dispersamos e dispensamos a oportunidade de crescer. A conclusão que, inevitavelmente, podemos chegar é a de que vilão não é a areia do tempo que escorre. Saibam, pois, que a grande opressora nesta história é a nossa intolerância que joga conosco pacientemente diante do tabuleiro.
terça-feira, 8 de fevereiro de 2011
Presente do Indicativo
Permita-me, caro Andrade, revisitar a sua assertiva e, retocando-a, dizer: amar é verbo no Presente (e do Indicativo, ainda por cima!). Aquele que se arvora a pronunciá-lo no pretérito deveria rever o que sentiu, pois, provavelmente não tem a compreensão exata daquilo pelo qual estava passando.
Quem ama guarda numa espécie de hiato do “agora” a coleção das vivências e descobertas mais significativas que se pode ter. Quem ama aprende a abrir espaços em suas reticentes manias e vícios para não ofender o alvo do amor e busca também, ao mesmo tempo, uma forma de dar explicações para o fechamento das tantas outras possibilidades que contrariam os seus desejos. Para amar, o homem se esmera em ser o que talvez ainda não é, mas crê no vir a se transformar. Quem ama agrega quando lhe convém e tem o dom de espalhar quando não consegue se manter na posição da conquista. O tempo de amar é o jogo que transita entre o laço e o cofre. Ao amar, desfila-se pelas ruas com o sorriso exposto da exibição na mesma medida em que se mantém alerta os sentidos que fazem recuar frente às ameaças ladinas dos olhares alheios. Três, pelo menos, são as chances de amar:
- Ao pensar que não foi amor, esforço-me em construir profundos calabouços para aprisionar o que me enganou.
- Se, distraidamente, no recôndito dos pensamentos me escapa um “amei”, é porque não era amor.
- Mas se amo, cansa-se o vento das tantas vezes em que lhe lanço as palavras.
Então, pelo axioma da ilógica experiência, se amo (no Presente), é porque entendo que amar é verbo de verdade!
terça-feira, 1 de fevereiro de 2011
Autorretrato
Sei que minhas palavras são mudas aos teus ouvidos. Não por lhes faltar importância, mas porque elas ainda não nasceram, apesar de lutarem comigo. O que tento te dizer é resultado de um eterno produto inacabado que exponho à luz dos olhos dos homens. Nada mais escrevo a não ser o instante da contemplação que se engata no tempo imediatamente antes de existir: é a fecunda realização. Inevitável é não deixar de sentir o incômodo do arrastado movimento da areia que escorre e me angustia. Segue a vida e eu, pressionado pelos espectros que me assombram, tento exorcizá-los no papel antes que eles me calem. Surgem, ora pois, as linhas e os traços paralelos tantas vezes, difusos e confusos outras tantas. Divergência esclarecedora que se direciona a mim. Descubro quem sou.
terça-feira, 25 de janeiro de 2011
Onde repousa a alma
Por entre as cúpulas das ermidas, santuários, capelas e igrejas matrizes minh’alma caminhou. A quietude, que recuperava o valor das pedras ali erigidas, reconhecia o esforço de tantos e notava a devoção de muitos. Não havia espaço para qualquer palavra. Todas seriam inúteis.
Mais do que paredes, pinturas e imagens, naqueles templos, repousa a confiança do homem em um amálgama de promessas e gratidão. Por completa e misteriosa sintonia, meus pés, ao cruzarem os portais, conseguiam distinguir o esforço do somatório do tempo das existências.
Mais do que paredes, pinturas e imagens, naqueles templos, repousa a confiança do homem em um amálgama de promessas e gratidão. Por completa e misteriosa sintonia, meus pés, ao cruzarem os portais, conseguiam distinguir o esforço do somatório do tempo das existências.
Persigno-me contrito e deixo que meu coração cresça a cada encontro que independentemente de ter os olhos abertos ou não, faz-me preencher de Deus! Passo a passo, busco perceber os detalhes que abrem meu coração em direção ao indizível mundo da fé.
São bandeiras, abóbadas, átrios, candeeiros e círios. Depositários das esperanças na forma de oferendas que, cautelosamente colocadas, refletem, no dourado dos objetos, as histórias de seus peregrinos. Sinto-me a interseção do palpável e o imaterial das confrarias celestiais que cantam junto aos foles dos órgãos que ressoam em minhas veias. Atravessando os limites da linha que move o universo de experiências e por tamanho reconhecimento da dádiva vivida naqueles dias, não me resta outra atitude a não ser a de dobrar meus joelhos, levantar meu rosto em direção à nave central onde se ergue o madeiro e em oração silenciosa dizer amém!
terça-feira, 11 de janeiro de 2011
Insistente
Desenhada em meu rosto,
Insistes em perpetuar-te
Como se imagem
Fosses de mim.
Mas eu, teimoso que sou,
Reitero o ato de eliminar-te.
Nesta luta de insistentes,
Voltas a te fixar em minha face.
O que te faz brilhar
Não é luz própria.
Lanças mão do espectro da lua
Para que te vejam
E te valorizem mais do que faço.
Tola, desconheces o quanto precisas
De espectadores para que ganhes vida.
Na verdade,
Nada és sem outros olhos.
Não reluzes sem faróis externos,
Nem te manténs por própria vontade.
Não permitirei que te instaures.
És gota e não oceano.
És filete e não caudal.
És lágrima e não minha morte.
quarta-feira, 5 de janeiro de 2011
Original
Quem foi que disse que tenho que ser sempre original? Essas expectativas não vêm daqueles que buscam para as suas próprias vidas as relações do que escrevo. Não são também os que criam imagens a partir do que produzo que o fazem! Quem mais, então, poderia supor que há que se ter um cunho de ineditismo tão sacralizado nas ideias de minhas linhas?
Os que me seguem poderão encontrar algo jamais pensado, mas sem a necessidade de ser absolutamente extraordinário.
Qual a regra imposta para que meu texto seja sempre uma gigantesca surpresa?
Não restaria nem para a existência e muito menos para o tempo a oportunidade de construírem a história, pois se somente o não-revelado fosse o único a ser valorizado, o que fazer com todas as páginas registradas da humanidade? Pobre Platão, diria eu!
O que chamam de invento não é um isolado conceito de acontecimento, mas sim a capacidade de reviver de forma diferente o que fora posto por outrem. Dito de outra forma, para que não me acusem de confuso, é tomar para si o já criado e forjá-lo novamente.
Do plágio à reinvenção, tudo é possível, mas o que realmente importa é o conforto de quem modela as palavras e o prazer de quem entra em contato com o resultado dessa manifestação.
terça-feira, 28 de dezembro de 2010
De perto e de longe
De perto, no mesmo nível em que estão os meus passos, não compreendes as voltas dou. Buscas entender as razões que me fazem caminhar por entre as imaginárias paredes do labirinto que tu inventas (não eu) para justificar os meus movimentos. E por ali vou, retorno, passo novamente diante de ti, sentes minha presença ritmada a tua retaguarda, incansável! E das voltas que dou, mais voltas dão os teus pensamentos. Emaranha-te neles! Não falas, não pedes explicações e permaneces a te remorderes no intuito de buscar plausíveis motivos para o que estou fazendo.
Devido a tua necessidade de entendimento ser maior do que a da tua confiança, és alçada a andares muito mais altos do que aquele que estavas. E de lá – aí sim – percebes o que meu trilhar fazia: tecia, fio a fio, com esmero e cuidado, a tela do que é amar. Na paisagem que agora vês, consegues enxergar de longe o que teus olhos não foram capazes de perceber ao meu lado. Infelizmente, tarde no tempo! No inexorável tempo que aplaca as possibilidades de retorno. E de onde te encontras, só te resta a observação, pois antes de confiar, teu senso tentava adivinhar pelo juízo de teus valores sem me dar a chance de terminar a obra que para ti fazia.
Curiosa é esta diferença entre as distâncias dos planos, que oferece a quem está junto uma oportunidade de exercitar a certeza e dá aos que afastados estão a única possibilidade de lamentarem o que não puderam aproveitar.
Sigo na labuta a espera de para quem possa oferecer meu tecido e tu, se quiseres, poderás prosseguir a mirar o meu tear.
terça-feira, 21 de dezembro de 2010
Promessas e esperanças
Hoje serei direto e isto tem uma explicação: cortou-me a carne o fio afiado da faca!
Comecemos do simples para o complexo. “São as promessas que alimentam as esperanças”. Posso responder por mim, pois no meu caso funciona assim.
Reconheço que por vezes sou insistente em acreditar nas promessas feitas, nas conversas que tentam ser das reconciliações. Ouço a voz que diz “farei” e a isto me prendo. Entendo também que se não fosse deste modo, muito provavelmente, eu não existiria. Não consigo fazer de outra forma. Quando dou por mim, já foi... acreditei de novo! Pela estrada a fora da vida, vou crendo e buscando enxergar, ainda que em fragmentos, as pequenas possibilidades do que ouvi. Será que o que estou vendo agora se aproxima do que me foi prometido? Não! Ainda não foi desta vez. E ao identificar outra tentativa lá estou a buscar as ligações entre as suspeitas e os sinais quase apagados do que na minha cabeça poderia vir a ser um lampejo do que esperava. É mais forte do que eu, não consigo deixar de lado e nem quero acreditar que é melhor não crer. Esperando permaneço!
terça-feira, 14 de dezembro de 2010
Causa e efeito
Naquela noite, já altas horas, movia-se livre a minha sombra no solo sem conhecer qualquer obstáculos. Avançava, retrocedia ou mesmo assumia os contornos irregulares que ia encontrando a cada gesto meu. Ao bel prazer de sua vontade, à revelia das minhas tentativas de controle, ela brincava. E eu, ciente e consciente de que era meu corpo o responsável imediato da sua existência.
Quase como protesto, dei-lhe as costas (mesmo sabendo que ela permaneceria ali). Deparei-me com o azul mais escuro que o marinho, salpicado de luzes intermitentes – chamam-nas de estrelas, creio! - e qual não foi minha surpresa a derrubar minha fama de responsabilidade: era sim meu corpo quem criava a sombra, mas era a luz da lua a propulsão! Decepção!
Por bom tempo, meus olhos fitavam o contorno redondo do branco que se destacava naquele marinho mais marinho ainda. Tempo... tempo.. tempo. De golpe, assaltado pelos pensamentos que tentavam entender a dicotomia de quem era mais produtor da sombra, ela – a lua – ou eu, surge o estalo (dizem os doutos “insite”): nem um nem outro! De onde vem a tua luz, inspiração dos apaixonados e candeeiro dos loucos? Dirigia minha indagação ao satélite. É também reflexo mais distante que imaginas. Eu mesmo respondia. O que brilha, na verdade, é o que te toca oriundo das sobras do caminho entre a tua superfície, tão descontrolada como a que eu pisava, e o sol.
Sem vingança ou revanche (não adiantariam), rendi-me: a sombra era a consequência do sol!
terça-feira, 7 de dezembro de 2010
A ponte
Entre as teias dos meus silêncios transitas e eu, torpe, aferro-me na esperança de que as entendas. Como posso exigir-te as compreensões forjadas em meus esconderijos? Como querer que a linguagem de minhas “não-palavras” se traduza em tuas atitudes, sem sequer deixar claros os objetivos que conformam minhas necessidades? Neste hiato encontramo-nos! De um lado teu esforço e tuas limitações, esmerando-se em me saciar. De outro, eu ansioso na espera das respostas exatas que me satisfaçam. Arre minha angústia! Se quero verdadeiramente que me escutes, devo, antes de mais nada, falar-te ou pelo menos sinalizar-te que caminhos têm meus “mudos-falares”. Não quero gerar abismos intransponíveis. Arde em mim o desejo de lançar pontes possíveis no suor das ações que edificadas assegurarão nosso livre transitar. Eu em tua direção e tu vindo até mim, ali, bem no meio do caminho criado, entre o eco da minha mente e a tua mensagem marcamos nosso encontro, selamos nossa história, aprendemos e ensinamos as nossas línguas mutuamente! Vem! Pois, esforça-me-ei em ir também!
terça-feira, 30 de novembro de 2010
Pequena Morte
Deitado à sombra dos exercícios de minhas sensações, nos instantes subsequentes a minha pequena-morte, resgato as lembranças que ainda me provocam o prazer que me proporcionaste. Ali estou, extenuado, embora não cansado pelo esforço empreendido. Percorrem em minhas veias, nos intervalos estabelecidos do arfar ritmado de meu alento, as tuas provocações que, no cenário imediatamente anterior a nossa união, pude antever e que agora confirmo através do repouso merecido. Ousadia a minha dizer que cumprimos com as nossas expectativas e a confirmação de nosso intento se vê refletida no perfume que ainda exalamos. Neste cenário, espraia-se a denúncia do nosso encontro.
Passados os primeiros segundos, na recuperação das musculaturas que se distenderam, sinto que o traço desenhado entre nossos olhares confirma o movimento da atração e dão indícios de prosseguimento.
Resta-nos, então, eternizar, na tela da alma, isto que jamais se repete. Cabe-nos alimentar, no esconderijo das certezas, a renovação de nossos propósitos. Permitamo-nos, pois, o sonho de criar outras oportunidades de, ao entrelaçar nossos corpos mais uma vez, ressuscitar.
quinta-feira, 25 de novembro de 2010
Breve espaço de luta
Diante do espaço em branco, a imperiosa vontade de ajudar me leva a lançar as palavras aqui. O objetivo está claro, a forma é que se encontra difusa! Sei o que devo expressar, mas sem rascunhar (valha-me Deus a era cibernética que aboliu papel-rascunho pela tela!).
O processo da escrita não é automático, mas é, no mínimo, efervescente (e ainda bem que o corretor ortográfico acusa que “efervescente” tem dígrafo!).
Hoje em dia, a escassez das palavras cortadas pela rapidez do teclado, os chats das “solidões” (são tantos os escaninhos do “sozinho” que o neologismo do plural se justifica), os ponteiros arrastados dos relógios e os calendários que voam nos fazem enferrujar o exercício do erro, do ensaio, do romance.
As necessidades das explicações se avolumam e lotam a página de parênteses, de aspas e de letras cursivas... Sem esquecer, é claro, das intercaladas por vírgulas e das reticências...
Um misto (sem a fome do mixto) de alívio de ver as linhas sendo preenchidas e o temor de esvaziar os argumentos de prosseguir. A antiga arte de escrever não morreu, por mais que parcos e parvos nisto tentem acreditar. Serão talvez as inovações e o abismo das sensações de um tempo que fomentam esses pensamentos. Mas, basta entrar numa Mega Store para ver a quantidade de tentativas de livros, consumo de tudo e na peneira da sorte, encontramos algumas boas revelações. Gerações se sobrepõem na velocidade do mercado editorial e da voracidade da auto-ajuda! Não disfarço a percepção dos assassinos da língua e da inteligência humana que se dizem escritores, mas sei também que tal fato não é um atributo exclusivo da modernidade. Também houve, certamente, os que na invenção da imprensa, jogaram palavras no papiro e disseram que escreviam.... Foram esquecidos! Estes de hoje também o serão! Aferro-me a esta crença e dela me alimento!
Entretanto, não fujo ao tema de falar o que me é dado como tarefa. Sinto-me aliviado de ter colaborado com o cansaço do academicismo que exige a norma dos padrões das “ABNTs” da vida e após tal jornada aqui percorrida posso dizer: acho que escrevi!
terça-feira, 23 de novembro de 2010
Reconhecimento
Pela escuridão da descoberta vai se esgueirando a sensação da vulnerabilidade. Surpreendido integralmente pelas flechas que atravessaram os meus flancos, tombei muito mais por vergonha do que pelas feridas.
Agonizam as certezas que me enganaram construindo uma verdade volátil. Sou frágil também, e dessarte estremeci diante da ameaça de ventania que começou a soprar em mim! Na busca de refúgio, olhos ainda turvos do pó que se levantou, ocupei um espaço diminuto e mal ventilado. Sofro por aqueles que me circundam. Pobre deles!
O esforço respiratório faz-me arfar, aceleram meus caminhos vermelhos e um disparo inoportuno da alternância entre minha diástole e minha sístole me exaure. Rendido, ali bem em frente ao espelho do que pensava ser, devo recomeçar.
Não há mais a paciência do tempo de recuperação e do descanso. Não há mais o apoio das desculpas perdidas, uma vez que os últimos grãos das areias pendem. Não restam alternativas a não ser a única chance de prestar a minha homenagem aos que nesse instante peço perdão! Reconheço!
quinta-feira, 18 de novembro de 2010
Fundição
É noite lá fora...
Mas aqui dentro,
Na claridade do meu dia,
Vejo homens de areia fraca
Que escorrem, inexoravelmente
Pelas ampulhetas do Tempo,
Desfeitos... descompostos...
É noite lá fora.
Retomo o meu olhar
Para o esforço das mãos
Estendidas no socorro
A gritar atenção.
É noite lá fora.
Instantaneamente tomado
Pelo arroubo do momento
Faz-se a compreensão exata da forma.
E eis que as labaredas da razão
Arrefecem o incêndio
Da claridade do meu dia.
Ainda que continue a noite lá de fora.
Reconstruo a tênue existência
Daqueles homens:
Vejo-os agora
A transformar o pó
Em cristal obtido
A ferro e a fogo.
Pela mesma chama que intensifica
A claridade do meu dia.
Para sempre
Caminhava, a ermo talvez, entretanto sentindo pulsar nas veias a expectativa. Não poderia definir o que estava a minha espera ou o que eu encontraria... Seguia! Davam voltas em minha mente os pensamentos que construíam histórias, realizavam paisagens, contavam centenas de encontros, reações, decepções, fugacidades. Quantos pés trilharam as mesmas pedras harmônica e propositalmente justapostas naqueles corredores cinzentos no solo e verdes nas paredes? E mesmo em meio aos serpenteados muros de cedros milimetricamente cortados e aparados que contornavam os canteiros, apresentando suas formas geométricas e helicoidais, num labirinto de sensações assustadas, ali estava você, erguida entre tantas outras. Destacava-se não por traços específicos ou inexistentes nas demais, mas sim pela sutil diferença de trazer consigo a marca de ser minha. Foi suficiente o meu olhar em sua direção para que não restassem dúvidas e tão logo formada a imagem em minha retina, nesse mesmo segundo, nascia daquela flor o perfume inconfundível. Era o reconhecimento de uma atração que não se extinguiria mais. Você para sempre e eu eternamente!
Em outras palavras: No shopping, em frente a livraria, encontrei você!
Em outras palavras: No shopping, em frente a livraria, encontrei você!
quarta-feira, 17 de novembro de 2010
Combate à alergia
Ontem, resvalando nos meus pensamentos, deparei-me com uma camada de poeira que tinha quase a forma geométrica de um retângulo. Curiosidade aguçada e a desnecessária mania de meter a mão, soprando e varrendo, ao mesmo tempo, surgiu o título: “Guardadas para a próxima”. Como não folhear? Inevitável.
Sentei-me nos ponteiros do tempo, imobilizei o seu curso para reler e acreditar que eu mesmo havia selecionado alguns momentos e sensações da vida e colocado-os a disposição de uma oportunidade que nem sabia se iria chegar. É curioso ver o que as circunstâncias fazem de nós e de nossas chances. O que em um determinado momento parece-nos impeditivo de realização, e, por razões as mais diversas, decidimos encaixotar. No meu caso, colocar no livro das “Guardadas...”
Nada faz reparar os espaços deixados pra trás e não se retrocede no tempo, é verdade. Mas decidi, corajosamente, inovar ao renovar. Se não posso resgatar as mesmas questões – com todas as circunstâncias, envolvidos e envolvimentos – pelo menos tentarei criar condições de revisitar-me!
Hoje, ainda como forma de autoproteção, permaneço alérgico àquela poeira deixada pelas conjunturas vividas. Entretanto, mais incomodado com o que perdi, prefiro enfrentar a possível possibilidade de um espirro na retomada do que permanecer imunizado pelo medicamento da covardia.
Os ponteiros do relógio forçavam a sequência do seu caminho, lembrando-me que não o detenho, mas posso, quando muito, aplastar-me nos seus ponteiros, como fiz agora. Levanto-me e nariz já coçando, inicio a recuperação de mim. Não salvarei tudo e, possivelmente, nem a todos, porém, será, no mínimo, uma aventura. Lá vou eu!
Sentei-me nos ponteiros do tempo, imobilizei o seu curso para reler e acreditar que eu mesmo havia selecionado alguns momentos e sensações da vida e colocado-os a disposição de uma oportunidade que nem sabia se iria chegar. É curioso ver o que as circunstâncias fazem de nós e de nossas chances. O que em um determinado momento parece-nos impeditivo de realização, e, por razões as mais diversas, decidimos encaixotar. No meu caso, colocar no livro das “Guardadas...”
Nada faz reparar os espaços deixados pra trás e não se retrocede no tempo, é verdade. Mas decidi, corajosamente, inovar ao renovar. Se não posso resgatar as mesmas questões – com todas as circunstâncias, envolvidos e envolvimentos – pelo menos tentarei criar condições de revisitar-me!
Hoje, ainda como forma de autoproteção, permaneço alérgico àquela poeira deixada pelas conjunturas vividas. Entretanto, mais incomodado com o que perdi, prefiro enfrentar a possível possibilidade de um espirro na retomada do que permanecer imunizado pelo medicamento da covardia.
Os ponteiros do relógio forçavam a sequência do seu caminho, lembrando-me que não o detenho, mas posso, quando muito, aplastar-me nos seus ponteiros, como fiz agora. Levanto-me e nariz já coçando, inicio a recuperação de mim. Não salvarei tudo e, possivelmente, nem a todos, porém, será, no mínimo, uma aventura. Lá vou eu!
Escorre a areia!
Bem-vindos, caros amigos:
E eis que a modernidade vai nos ajudando pouco a pouco. Confesso a vcs que relutei em revelar esta frustração de escritor. Acalentando o sonho inconfesso de um dia publicar o meu livro, ser lido e, mais que isso, que o conteúdo pudesse fazer bem a quem por ventura pudesse ler, cedi! Não tive o livro "de jeito mas trago dentro do peito" meu livro que não lancei! (obrigado pela ajuda Bandeira)
Quem nunca rabiscou versos em "mal traçadas linhas" (Dá-lhe Noel Rosa!)? Quem nunca arriscou dizer amar nas rimas consonantes e assonantes? Nós, amantes inveterados, nos arroubos dos sentimentos mais adolescentes da vida inteira, não faríamos diferente.
Espero, sinceramente, poder no espaço, que agora compartilho, também lhes dar a conhecer um pouco do que vai nesta alma andarilha das emoções vividas, desistidas, investidas, reprimidas, ocultadas e tantas outras vezes até sabotadas!
Boa viagem nas areias que escorrem nas ampulhetas do meu tempo e do nosso tempo!
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