terça-feira, 27 de novembro de 2012

Complexamente simples

Quando a felicidade lhe surpreender sem que você entenda os motivos, não busque as causas para não afugentar a espontaneidade e a liberdade de “ser por ser”. Quando a dor ou a tristeza lhe visitarem sem aparente explicação, não tente entendê-las e não especule sobre nada para que elas se esvaiam e desapareçam da mesma forma como vieram ou surgiram. Quando o tempo lhe sufocar, não se cobre cumpri-lo mais do que é humanamente possível ser feito, porque é entre as paredes do limite do tempo que é feita a vida. Quando o vazio das ações parecer preencher o seu dia, não coloque no suposto espaço oco o que quer que seja, pois mais a frente você poderá notar que aquele lugar estava sendo reservado para algo mais importante.
Em suma, não são as elucubrações que resolvem nossos incômodos, até porque muitos deles são sensações desconhecidas que nos colocam na exigência das explicações.
E quem foi que disse que para tudo devemos ter lógica, causas ou consequências visíveis? Viver é tarefa tão simples que se torna complexo demais aceitar.

terça-feira, 13 de novembro de 2012

Hoje

Você talvez não saiba exatamente o que é Kali Yuga. Pode até desconhecer quantos anos cabem nessa contagem de tempo que mede as Eras do calendário hindu. Mas, certamente você reconhece os tempos difíceis e complicados que estamos vivendo. De quantas pessoas você já ouviu a frase “Nossa! Este ano a coisa 'tá' braba!”?
Mas saiba que isto não é uma exclusividade sua e nem o único acontecimento na humanidade. Conseguiríamos imaginar um homem do medievo tecendo outro comentário que não fosse esse? E quando estouraram as Guerras? A afirmativa foi outra?
Em poucas palavras, a dificuldade de viver está no simples fato de estar vivendo. Pode parecer uma assertiva tola, mas absolutamente verdadeira.
Tal reflexão não tira o entendimento de que este ano 'tá' brabo mesmo!
Anunciado há algum tempo por diversas religiões e “revelações” extrassensoriais, o mundo passa por grave crise de caráter que esbarra em questões sociais mais amplas. Aquilo que nossos irmãos orientais chamam de “karma coletivo” e que vimos representar metafórica ou simbolicamente nas cenas do dilúvio, em Sodoma e Gomorra, na Batalha dos Pandavas, e tantas outras histórias contadas de geração em geração.
O fato é que a tensão está no ar. Somos desfiados constantemente e exigem de nós (quem exige?) um jogo de cintura que se renova todas as vezes em que resolvemos alguma pendência. Quando o ar que exalamos de “Ufa, venci” acaba, parece que imediatamente a respiração seguinte simboliza “caraca, de novo, lá vou eu!!!!!!”
Nossa!!!! Quantas cabeças estão balançando agora concordando com meus cometários! Pelo menos não estou tão estratosférico assim nos meus devaneios. Estou?
A pergunta que se segue à concordância das observações deve estar sendo: “E aí? O que fazer?” Desculpem a “tortez” da resposta, mas é um simples viver. E durmamos sem um barulho desses!

terça-feira, 30 de outubro de 2012

Rabiscos e rascunhos

Há momentos em que confundo rabiscos com rascunhos, mas um outro tantão de vezes o que faço é intencional mesmo e não estou iludido entre o que deliro e o que me faz tremer. Coisas diferentes são essas sensações. Tão díspares que, ao menor sinal de interseção, eu paro e espero que as pretensas confusões se amainem. Elas, por si só, seguem seus rumos.

Os ensaios minimizam os meus riscos, mas não conseguem me proteger na totalidade, pois não há como contar com o inesperado que, do nada, surge. 

Entretanto, em determinadas situações, o que faço, na verdade, é permitir o exercício do inconsciente para transferir para o alvo as questões insondáveis da alma. Nem são abismais, e muito menos rasteiras, as minhas divagações. Elas não entram no escopo da profundidade. Eu não as julgo por isso. Coloco-as na avaliação, sim, quando devem atender as minhas necessidades mais prementes. Se de forma rápida, alongada, funda ou rasa, não me importa, desde que cumpram com os seus papéis de seladoras dos vácuos que em mim percebo.

Do que falo? Aff! O que estou tentando dizer (será que consigo?) é que no transcurso das horas eu busco estar vivo!

terça-feira, 23 de outubro de 2012

Parto



Grávido do mundo, a espera de um parto mais amplo em direção ao ilimitado momento de renascer. Pobre dos encarcerados na visão pequena de que não há nada mais além do que os olhos podem ver. Mesmo assim, seguem eles, a trancos e barrancos, a jornada. A diferença está entre sofrer os dias da incerteza ou se manter convicto de que haverá mais luz do que o breu do pessimismo. Opto pela segunda chance e disto não abro mão.
Existirão seguidores? Oxalá que sim! Entretanto, ainda que não veja no rastro do caminho outras pegadas, não me limitarei nas amarras do tempo e me prepararei para a hora da explosão de vida!
São tantas as oportunidades que os homens vendados não conseguem captar. Nem por isso elas deixam de estar à disposição de todos. Basta lançar para o alto a mão da vontade e capturar o seu quinhão.
Talvez alguns estejam se perguntando: “Mas que delírio!” e eu responderei: “De que mais se faz a existência se não houver espaço para transbordar a linearidade dos acontecimentos? Louco sim, da sanidade de viver”
Se isto não fosse, não estaria grávido do mundo a ponto de parir a bela vivência de mim mesmo na felicidade de estar aqui. O tempo que não passa é o presente que não se esgota. O inexorável ponteiro que aflige é o passado que arrasta as dores e a ilusão do aprisionamento do espaço é o futuro assustador dos que nem para trás e muito menos no agora se permitem ser. Não é o meu caso!

terça-feira, 16 de outubro de 2012

Declaração


Amo as palavras! E o prazer que elas me proporcionam vem da íntima relação que estabelecemos desde os meus primeiros balbucios, onde vi nascerem as significações que aproximaram as pessoas. Representações incompreensíveis para a grande maioria, mas que ganhavam corpo dentro do seio familiar. Aí teve início essa história de amor.
Adoro-as devido à mágica que delas emerge quando se juntam, separam-se e tornam a se amalgamar numa incontável possibilidade de descreverem a vida. Rompem as barreiras do tempo e esfacelam o espaço, ocupam lugares e retorcem ponteiros.
Admiro-as pelo valor que dão aos tons do mundo. Contam e recontam as histórias, mudam os rumos, perdoam as derrotas. São a vitória dos que dela fazem bom uso e o algoz dos tropeçantes usuários.
Como disse o poeta – e em minhas mal-traçadas interpretações, reinvento: as palavras ou dão vida, ou podem matar.
Mergulho entre as encantadoras vozes que me levam a “mares nunca d'antes navegados” num bailado entre o profundo e o superficial que jamais me afoga. Roçamos nossos corpos, vivemos nossas emoções, sangramos nossas dores e rimos das tolices mais banais. Amo as palavras que conheci e já quero as que nunca vi. Sem conhecer divórcio entre nós, será eterno pois, ainda que chama, jamais se extinguirá.

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Da série "Pelas ruas" - epílogo inconcluso

Pelo campo aberto das censuras internas, ia o andarilho (eu mesmo quantas vezes desconhecido de mim mesmo) a me perguntar: Se não me re-invento, quem, por Deus, nessa Terra engolfada pela falta de tempo entre os homens poderá fazê-lo por mim? Nem “Chapolin Colorado” conseguiria tal façanha.
Esforço-me, ainda que por vezes em vão. Outras tantas, amigos e irmãos, poucos prestam atenção. Culpa deles? Não! Certamente porque minha lente deve ficar embaçada e, na pressa, acabo por não reorientá-la na tarefa de limpar a imagem. Perco, logo pois, a oportunidade de que eles percebam meu empenho em dar nova roupagem às atitudes pétreas.
Então, por que, raios, fico cá eu a lhes exigir que me compreendam? Sinto muito... perdoem-me!
Nem pretendo a promessa da melhora. Até porque, se não consigo cumprir com o me refazer, como poderia assumir o compromisso público de demostração clara e efetiva das minhas adaptações e adequações ao tempo presente? Seria criar expectativas naqueles que me circundam e não seria justo.
Enquanto isso, vou levando, vivendo, revivendo, torcendo para entender e acertar. Com destino, mas sem uma obstinação que beira (ou roça) quase a cegueira dos infames e presunçosos.
O que esperar de mim? Bom... quem sabe você me encontra por ali, lá ou acolá, eu mesmo a me buscar, menos angustiado pelo causticante calor das areias que enchem a minha ampulheta. Boa sorte para você. Boa sorte para todos nós!

terça-feira, 2 de outubro de 2012

Dia N


Certa vez ouvi de alguém que gosto muito que “hoje é dia de nada”. Crendo que é o melhor que podemos fazer, hoje sendo dia de nada me sinto desobrigado a convenções e cumprimento de normas socialmente impostas. Deparo-me livre para poder deixar que o dia transcorra sem a pressão das horas, sem o engolfamento do tempo, sem o sufoco da correria dos atalhos.
Isto posto, hoje é dia de me dedicar a mim e revisitar minhas próprias entranhas. Não será a oportunidade de dizer ou explicar, justificar ou argumentar. Definitivamente hoje não darei voltas na minha cabeça buscando palavras para não ofender, ideias para convencer e não amarrarei a cara na contrariedade do que possam querem me exigir. Não desistirei pesarosamente dos compromissos e muito menos abdicarei de qualquer convite (dos mais prazerosos aos mais enfadonhos), até porque hoje não os terei.
Hoje é dia de nada. Não me culparei por nada fazer, afinal de contas, não estou dizendo que hoje é dia de fazer nada. Digo sim que hoje é dia de nada. Nada do que cotidianamente me assola, me oprime ou me deixa tonto por “ter que”. Se essa sensação se chama liberdade eu não sei, mas que me soa como desanuviação e me proporciona um dia de tranquilidade, lá isso é verdade.

terça-feira, 25 de setembro de 2012

Da série "Pelas ruas" - 3

Longe de querer ser original (aliás, o que é original, caro Platão?), mas por ser extremamente útil, deparei-me com uma longa rua, limpa e reluzente em suas vitrines polidas de dourado. Temperatura amena e gente tranquila caminhando. Cada qual com o seu tempo, com seu mundo. Tantos mundos juntos, algumas vezes se esbarrando, mas tão separados e distantes.
Havendo chamado a minha atenção essa disparidade toda, notei, sei lá se por acaso ou envergonhado, o maltrapilho que numa beirada de um portal bem esculpido em pedra deixava-se estar.
Mendigava? Talvez! Mas o que? Não era o aspecto que afastava os transeuntes, pensava eu. Era, na verdade, o peso das próprias circunstâncias que os fazia cegos. Aquele homem acocorado era invisível!
Deixando que meus “alfarrábios” mentais me lembrassem a lição secular de que todos estamos ancorados no mesmo esteio da criação e que sem prestarmos atenção podemos estar sendo testados na observância desse ensinamento, retirei do bolso a pouca nota – que provavelmente valor que compraria uma madura manga – coloquei-a naquelas mãos endurecidas pelos tempo e segui o meu rumo.
Ainda insatisfeito pela perplexidade do alijamento a que todos submetemos a cada um, voltei meu corpo em 180 graus para olhá-lo mais uma vez e vi que ali ele não estava e haviam brotado em seu lugar as alvíssimas mil pétalas brancas que são o privilégio de assento de poucos escolhidos e merecedores no mundo.

terça-feira, 18 de setembro de 2012

Da série "Pelas ruas" - 2


Um sério defeito que tenho (dos inúmeros que não me atrevo a listar) é estar mais ensimesmado do que de olho no mundo. E assim foi... caminhando “cá comigo, meus pensamentos” quando, ao dobrar a esquina, num movimento mecânico, “trupiquei” com a afoita e rápida guria que no susto do supetão só disse “uiu!”
Ela nem ia muito parar para me dar trela e nem ao menos satisfação do tropeço. E quase a espera da famosa frase “Pô, tio, não olha pra onde anda, não?”, aguardei no vácuo do silêncio incômodo nenhuma resposta ou retrucada.
Era ela a Menina-Surpresa (seu nome) que nos momentos mais inesperado aparece e “buuuuuu” nos assusta. E o coração acelera não por ser feia ou desforme.... ao contrário... pode até mesmo ser bela e jovem. O que acontece é que somos retirados da zona de conforto assim de golpe. Não é a Surpresa que nos assalta, somos nós mais distraídos ou acostumados com o entorno linear que esquecemos de, avant-gard, estar mais a espera de que as situações mudem. Refeito, aprumei-me e segui o caminho.

terça-feira, 11 de setembro de 2012

Da série "Pelas ruas" - 1


E lá vinha eu, descendo a ladeira, nem tão íngreme assim, daqueles dias em que você acorda e, meio sem gás, pensa que o melhor teria sido não levantar. Olhar nem cabisbaixo poderíamos dizer, pois os olhos não estavam direcionados... perdidos, talvez, na confiança de se ensimesmar. Quando, pelo golpe fortuito do susto, tropecei na jovem senhora que, na direção oposta, vinha tranquila e segura de si.
“Ops, desculpe” foi o mínimo, com o máximo de esforço, que saiu em som. A contra-resposta, suave e segura, não longe do esperado “bom dia”, fez-me parar e, reconhecendo a vergonha do tranco, romper a barreira do meu cansaço. Iniciamos a conversa:
  • Olá.. Vejo que o senhor vai por aí, ir por indo...
  • De verdade, hoje nem indo mesmo vou. Se deslocamento é ir, só por isso estou indo.
  • Prazer. Paciência meu nome. Eu que encontro tantos desencontros, que esbarro em diversos colididos do próprio ânimo, sei o que me diz e o quanto isso lhe pesa.
E lá se foi ela, ladeira acima, deixando-me com a pulga atrás da orelha: É... quando o homem pensa que não será retirado da sua zona de inércia, eis que lhe atropela a sentinela das vivências escondidas nos mais recônditos porões de você mesmo! Paciência!

terça-feira, 4 de setembro de 2012

Prognósticos meteorológicos



Há os que olham um dia encoberto como sendo a tristeza das possibilidades. Mantêm-se tão fechados, como o próprio entorno, a anunciar algum iminente temporal. Assustam os que observam, criam tensões ao redor, provocam movimentos de busca de proteção. Cansam-se e fazem cansar. Enfim, significam somente o prenúncio do cabisbaixo tempo. Outros, por sua vez, nem mais otimistas, nem menos derrotistas, entendem que, para além das amontoadas nuvens, existe uma imensidão celeste, intocada e clara. Aferram-se a esta certeza e espalham a crença na espera de que o pardacento dia não persistirá. Nada permanece da mesma forma ad aeternun.
Escolher o lado em que se passa a frequentar dependerá exclusivamente do “tempo” que dentro de si se reconhece. Algumas vezes, deixando-se levar pelo maremoto dos “nublados”, outras tantas filiando-se aos adeptos do céu puramente azul.
Sem haver certos ou errados, tudo não passa de passos a serem dados em uma direção ou em outra: Se o que persiste no caminheiro é a dúvida, provavelmente se antevê o lado que selecionou (céu cinzento). Por sua vez, se na trajetória se escolhe a passada mais firme, do mesmo modo, antecipa-se a resposta (céu aberto).

terça-feira, 28 de agosto de 2012

E se...


Vasculhando a vida, e isso é coisa de enxerido mesmo, surpreendi-me com as peripécias dos meus dias e notei, despretensiosamente, que não tenho nada do que me arrepender. Mas acalmem-se. Não disse que só fiz coisas certas. A conclusão a qual cheguei é a de que, no final das contas, todos os caminhos adotados, as escolhas feitas, as emoções vividas e tudo o mais tiveram serventia e valia (e continuam tendo).
Confesso que, no início das divagações, achei meio estranha assertiva de que de nada me arrependo. Entretanto, ainda no viés das especulações, brinquei de averiguar através da famosa brincadeira “o que teria sido se …” e logo percebi que:
Se eu não tivesse feito besteira, não tinha conhecido gente maravilhosa e importante no período pós-traumático.
Se eu não tivesse errado o preenchimento do cartão do vestibular, não teria a satisfação profissional que tenho.
Se não tivesse me incomodado com alguns conceitos e dogmas, não estaria na esteira da minhas busca do autoconhecimento.
Se não tivesse brigado com algumas pessoas, não descobriria o quanto são importantes para mim.
Se não tivesse exagerado na dose do crescimento, não teria mergulhado mais fundo.
Se não tivesse escutado a harmonia das canções, não teria aguçado o feeling para os acordes do mundo.
Se não tivesse tropeçado e me enganado em alguns sentimentos, julgando serem eles os mais puros, não seria eu a escrever este texto.
Enfim... Dentro de tantas conjecturas, o mais importante é que não houve espaço para que eu encontrasse uma razão de remorso pelos dias que até hoje eu vivi.

terça-feira, 21 de agosto de 2012

AUTORES


Torno pública a notícia aos que me leem, que não sou o único responsável pelo que de minha pena nasce. Se o que dou vida é singelo, certamente provém das vozes dos céus que cultivo. Entretanto, em parecendo nefasto o que expresso, advém do que compartilho com o breu que em mim também habita.

Sim! A mais pura verdade. Uma vez humano, vivem em mim luz e sombra, que longe de serem culpadas da co-autoria de minhas linhas, são o respaldo daquilo que sou. E, nas bifurcações que me angustiam, elas não se anulam. Ao contrário, complementam-se denotando de forma mais objetiva ainda a configuração de mim mesmo.

Eis que aqui estou, vitral das cores quentes e frias, primárias, secundárias e tantas outras vezes terciárias (o cúmulo – e acúmulo – das misturas). Mosaico este que a uma certa distância permite ao observador distinguir o desenho que de perto, bem de pertinho, é quase indecifrável. Ainda bem que é “quase”. O que revela, então, a possibilidade de interpretação. Levará tempo, não resta dúvida. Escoará mais e mais areia nessa ampulheta da vida, mas haverá sempre a tentativa de me entender. Sigo!

quinta-feira, 12 de julho de 2012

Suspensão

Dado a termos baixos acessos (quase nenhum) nas últimas semanas, ficam suspensos os textos.

terça-feira, 10 de julho de 2012

Revoada


Olhando aquela dourada pequena jaula, viam-se amuados – ou talvez amontoados – os sentimentos. De quando em vez saltava um mais afoito para exercitar as asas ou mesmo ceder espaço para que outro pudesse espichar as suas.
A menininha, apiedando-se dos aprisionados, engendrava um plano para dar fim àquele sofrimento.
Sorrateiramente aproximou-se e levantando a tranca deixou entreaberta a portinhola.
Bateram em revoada. Cada um dos sentimentos que passava rumo à liberdade dava uma paradinha na abertura, olhava pra um lado, olhava pro outro, tentava entender qual a melhor direção e partia. Foi uma enxurrada de atropelos. Cada um dos ex-detentos queria o mais rápido possível a nova ambientação, mais espaçosa e mais instigante.
O que lhes espera lá fora ninguém poderia ter certeza e a única maneira de saber era lançando-se à empreitada. Haveria um tempo de readaptação. Deveriam contar com isso para não acharem que esse “outro mundo” não era o mais adequado ou mais assustador. A verdade é que toda nova experiência requer cautela. Entretanto, salutar dizer que se esquivar, voluntariamente, de uma chance é acovardar-se. Não estamos falando das inconsequências tolas dos arvorados. Referimo-nos, aqui, sobre a capacidade de se auto-medir e gerenciar o inusitado como forma libertadora dos marasmos habituais e cansativos.
É tempo de buscar dar mais amplitude (e amplidão), mesmo porque só sabe o seu limite quem se permite entender. Bom exercício este, não? Você se inscreveria nessa tarefa?

terça-feira, 3 de julho de 2012

Guru Purnima


Rasgavam a escuridão da noite as luzes das estrelas que, serpenteando o céu, abriam caminho para que se elevasse, imponente, a luz cheia. Sentado à beira do riacho, o menino Ganapati movia em círculos, com seu pequeno dedo, as águas cintilantes. A mirada fixa no movimento deixavam entrever, no brilho dos olhos, que era noite especial.
O coração havia descoberto que a paz ali sempre fizera morada e que o cansaço das muitas caminhadas no intento de encontrá-la teve fim quando reconheceu em si mesmo o oásis da vida.
Naquele intervalo dos afazeres, os lampejos das empreitadas iam e vinham de sua mente. Rememorava a quantidade de vezes em que suplicou à existência para que ela lhe mostrasse o caminho. “Onde mais posso buscar?” Parecia um deserto sob cálida temperatura ou um estéril terreno o movimento de atingir a imorredoura sensação da eternidade. Nem mesmo a sombra da morte parecia-lhe, em outros tempos, a solução adequada. Ouvira dizer, inclusive, que interromper o próprio alento era postergar a solução da redenção.
Quanto mais revivia a peregrinação, mais o movimento da mão submersa na correnteza formava desenhos simétricos. Respirava com a tranquilidade de quem conquistara a vitória sobre si mesmo. Ganapati era agora sereno e recompensado.
Deitava sobre o jovem alongadamente recostado na relva a luz do luar, prateando a vida de quem sabia, na alma, que havia encontrado o dissipador da sua ignorância. É noite de Guru Purnima, Hare!

terça-feira, 26 de junho de 2012

Papel e vento


Sentado sem muito tino e nem destino, deixei-me levar pela brisa que brincava com um despretensioso pedaço de papel. Nada se interpunha entre os dois, fazendo com que trocassem favores: o vento exercia o seu poder de levantar peso, enquanto o papel usufruía da força alheia para voar. Assim, em uma simbiótica relação de aproveitamento, lá iam eles!
Um não se sentia mais usado do que o outro. Não era disputa. Era simplesmente a ocasião. Sábia relação!
Tolos são os papéis ou os ventos que se digladiam ou se exigem mutuamente, chegando ao cúmulo de se apoquentarem. Não desfrutam do tempo, não aproveitam o momento, amofinam-se e se ressentem. Perdem-se e jamais recuperam a chance do deleite.
Já alto vão os entrelaçados em uma inaudível permissão que os faz livre. Não a liberdade mal interpretada de se andar sozinho, mas a sensação interna que os liberta das cobranças. Seguem soltos consigo mesmos. Razão pela qual podem ser felizes. Tornam-se, pouco a pouco, um ponto no céu cada vez tão mais diminuto que chega a desaparecer de minhas retinas.

terça-feira, 19 de junho de 2012

Anjo e demônio

A rima é pobre, mas o sentido é nobre!


Disfarça ou mente
quem diabo não se sente.
Aureola que nem sempre
se mantém reluzente.

São pouco inteligentes
aqueles que desejam ausentes
firmarem-se como inteligentes
na falácia das correntes.

Ao contrário, revelo-me valente
ao reconhecer humildemente
que não só em mim querubim presente
vive também o Mal insistente.

Não há discurso convincente
que me ponham na mente
que existam homens eterna e somente
benéficos, presentes e prudentes.

Mais vale a verdade que movimente
as luzes e sombras intermitentes
do que sou absolutamente
Anjo e demônio ambivalente.

terça-feira, 12 de junho de 2012

Paisagens e sensações


Houve um acordo tácito entre mim e o tempo nesses dias passados. A trégua teve sua razão. Além de merecê-la, talvez eu sucumbisse, caso não estabelecêssemos o acordo. Paramos os ponteiros do relógio (ou ao menos fizemos com que eles andassem mais lentamente). Tanto foi que, em alguns momentos, não sabia nem o dia e nem a hora em que me encontrava.
Aceitas as condições que favoreceriam a ambos, caminhei como peregrino do acaso. Juntei-me a outros três andarilhos naquelas paragens, ganhamos liberdade!
Pisando estradas e picadas recoberta de cristais, sentimo-nos enormes como quem sobrevoa acima das estrelas. Vimos poeira cósmica, ganhamos terrenos e, entre rochas lunares, mergulhamos em poços translúcidos. Cansamos o cansaço. Vencemo-lo!
Embrenhando-nos em nossa própria capacidade de superar, recuperamos nossas forças em tonéis de nascentes aconchegantes. Ali suspiramos e nos deixamo ficar. Fugiu-nos completamente a noção da sequência dos segundos, minutos e horas. Tais tiranos foram embora!
Gargalhamos não pela obrigação da simpatia, mas o que sim em nos jazia era a pura simpatia de sermos nós mesmos. Potentes, frágeis, eloquentes, ousados ou tementes, éramos, na verdade, autênticos!
Florestas de crenças suprarreais, céus coalhados de histórias (ouvimos muitas), riachos e cascatas que geravam melodias enebriantes (por elas fomos envolvidos). Permitimo-nos este presente.
Olfato aguçado, distinguimos perfumes e incensos. Olhares atentos, vimos detalhes inesperados e vida pulsante. Paladar avivado, saboreamos a simplicidade e comemos manjares. Tato alerta, tocamos formas e percebemos diferentes texturas. Ouvidos abertos, distinguimos ruídos e escutamos o som do mundo. Um espetáculo sensorial para além da explicação.
Eis pois, aqui, nobres e valorosas almas para sempre!
Terminado o contrato, voltou a ampulheta a nos cobrar o compromisso do tempo! Entretanto, não nos restam dúvidas: valeu a pena!

terça-feira, 5 de junho de 2012

Mesclagem


Trupiquei no emaranhado das linhas do tempo, não por distraído ou desatento. Mesmo não querendo ser enredado, acabei caindo nas tramas daquele novelo multicor. P'ra me livrar tentei de tudo, soprei o embolado tal qual me ensinara, certa vez, minha tia-avó. De nada adiantou, estava trucando. Busquei entender a lógica antes de empreender a tarefa de separar cada fio. Foi em vão! Logicidade, se havia, não era p'ro meu entendimento.
Parei de relutar p'ra não cansar. E sabe que começou a acontecer o que eu temia? Acabei me acostumando. “É a convivência!” Alguns diziam. Outros, mais sarcásticos e derrotistas, bradavam “Tem jeito não. Abre mão de fazer força! Deixa de ser bobo (p'ra não dizer otário)”
Ali, aboletado, quase estatelado, no chão. As linhas passavam por cima de mim da forma como elas queriam e sabiam. Não estavam nem aí p'ra mim. Nem permissão me pediam. “Com licença” então, nem pensar!
Recuperando o fôlego da peleja, iniciei meu processo de indiferença para com elas, até que, refeito do susto, apoiando-me em mim mesmo, ergui-me e de soslaio controlava qualquer movimento que aquele bobolô pudesse ter na tentativa de me derrubar novamente. Pé-ante-pé, levantei-me. Arriscava um passo, outro, mais outro e, ainda, mais outro até que, numa distância considerada razoável, bati em retirada.
Tempo,tempo tempo, vocês podem até me pegar n'outra esquina. Mas que vão ter trabalho, lá isso eu garanto!!