terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

A Dama de Copas


Um tanto quanto afoita e gananciosa, achando que o empenho das ações a faria mais poderosa e assistida, certa feita, a Dama de Copas resolveu garantir a plenitude de sua estabilidade e segurança afetivas. Com o ardil da rapidez, recolheu os ícones dos quatro naipes existentes e providenciou um afiado estilete que, com precisão cirúrgica, abriu em cruz os desenhos de Paus, Ouro, Espadas e Copas. O resultado era previsível: cada forma estava agora composta por quatro pedaços. Tomou para si um quadrante de cada naipe e, juntando-os, “inventou” um novo símbolo. Estava criado um novo naipe seu. Só seu!
Era hora de aproveitar a genial ideia. Entretanto, como o nascimento era fruto de um esquartejamento (ainda que havendo aproveitado o que cada um tinha de mais harmônico), não encontrou a pobre senhora eco entre os demais integrantes do baralho. Não havia nas redondezas nenhum outro modelo que pudesse se aproximar daqueles contornos. Nem mesmo ela estampava a inédita heráldica em sua bandeira!
Se anteriormente afastara-se dos seus e desdenhara o restante, tudo em prol de uma necessidade que não mediu as consequências, agora jazia solitária. O desfecho não foi outro a não ser entristecer-se em seu isolamento da tentativa de um ineditismo que não encontrou parâmetros. Entendeu, na dor da própria carne, que a felicidade não é necessariamente a exclusividade ou a novidade, mas sim, a forma como se reinventam as possibilidades do que se tem na vida!

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

A cartomante

Um amigo me contou uma história que vale a pena repassar.
Chegou o dia marcado em que a cartomante não mais pertenceria ao mundo dos vivos. Passados os primeiros momentos da tonteira inerente a quem atravessa a fronteira das vidas, recuperado o fôlego e o equilíbrio da visão mental, eis que ela se deparou com a cena funesta e escura do entorno. Achando que ainda não estava totalmente aprumada, pensou consigo: “Tenho que esperar um pouquinho mais até que eu possa vislumbrar minha nova morada.”
Grão a grão, escorreram as areias do tempo até que ela se deu conta de que não havia mais o que esperar. Era aquela mesma a imagem, era aquele mesmo o local.
Estarrecida (para não dizer assustada) foi em busca de alguém que pudesse lhe explicar o que estava acontecendo. Encontrou-se com uma figura esguia, vestes acinzentadas e pés descalços.
“O senhor poderia me dizer onde estou?”
“Ora, ora... No limbo!”
“Como assim? Impossível! Antes de iniciar esta viagem eu consultei para mim mesma as cartas e, segundo o jogo, vi asas na minha vida. O senhor tem certeza de que estou no lugar certo?”
“Minha filha, para se viver de interpretação, além da experiência que os anos trazem, não basta a intuição, há que se ter isenção. Você viu asas e achou que isto significava céu?”
“O que mais podem representar asas a não ser anjo?” Falava indignada a cartomante.
“Por acaso você via anjos?”
Ela balançava negativamente a cabeça.
“Asas soltas, no seu caso, são as que caíram. Assim como alguns seres celestiais que perderam as suas e tiveram que passar por aqui, devido à descrença ou mau uso de seus dons, alguns seres humanos também perdem suas chances de crescimento e precisam de mais um tempo de aprendizado.”
Cabisbaixa, deu as costas para o porteiro e desanimada caminhou em direção à nova oportunidade de crescer.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Estátuas na areia


Em meio à paisagem um tanto quanto árida, destacavam-se duas belas estátuas do mais raro mármore. O esmero das formas mostrava os detalhes dos contornos e era possível crer na realidade da representação. Estavam uma defronte a outra a se olharem.
Os que por elas passavam admiravam o trabalho do escultor, bem como prestavam atenção nos motivos que as colocaram ali.
Na rapidez das mudanças inesperadas, sobe o pó das areias nas asas da ventania que transforma a paisagem em um único tom bege sem nenhuma outra forma ou cor. Ninguém consegue ver nada mais!
Cada uma das minúsculas pedras acabou tornando-se cruel esmeril a bater fortemente em ambas as estátuas. Uma permaneceu, em grande parte, em sua forma original, somente cravejada dos pequenos estilhaços, mas era possível reconhecê-la como antes. A outra, à medida em que era atingida, soltava fragmentos de sua película mais superficial e revelava, aos poucos, outra base interior. No final, descascada, era completamente outra imagem.
Baixada a agitação da poeira, a cena ressurgia. De um lado, a primeira escultura que, apesar de um tanto quanto mais porosa (devido ao polimento forçado), mantivera os mesmos contornos e feições. A segunda, já não mais na posição que fora colocada inicialmente, encontrava-se de costas a observar uma outra imagem em pedra que surgira após haver cessado o caos.
Entretanto, eis que surge, voraz e inclemente, no horizonte, outra névoa sólida que, na esteira do ar, torna a cobrir todo o cenário! Restava às estátuas esperar passar o torvelinho.
Arrefecidos os ânimos dos Senhores do Tempo, descortinava-se diferente palco. Aquela imagem que fora descascada anteriormente jazia solitária. Perto não estavam nem sua primeira companheira, muito menos a outra que surgira (sabe-se lá de onde). Não passou de miragem e como tal era magnífica, mas volátil. Tão impalpável como improvável.
Rescaldo de quem se deixara-se enganar pelos olhos do corpo e, advindo da tolice encantatória, findou os dias cega na alma!

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

É noite lá fora!


O único intruso do mundo era o feixe prateado que, entre as brechas das distraídas cortinas, entrava tal como flecha de luz. Era pontual. Tocava uma nesga do solo e brilhava como um espelho de pequeníssima poça d'água. No mais, não havia nem ponteiros e nem metragens. Desapareceram as linhas encarceradoras do tempo e do espaço. Estávamos dispensados deles.
O ar, cravejado de diminutos sons arfantes, oferecia-se para nutrir as possíveis necessidades de ser alimento para o transcurso dos instantes (se dele precisássemos). A superfície que nos sustinha, disposta em uma maciez desalinhada de formas, não requereria reparos, pois se orgulhava de ser a testemunha das ondulações que singravam os mares bravios que buscávamos mutuamente. Houvesse olhos a observar notariam, vez por outra, duas sombras a se entrelaçarem. Entretanto, na grande maioria do ambiente, só se percebia uma única forma a se mover e a produzir a preciosa pedraria que brotava das superfícies (resultado dos movimentos e do ritmo instaurado). Apesar de salobra, era feliz.
Fadiga - vocábulo inexistente enquanto houvesse a crença de que ali reinava o desejo das descobertas – não fez morada. Palmo a palmo, os milímetros percorridos, os sulcos abertos, as clareiras atravessadas, tudo era motriz para a permanência inalterada das proibições de uma invasão temporal. Estancou-se o filete da areia dentro da ampulheta.
Por fim, nos primeiros indícios de alvores do novo dia, ali jazíamos, no nosso hiato das limitações, a nos regozijar pela recompensa do merecido descanso de uma eterna noite amando-nos.

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

No nascer do dia


Borbulhavam as espumas do mar, não pela agitação ou violência além do normal. Rompiam os limites de longe, chegando até a tênue linha entre as derradeiras ondas e a areia, e ao arrebentarem das alturas traziam consigo a melodia produzidas do mais recôndito das conchas-tritões.
Uma dança mágica que a poucos olhos atentos entretém. O aroma suave marinho espalhado pelo ar, a coloração forte azulada, com os bordados brancos aperolados que parecem rosários desfiados por mãos habilidosas. Brisa suave a desenhar na superfície delicadas contornos espirais na harmonia do ambiente. Toda paisagem se vê emoldurada pelo fundo de tela rosáceo dos primeiros aventureiros raios solares.
Sentado ali no pequeno arrimo que serpenteia a praia, meus pés, roçando o espelho d'água e meus olhos a fitar o horizonte, vejo leva-se das brumas de minhas lágrima a figura esquia e bela, coroada pelo divino existir. Sussurro para mim e ela me ouve: “Odoyá!”

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

As asas para voar


Ao abrir a porta, tropeçou num pequeno ninho. Agachou-se, fitou espantado e curioso ao mesmo tempo. Quem teria colocado ali o amontoado de palha? Havia dentro um diminuto pássaro, assustado e faminto. Levou para dentro o “pacote” (perdido, deixado, esquecido, nunca soube). E aí teve início o cuidado e a atenção. Correram os dias e a avezinha ganhou confiança e disposição. Plumagem cheia e reluzente, seu voo era planador e soberbo. De longe ouvia-se o seu trinar de alegria e segurança. Havia encontrado guarida e amor. Na esteira do tempo, a notícia da relação estabelecida entre o menino e o seu pássaro se espalhou. Muitos para lá acorriam com o intuito de admirar o espetáculo criado entre os dois. Era bonito de se ver.

Entretanto, atrelado a repercussão e a fama que se espalhou veio o receio do jovenzinho, pois tamanha beleza poderia despertar a inveja dos olhos alheios e a cobiça de terceiros.

Decidiu então resgardar seu pequeno tesouro de todas as formas. Evitava o sol com muita intensidade. Embarreirava o vento, impedia o pó da rua, não deixava abertas janelas nem portas... E a cada dia pensava em uma forma a mais para proteger o presente caro. Forjou em ferro dourado a mais linda gaiola que já se teve notícia, com espaço imenso e conforto de comida, água e poleiros.

Pronto... não corria riscos de ver sua felicidade exposta ao perigo externo.

Certa manhã, uma das mais azuis que o dia poderia fabricar, como sempre em sua rotina, foi alimentar o seu pássaro. Abriu a portinhola e com o assobio de sempre anunciou o início da jornada.

Silêncio (…)

Novamente, chamou com ar que entre os lábios passava.

Maior silêncio produzido ainda após o silvo (…)

Num canto da reluzente jaula jazia inerte o aveludado animal, cansado de não poder ser que verdadeiramente ele era: um pássaro a voar.

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Amigos na plateia


“Quem me conhece aí, levante a mão!” Gritei para a plateia que me ouvia. Olhando a assistência, todos os rostos era absolutamente conhecidos. Sem querer arriscar, mas quase afirmando, não havia alguém que fosse estranho.

Instintivamente e somando-se a tudo que aqueles que ali estavam já haviam vivido de histórias comigo, todos alçaram os seus braços para o alto. Passavam, naquele momento, os mais variados flash mentais de cada um sentado a minha frente. As imagens me eram projetadas também em meu campo da mente e eu via (e ouvia) inúmeras aventura, agruras e sentimentos por mim experimentados.

O tempo se perdeu na sua consecução lógica, os acontecimentos não precisvam de cronologia para serem entendidos e, uma vez mais sentidos. Na filosofia pessoana significa dizer “viver tudo de todas as maneiras”.

Não me detendo em quanto ficamos ali revivendo cada sensação, interrompi a minha própria catarse, onde revi e tentei entender a grande maioria do que chamo de minha vida, para novamente me dirigir à plateia e, interrompendo a alimentação de dados que eles me forneciam, afetuosamente na calma (mas fiermeza) de minha voz, troxe para perto de mim o microfone e os alertei:

“Desculpem-me todos vocês. Peço que não cansem seus braços! Podem abaixá-los. Sinto muito decepcioná-los, mas tenho que lhes dizer que suas respostas não são verdadeiras. Não porque mentem, jamais pensaria isto de quem quer que aqui esteja, já que todos são meus amigos. Entretanto, devo, por dever de fidelidade fraternal, informar-lhes que nem mesmo eu me conheço e que a máxima socratiana tem sido minha busca. Oxalá chegue o dia em que possa voltar a me dirigir a vocês e dizer: agora sim, conhecendo-me a mim mesmo, posso ter sido conhecido por todos.”

Desliguei o microfone, desci do tablado e segui em frente...

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Imagens

Nascia o dia e lá se punha ele a viver o seu cotidiano, na esperança (jamais na insistência) de que todos o compreendessem. Mesmo tentando não se impressionar, encafifavam-se as ideias e embaralhavam-se os argumentos. Mas o fato era que ele dizia “esquerda”, a maioria dos que o ouviam ia para a “direita”. E não era questão de uso de língua estrangeira, pois estivesse onde estivesse, nesse mundo de meu Deus, usava o idioma local.
Ele não desconfiava que os homens agiam de propósito, que as pessoas assim atuavam para contrariá-lo voluntariamente. Não era por revanche, vingança ou picardia. Não! Mas o fato era que olhava sempre em direção oposta a sua.
Amofinava-lhe o senso tais atitudes? Provavelmente sim. Entretanto, para além da sua vontade, tinha que seguir os dias, uma vez que não estava em suas mãos aceitar ou rejeitar o trânsito entre os demais.
Passada a jornada, findava-se o dia e retornava a casa. Entrava, ainda dando volta na cabeça para entender o motivo pelo qual as pessoas diametralmente olhavam para o outro lado. Entrou nos seus aposentos, aproximou-se do espelho e para dentro dele mergulhou para o descanso merecido e o sono que lhe levaria para o dia seguinte tudo recomeçar.

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

365 dias

O que você fará nos primeiros 365 dias deste ano? E você me perguntará: O que farei o ano todo? Antes de começar a responder eu lhe alerto: O ano todo não. Lembre-se de que fevereiro tem um dia a mais. Ou seja, você esperará o último dia do ano para fazer o balanço dos seus projetos?
Se a sua esperança se sustenta no desgaste dos dias, é hora de rever onde você tem alicerçado a sua vida. Corre o risco de 2012 já ter virado ano velho.
Lembre-se da noite do dia 31 do mês passado. Lembre-se de tudo o que desejou, planejou, sonhou, vibrou para que acontecesse. E agora? O ano já começou e o que está diferente? Será que vai esperar novamente o outro 31 de dezembro para renovar suas promessas de mudanças, rever e redirecionar as relações, as ações, os empreendimentos?
Não acha que é esperar muito para viver uma fugaz sensação de empenho que dura uma só  jornada ou, quem sabe até, parcas horas (as que se aproximam da meia noite)?
Como o tempo é realmente ilusório. Um ano novo nada mais é do que alguns bons pares de horas de um só dia, dentro dos 365 (ou 366, como agora) de todo o ciclo. Não faça isso com você. Busque entender que mais do que o anseio de um novo ano, você merece uma nova vida. De ontens a sua existência já se fez, de amanhãs, se for para só esperá-los, não acontecerá. Do que você nunca fugirá e nem escapará será de hojes.
Por isto, desejo-lhe a esperança de acreditar que você merece um Feliz Dia Novo!

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

As três pedras

Haviam brotado da mesma queda d’água as três pedras. Em tempos diferentes, situações particulares, mas o fato é que do mesmo curso vieram. Enquanto não foram ameaçadas por nenhuma torrente originada de temporais, os três minerais permaneciam algo próximos. Mantinham determinadas distâncias muito em função de suas experiências individuais, mas conseguiam acompanhar os seus cotidianos. Estavam perto, sempre perto, guardando e respeitando os limites umas das outras.
Mas nada como o tempo e o seu transcurso para que, após grande ameaça de temporal, viessem a ser tomadas de assalto por uma corrente muito caudalosa do rio da vida. A força das águas foi tanta que lançou cada pedra para um lado. Afastando o campo de visão, nenhuma das três mais conseguia ver as duas outras restantes. Acharam que estava traçado o destino e começavam a se contentar com o novo rumo que tudo havia tomado.
Porém, cumpre a sabedoria do inusitado a tarefa de surpreender, numa repentina manhã, quando nada mais se esperava de diferentes, já no fluxo normal do rio, eis que se reconhecem as três pedras.
Passada a emoção primeiro do encontro, os três irmãos renovaram a sua origem, compromissaram-se na verdade e decidiram viver a compreensão total do que significa para sempre. Sabendo que nem todas as vezes será tão próximo em contato físico, mas há de ser eternizado o acordo fraterno da felicidade.

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Destino

É impressionante a forma como a vida nos impõe tomadas de rumos que são independentes de nossa bagagem emocional, espiritual ou mesmo das experiências da vida fenomênica. A angústia e o receio têm que obrigatoriamente dar espaço para a ação. Coração de lado, lágrima retida, solidão da decisão. Eis o jogo da lila cósmica a nos impulsionar.
Nos meandros do desconhecido haverá, por certo, explicações que nos são vedadas por proteção. Para que não nos assustemos com o que fizemos, dissemos ou pensamos e terminados por impregnar a existência mais ampla que uma vida só. E para que não acusem nossas linhas de enigmáticas, o que se traduz hoje são as impressões do karma que quando desabam sobre nossas cabeças entram como estrondo ensurdecedor.
Conclusão: tampão nos ouvidos e resoluções. Lá vamos nós!

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

O óbvio e o inédito


1, 2, 3, 4, 6, 7... Pois bem, pois bem. A esta altura você está pensando: “Por que pulou o 5?” Ou então: “Xi, ele esqueceu do 5!” Mas que nada! Calma...calma... Esteja preparado também (e sempre) para ser surpreendido. Crie expectativas, é certo, mas não viva exclusivamente delas, uma vez que só o previsível não sustenta o mundo.
“Era de se esperar.” “Demonstrava uma sequência lógica.” e tantas outras elucubrações podem ser feitas. Ninguém as está proibindo. Porém, flexibilize. Prepare-se para poder não contar com o esperado, afinal de contas, a humanidade evoluiu a partir, muitas vezes, do que os demais não conseguiam crer e nem contar.
E quem foi que disse que projetos não são válidos? Olha aí novamente você tomando as primeiras letras para concluir o restante. Sonhe, idealize, projete, busque no presente os elementos que podem servir de esteio para o futuro... Entretanto, por favor, não cristalize e não engesse a magia das múltiplas possibilidades.
Alguns se frustam pelo que “consumiram de tempo” e pelo que não conseguiram observar do resultado tim tim por tim tim como haviam arquitetado. Estes se esquecem de que a vida é feita de um tempo real (gasto no momento) e impalpável (vivido pela lembrança e pela esperança). A ciência (ou arte, não sei bem) é lidar com os dois aspectos temporais (do dizível e do imprevisível). Por estas razões, não se furte da aventura de transitar entre a obviedade o ineditismo. Arrisque viver!

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Irmãs gêmeas

Sentou-se ao meu lado, com a educada frase “com licença”.Vestia-se bem, portava-se melhor ainda. Gestos tranquilos, voz calma. Boa aparência no geral. Iniciou a conversa, mesmo sem saber se eu queria, com os desgastados comentários sobre a beleza do tempo e da temperatura ambiente. Para não ser descortês, aquiesci e concordei vagamente com sorriso “mais ou menos”. Diante da minha resposta, prosseguiu na tentativa do diálogo. Não estava ali com tempo marcado e nem estava com projeto algum. Razão pela qual, dirigi um pouco mais meu corpo na sua direção, relaxei e ampliei as respostas. Das genéricas atmosféricas, não sei como e nem porquê, chegamos a outras assertivas e interrogantes. Não havia nada de maldade (isso era perceptível). Desta forma, em determinado momento, notei que as perguntas extrapolavam a curiosidade e eram quase que formulações de ideias que precisavam de minha confirmação. Como poderia aquela mulher saber tantas coisas sobre mim? Coincidência nas perguntas amplas demais que se pergunta a qualquer um? Notava que não! Cada vez mais as perguntas se tornavam mais específicas. Ela, serena e bem colocada, movia-se e eu, sem entender, envolvia-me!
Não aguentando mais aquele mistério, era minha vez de interpelar:“A senhora me conhece? Como é possível ter essas informações sobre a minha pessoa sem me conhecer?”
“Acalme-se! Não é para espanto e nem desespero. Posso lhe explicar.” Assim, iniciou o breve e o mais profundo discurso que já tinha ouvido!
Eu e minha irmã sempre lhe acompanhamos muito de perto. Desde sempre e para sempre nossa missão é estar ao seu lado. Não há como ser diferente. Por isto sabemos absolutamente de tudo que você fez de forma consciente e até mesmo quando você agia sem ter claro para você mesmo os seus atos. A diferença entre mim e minha irmã é uma única. Dela você sempre se lembra e se aferra cada vez mais. De mim, você, como a grande maioria, acaba esquecendo, rejeitando, não querendo conhecer e muito menos cogita ouvir-me. Já me acostumei, não sofro por isso, mas confesso a você que seria menos doloroso para todos se me vissem como gêmea mesmo de minha irmã. Não para assustar ninguém. Seria tão mais brando, geraria menos traumas, facilitaria a compreensão e a vivência se todos aceitassem de vez que vida e morte “nascem” no mesmo instante em que o homem chega ao mundo.

terça-feira, 29 de novembro de 2011

Abre-se a cortina


Não dá para dizer que haja uma preocupação com a quantidade de assistentes na plateia que possa medir a ansiedade da atuação. Este não é o fator que gera o sentimento da apreensão. Da mesma forma, não é a condição da estreia que faz com que o coração bata aceleradamente. Em poucas palavras, tanto faz “casa cheia” ou bilheteria zerada, primeira apresentação ou a derradeira, a questão é você no centro do palco.
Quando a ribalta acende, todos as variantes desaparecem, mesmo porque as luzes dos refletores em cima do ator, além de transformá-lo em personagem, impedem-no de enxergar o que está fora do palco. Nem distingue o entorno e muito menos é ele sozinho (perde-se a condição única de carne e osso e passa a ser carne, osso e “persona”). Todas as possibilidades se renovam a cada apresentação. Tudo pode acontecer diferente do que houve na véspera. E com quem conta o artista, ali, na “hora H”? Com ninguém a não ser ele mesmo e as circunstâncias que o instante produz.
Tais são as razões que me fazem explicitar a tensão que brota do enredo da vida. E por mais que a expectativa seja a de que, no final da encenação, haja aplausos, o suor frio escorre escondido pela maquiagem e a espinha gela a alma.

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Pedido


Ingressos comprados, casa cheia. Apreensão natural dos instantes iniciais. Os três toques anunciam que é chegada a hora. Aberta a cortina, não havia retrocessos. Ausência de som em toda a plateia. No centro do palco, um foco que se ampliava e o feixe de luz ia consumindo o breu lentamente até que se surge por completo a personagem.
Tinha início a peça.
O vazio do entorno dava ares ainda mais abissais ao espaço, ocupado somente por uma única peça – eu! A árdua tarefa era clara: deveria sozinho ser capaz de preencher toda a área.
A voz tronante (em off) faz a leitura dos autos da peça e assim o enredo se esclarece. Tratava-se da minha vida. O movimento do corpo, como quem busca encontrar cada peça do grande quebra-cabeças, tateava cada centímetro do chão ainda escuro. Levava no corpo uma peça leve de algodão pouco talhada, mas não mortalha que ganhava peso na medida em que me deslocava. A primeira fala abria o tempo da discussão: “Que ninguém me peça explicação! Nem eu a possuo, pois então!”

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Vivendo

O que busco de mim não são as respostas acabadas de quem sou. Porque caso assim quisesse encontrar, provavelmente, meus pés não me estariam pisando o caminho certo. Daria crédito a que sou um ente delimitado e pétreo. Não me concederia a chance da constante reformulação do que penso, sinto ou faço. Estaria fadado ao engessamento de tudo que trilhei e não abriria os olhos ao despertar a cada dia com o compromisso de reinventar-me. Não! Não esperem de mim o vasculhamento de minhas histórias com o simples propósito de sabê-las. Já as conheço e reconheço – e sei que nem de tudo me apercebi. O que me intensifica é a tarefa de por por terra as questões já formuladas. O que me sustenta é a crença que o imutável só pode existir no indizível, pois no plano das ações tudo – absolutamente tudo – pode ser outro, pode se transformar, crescer, evoluir e até mesmo ruir. Das coisas do mundo o que não se mantêm é para ser experienciado. E como não há entre o céu da existência e a terra das vivências nada que se eternize, o que me cabe é viver!

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Tragados


Os afobados do tempo começam a se movimentar quando se dão conta que termina mais uma fase. Eis que se aproxima a angústia dos anúncios de TV para nos lembrar que o fim do ano está chegando. Mas fim de que? E aqueles que se debatem entre as promessas não cumpridas e o desespero de terem que renovar os votos para o que acham ser um tal futuro tão próximo? Pobre deles. Mal conseguem passar pelos portais que eles mesmos geraram. Apressados, querem logo levantar os pés do lado vivido e plantá-los (bem plantados os dois) no vindouro momento. Uma espécie de remissão do pecado de não ter realizado aquilo que se propuseram a fazer. Mas quem deles cobra? Quem os sacrifica ou os sentencia mais do que suas próprias consciências? Ó doloridos homens acorrentados!
O movimento intermitente de lâmpadas hipnoticamente colocadas para distrair e a claridade dos neons os embota de tal forma que chegam a pensar que estão resgatando a última chande de viver.
O único clima de abafamento não é atmosférico. Reside, sim, na ansiedade posta no ar pelo corre-corre das compras, das dívidas, das dietas desregradas e do frisson que consumimos sem pestanejar.
Por onde andará nossa capacidade de respirar com a normalidade das horas? Em que local encontraremos a caminhada dos ponteiros segundo os critérios rítmicos estabelecidos pelo pêndulo temporal? Pergunto-me: tudo isto para que chegada? Angústia de quem busca, medo de quem encontra. Não posso deter a marcha, mas posso observar ao meu redor e ratificar a minha tese de que o que nos engolfa não é o tempo. Somos tragados, como carne mal mastigada, pela garganta da nossa cegueira diante do inevitável curso das areias que se esvaem inexoravelmente.

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Ampulheta




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terça-feira, 25 de outubro de 2011

Querer e poder


A dicotomia faz parte do alicerce da vida. Ai do homem que se deixa engolfar pela pressão exercida por essa divisão constante. Hora quando se quer, não se pode, hora quando se pode, não se quer. Fazer o quê, então? Drama? Dilacerar-se? Magoar-se ou magoar? Perda de tempo. Devemos coadunar os momentos em que a tranquilidade nos acena com os instantes em que os desejos e os planejamentos se tornam inexequíveis.
Quem, dentre nós, nunca passou pela situação de desencontro entre o que pensava ser o ideal e aquilo que encontrou na incompreensão generalizada dos homens e dos acontecimentos? Pois é isto, sem tirar nem por! Somos o somatório das alegrias (quando tudo concorre para nos atender) e das tristezas (quando chafurdam as nossas expectativas).
Porém, eu lhes pergunto: Quem morrerá por não ver satisfeitos os seus caprichos? Morre sim, mas morrem as ilusões. Estas... ora, ora..estas são assim mesmo...nascem e fenecem. Foram feitas para isto!
No crepúsculo delas, abrem-se os sulcos na terra da esperança para que mais tarde possam brotar novas construções de vida.
De par em par, abro as portas da minha existência e reconheço, firmemente, que não terei tudo do jeito que penso, até mesmo porque, meus pensamentos também passam e no escorrer da areia do meu tempo se transformam e me fazem crescer.

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Anjo e demônio

Tempo, monstro e mago dos meus dias, tu me devoras ao mesmo instante em que me transformas. Quimera e herói a atuar em meu sono, é o teu susto que me dá a chance de progredir. Senhor dos dias, opressor dos homens, negociador da humanidade, cura dos males, tantos os teus nomes, irrogavelmente verdadeiros que chego a sentir a inexorável vontade de me lançar a ti.

Num lapso de entendimento de minha pequenez seria esta a minha resolução. Contudo, alegro-me em reconhecer que passados os poucos segundos do pensamento daquela entrega a qual me deixaria levar, sou surpreendido pelo voraz desejo de deixar que tu mesmo te consumas em tuas areias. Busco, ao emergir da tua ampulheta, a liberdade do meu respirar e se queres, realmente, continuar a ser quem és, vem e vença-me. Pois se deixares para que eu assim o decida, perder-te-á em ti mesmo e triunfarei como Teseu que, sem olhar para o obstáculo, usou do ardil do fio para retornar daquilo que o aprisionaria.